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Aguentem-se!

Talvez já poucos se lembrem mas eu lembro-me: até há uns vinte anos a selecção de Portugal era “humilde” e sem vitórias

Depois de décadas participando esporadicamente nas grandes competições internacionais, a partir do Europeu de 2000 não mais falhámos a presença em Europeus e Mundiais. Em 2004 Scolari teve a ousadia de mobilizar o país para apoiar a Selecção, viveram-se momentos intensos, coroados com a decepção pela derrota na final, porém o movimento ganhou raízes, ligámo-nos à Selecção como raramente o fizéramos no passado. Verificámos que neste desporto tínhamos talento e capacidade para estarmos sempre presentes nos mesmos palcos que as nações mais poderosas do mundo, vencer uma ou outra, chegar longe. Compreendem agora como se sentirá um brasileiro que já venceu cinco mundiais? Se fôssemos nós, não falaríamos de outra coisa… tal como eles. A diferença é que embora só joguem 11 o Brasil tem 21 vezes mais população. Mas Portugal teve a sorte de produzir e por volta de 2003/4 apresentar ao mundo o primeiro homem-robot do futebol.

Por esses tempos eu jogava um video-jogo chamado Championship Manager que simula a gestão de uma equipa de futebol. Os jogadores são reais, avaliados sob um rol de atributos físicos e psicológicos; é talvez o maior banco de dados do mundo sobre jogadores de futebol. Tal como na natureza não existe aptidão para tudo em simultâneo, a energia não é elástica, quanto maior o investimento numa especialidade, menor noutra; a chita bate recordes de velocidade mas por pouco tempo, falta-lhe resistência, a espécie humana investiu quase tudo num cérebro, sem ferramentas no meio da selva é ridiculamente vulnerável. Pois no início da carreira ainda sem ter desenvolvido por completo as suas aptidões, Ronaldo tinha neste jogo avaliações fantásticas, capaz de apresentar 20 valores em velocidade, 20 em resistência, bem como outras cifras elevadas em parâmetros opostos.

Tinha tudo, domínio de bola, jogo de cabeça, precisão de passe, potência de remate com qualquer perna, e isto sendo alto, uma qualidade em geral que no futebol costuma prejudicar a rapidez e habilidade. Calma, até agora só referi dados físicos porque talvez o mais impressionante desta “máquina” é o espírito que a move. Munido destes dados do jogo, do que via ao vivo, e mesmo antes de ser evidente o tal espírito, eu tentava assim explicar a amigos o porquê de ele ser único: se fosse possível desenhar em computador o jogador perfeito, com as características mais desejáveis para um treinador, o resultado seria o Ronaldo.

Hoje olhando para trás verifico que fosse por força de vontade, contributo científico ou os dois, ele teve consciência destas características proto-robóticas e passou os anos seguintes a aperfeiçoá-las até à excelência, gerindo a tal energia não elástica com fina inteligência. Pode ser já dele, talvez resulte da educação, da falta de recursos na infância, da necessidade de muito cedo ser o “homem da casa”, não sei; diria que o ADN deu uma ajuda todavia o que alcançou é um prémio à vontade de se modelar e modelar o destino, do obsessivo esforço em trilhar um caminho único, não ficar à mercê de nada nem ninguém, assumir o controlo do futuro. Milhões de jovens sem recursos dispõem apenas do futebol para se afirmarem e poucos saem da vulgaridade. Para Ronaldo o futebol foi a área que o destino ofereceu de bandeja para aplicar o espírito empreendedor; agarrou a oportunidade com unhas e dentes, inventou-se e inventou novos paradigmas, senão vejamos: qual é o seu modelo? Pois, não há, ele criou um novo, o seu. Ronaldo não tem tatuagens e consta, ou faz constar, que a razão é por ser dador de sangue. Desconheço se a explicação possui nexo, creio advir de motivo diferente. A maior parte dos futebolistas tem tatuagens, Ronaldo não tem; ao demarcar-se do rebanho está a afirmar “eu não sou como os outros”. Não digo que não as faça quando se retirar, digo que até ao momento esta atitude converge com as demais para o mesmo princípio: respeito pelo templo, o corpo que deu tudo o que lhe pediu. Por isso em certas celebrações de golo louvou algumas das suas partes, apontando para a cabeça, uma perna, um pé… Por mais que caia em armadilhas do ego e viva rodeado de folclore, desde sempre ressaltou um aspecto matricial do seu carácter: a genuinidade. É daqui que vem o carisma. Goste-se ou deteste-se, para o bem ou para o mal Ronaldo é como o algodão, não engana.

