Uma comunidade formosa e em crescimento - Plataforma Media

Uma comunidade formosa e em crescimento

Menos conhecidos do que os chineses do Continente, os residentes de Taiwan crescem gradualmente nos últimos anos e ganham maior representatividade em Portugal

A comunidade formosa enfrenta os seus próprios problemas, desde confusões no reconhecimento pelas autoridades de imigração, à falta de canais oficiais disponíveis para resolver problemas burocráticos simples.

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Mesmo assim, uma nova geração de recém-chegados ou descendentes de emigrantes taiwaneses com melhores conhecimentos linguísticos e recursos financeiros descobriu Portugal como um local ideal para estudo, negócios, ou mesmo reforma.

PIONEIROS NA FORMOSA

Foi em 1544 que os marinheiros portugueses descobriram a ilha na costa sul da China – os primeiros europeus a fazê-lo – que apelidaram de Formosa. A instabilidade política e económica na ilha depois da Segunda Guerra Mundial levou a uma vaga de imigração nos anos 50 e 60 para diversos destinos, incluindo os Estados Unidos, Canadá, Austrália ou para a América Latina.

Tsung Chechang, representante oficial de Taiwan em Portugal

Em 1975, Portugal cortava oficialmente relações diplomáticas com a República da China em detrimento da República Popular da China, contudo alguns taiwaneses chegariam ao país.

O representante oficial de Taiwan em Portugal, Tsung Chechang, ainda se recorda da diminuta escala da comunidade quando esteve em Portugal pela primeira vez, em 1993, para aprender português.

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“Naquela altura viviam cá duas famílias de Taiwan, donos de restaurantes. Não era muita gente e lembro-me que no Ano Novo Chinês convidámos os taiwaneses que conhecíamos para um jantar onde tínhamos quatro mesas no restaurante, daquelas mesas tradicionais chinesas em que em cada uma cabem umas 10 pessoas. Não éramos suficientes para encher essas quatro mesas,” lembra.

Contudo, indica que desde que tomou funções este ano ficou surpreendido com o aumento do número de jovens taiwaneses que emigraram para Portugal, ou para estudar, ou através dos vistos gold.

Uma jovem que exemplifica bem essa nova vaga é Enya Chan, uma taiwanesa nascida no Brasil, que reside há seis anos em Portugal.

Enya trabalha como diretora do departamento de imigração numa empresa portuguesa de contabilidade fiscal e a sua página do Facebook “Doce língua portuguesa” é talvez uma das fontes mais importantes em mandarim para a comunidade, com informações de viagens, atualidades e “vida de imigrante”.

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A taiwanesa é também uns dos membros fundadores da Câmara de Comércio Jovem Portugal Taiwan, uma associação criada este ano como plataforma para ofertas de emprego, empreendedorismo e assistência a estudantes taiwaneses no país.

“Foi apenas nos últimos dois anos que os taiwaneses começaram solicitar a imigração portuguesa, mas a maioria deles passou por agências de imigração em vez de procurar diretamente escritórios de advocacia ou empresas de contabilidade fiscal,” conta ao PLATAFORMA.

Enya Chen, uma jovem que exemplifica bem essa nova vaga em Portugal

“Este ano, devido à pandemia e a fatores políticos, o número de clientes taiwaneses que nos procuraram diretamente para consulta aumentou significativamente. Há também cada vez mais empresas taiwanesas a pensar em criar empresas em Portugal, porque Portugal é o centro da Europa e custos são relativamente baixos”.

O bom equilíbrio entre vida profissional e pessoal em Portugal, a personalidade dos portugueses, são alguns dos aspetos que a levaram a escolher o país como nova casa.

“Após conhecer os portugueses, descobrimos serem gentis e que têm a sua maneira própria de pensar e tentar entender os outros. Eu acho que o quociente emocional dos portugueses é bastante alto”.

A profissional legal acredita que atualmente cerca de 80 por cento dos taiwaneses que vivem em Portugal mudaram-se para o país “por amor”, por terem relacionamentos com nacionais portugueses ou estrangeiros a residir no país.

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“Há relativamente poucos taiwaneses a trabalhar cá. Com exceção dos taiwaneses de segunda ou terceira geração que falam português. Todos os outros trabalhadores falam inglês como idioma principal. Eles podem trabalhar em empresas estrangeiras, ser nómadas digitais, ou terem as próprias empresas e lojas,” aponta.

May Jian, uma profissional do setor da banca de Kaohsiung no sudoeste da Taiwan, mudou-se para Portugal em 2016, onde vive com o marido dinamarquês e a filha de quatro anos.

Como vantagens de viver em Portugal, aponta algo comum aos taiwaneses contactados para esta reportagem: clima ameno, uma sociedade segura e acolhedora para estrangeiros e um estilo de vida menos focada no trabalho.

No entanto, a outra face da moeda mostra também muitas preocupações comuns: lentidão dos serviços públicos, com especial ênfase na imigração, e uma sociedade pouco acessível para estrangeiros que não dominem o inglês.

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“Os problemas mais difíceis em Portugal estão relacionados com a candidatura ao estatuto de residente ou às instituições públicas. Todos os documentos em Taiwan podem ser aplicados rapidamente, como alterar uma bilhete de identidade ou solicitar qualquer documento. Duas semanas é muito. Mas em Portugal todos os documentos e sistemas médicos precisam de ser cronometrados em meses”.

UMA EXISTÊNCIA FLEXÍVEL

Segundo Tsung , oficialmente os registos de imigração portugueses indicam haver cerca de 46 taiwaneses em Portugal, contudo este acredita que o número real será bastante superior.

“Há muitos taiwaneses que quando chegaram cá e registaram os seus Cartões de Residência indicam ser de Taiwan, mas como o nome oficial no nosso passaporte é República da China, muitas vezes as pessoas fazem confusão e colocam República Popular da China,” Tsung explica ao PLATAFORMA.

“O SEF (Serviços de Estrangeiros e Fronteiras) tem uma categoria de nacionalidade de Taiwan, só que os funcionários às vezes não sabem bem a diferença e colocam China. Eu acredito que o verdadeiro número de taiwaneses em Portugal estará entre os 100 e os 200”.

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De acordo com o representante do Centro Económico e Cultural de Taipé – a embaixada de facto no país – desde que começou oficialmente as suas funções em julho deste ano, recebeu pelo menos quatro casos de reclamações de taiwaneses que receberam um cartão de residência com a designação errada.

Apesar de ser atualmente apenas 13 países terem relações diplomáticas com Taiwan, é comum haver representações económicas e diplomáticas na ilha que funcionam como embaixada “de facto”.

Contudo, dos países fundadores do espaço económico europeu, Portugal é atualmente o único sem uma representação oficial em Taiwan.

Uma posição não alheia às boas relações económicas e políticas entre o Estado português e a República Popular da China. Na prática, isto obriga qualquer cidadão taiwanês com necessidade de certificar documentos necessários em Portugal a deslocar-se à representação diplomática portuguesa mais perto da ilha, o Consulado Geral em Macau.

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Uma dificuldade acrescida ainda pelas restrições de movimento gerais pela pandemia nos últimos três anos.

“Felizmente existe agora o visto Schengen e, como residentes de Taiwan têm isenção de visto nesse espaço, qualquer taiwanês pode visitar Portugal sem preocupações. Mas antes para um taiwanês viajar para cá era muito difícil,” indica o representante da ilha no país.

POTENCIAL DE CRESCIMENTO

No ano passado, o volume total de negócios entre Portugal e Taiwan atingiu os 720 milhões de dólares americanos, um valor muito inferior quando comparado com outros países europeus.

A Áustria, por exemplo, um país europeu com uma população inferior a Portugal, registou um valor de negócios com Taiwan de mais de 1.3 mil milhões, recentemente.

Contudo, para Tsung, um aspeto importante para melhorar as relações económicas teria que passar por assinar acordos bilaterais entre governos, e estabelecer um centro económico de Portugal na Formosa.

Isto permitiria desenvolver parcerias comerciais em áreas que a ilha domina, como semicondutores, fabrico de bicicletas, tecnologia de apoio a energias sustentáveis ou vestuário desportivo.

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“A maioria das empresas Taiwanesas são PMEs bastante dinâmicas sem acordos. Estas empresas têm tendência a ir para países vistos como mais recetivos,” aponta.

“Por exemplo, assinámos cerca de 368 acordos bilaterais com os Estados Unidos. Desta maneira, um empresário taiwanês que viaje para lá, vai com confiança de que se acontecer algum problema há recursos para resolver”.

A comunidade tem também tentado aumentar os intercâmbios culturais – houve recentemente, uma exibição de fotografia no Museu Oriente do fotógrafo taiwanês Chou Ching-Hui, e empresariais com uma delegação de sete startups da Formosa que viajou a Lisboa para participar no Web Summit.

No entanto, para o representante formosino, a melhor maneira de aumentar o reconhecimento entre Taiwan e Portugal seria aumentar os fluxos turísticos entre os dois.

Com uma população de cerca de 24 milhões, Taiwan anualmente tem quase 17 milhões dos seus residentes a viajar pelo mundo.

“Antes da pandemia, apenas 7.000 taiwaneses visitavam Portugal por ano. Os taiwaneses não conhecem bem Portugal, mas imagine que temos um escritório de turismo com feiras de turismo em Taiwan para aumentar o mercado. Seria um grande negócio, é fácil e não tem nada de político,” Tsung aponta.

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“Recentemente, a companhia aérea EVA Air estabeleceu uma nova rota direta entre Taiwan e Milão. Porquê? Porque os escritórios de representação trabalharam juntos para a estabelecer. Imagine se tivéssemos uma rota aérea direta entre Taiwan e Lisboa?”.

De acordo como representante, as relações entre Portugal e Taiwan podem decorrer em paralelo com as da China.

“O que este escritório está a fazer cá não é político, promovemos o nosso turismo e cultura. Temos que ter essa vontade para trabalhar juntos e criar uma plataforma para os homens de negócios de Taiwan ou Portugal poderem facilmente instalar-se. Não é fácil escapar à política, mas a política de Taiwan é muito flexível”.

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