O jogador Ronaldo apurou-se até atingir o zénite das suas capacidades no Real Madrid, tendo então despontado o Ronaldo ícone mundial para lá do futebolista. Busquei “Ronaldo” no google e as principais opções que apareceram foram “Ronaldo – futebolista” (o brasileiro) e “Cristiano Ronaldo”; “Cristiano Ronaldo” resume tudo, não precisa de especificar o que faz, é mais que um futebolista, é… ele, o próprio. Na mudança para Madrid assistimos à sua passagem para uma nova dimensão, a dimensão onde o rendimento desportivo é de topo, sem dúvida, mas apenas o bilhete de entrada no Olimpo da cultura pop. E aí ou se tem um carisma único ou não se entra, muito menos se fica, não importa ser um grande profissional do showbiz, desportista, cantor, actor, político, milionário, etc. É esta a dimensão que o simples adepto da Selecção nacional de futebol não compreende, mas é esta a dimensão que a reboque de Ronaldo confere relevância planetária a Portugal. É chato mas é assim que funciona…

A característica que me parece mais apreciada pelos britânicos é ele não se conformar com o falhanço, a começar pelo seu. Durante anos e anos, certamente há mais de um século, Portugal foi sendo educado num entorpecimento fatal que lhe enfraqueceu a ambição de ser primeiro. Sobretudo no Estado Novo, a tal humildade (que espantosamente ainda faz escola nos dias de hoje) entranhou-se na medula dos ossos: achávamos ridículo, até insultuoso quem não tivesse vergonha de se salientar. A Carmen Miranda pode ter nascido em Portugal mas nunca seria portuguesa de coração. Muito à custa do trabalho prévio dos clubes, o corolário do sucesso desportivo no século passado sucedeu em 1966 com uma Selecção treinada por um brasileiro e cuja maior estrela era um dos quatro moçambicanos do plantel.

Gente criada fora do modesto Portugalinho, estão a ver? Não uma mas duas vezes a Selecção de sub 20 treinada por um moçambicano ganhou os Mundiais em 1989 e 1991. Foi uma mudança de paradigma, lançou gerações de novos talentos, habituou-os ao convívio com as conquistas, a ter a ousadia de assumir a luta por troféus. Começou a cair em desuso regressar a Portugal para receber o acolhedor abraço do fracasso. Ronaldo que até nascera fora do “rectângulo do fado” era mais um desta nova geração que se abriu ao mundo, vai a qualquer lado disposta a salientar-se, a ganhar, todavia ele elevou o padrão para lá dos limites dos melhores do planeta, tornando-se uma referência, uma espécie de herói clássico da mitologia grega.

Ronaldo pode ser um karma para todos, eu sei, jogadores, treinador, adeptos, mas só tenho um conselho: aguentem-se! Encontrem uma forma de o integrar no jogo, de o deixar brilhar. E quando digo isto não é uma paga pela contribuição passada do homem, é pela contribuição presente. Está num patamar muito superior ao do comum dos mortais, inclusivamente dos colegas: nós vivemos a realidade que nos é apresentada, ele cria a dele. O fantástico é que a realidade que ele cria muitas vezes coincide com a nossa ou até prova ser mais real. Depois de ver a entrevista que deu a Piers Morgan não consigo evitar a surpresa de pensar que é capaz de ter razão, e afinal só conhecíamos uma versão da história.

Ronaldo forçou a saída do Manchester United (problema dele) alegando sentir-se enganado por ter voltado a um clube parado no tempo, com dirigentes pouco interessados no sucesso desportivo, queixando-se do desrespeito do treinador, tudo coisas que aqui de fora vemos como caprichos de uma estrela em decadência, certo? Mais uma vez não esperou que outros agissem por ele, tomou as rédeas do seu destino, submeteu a agenda de um dos clubes mais ricos do mundo à sua, não receou ficar pendurado. Esta semana conseguiu o que queria, a rescisão amigável, e no mesmo dia os donos do clube anunciaram a intenção de o vender, ou seja: foi trucidado na comunicação social por criticar a falta de interesse dos donos no clube, e dias depois estes deram-lhe razão, não estão de facto interessados no clube… No fundo a entrevista foi um all in, neste momento não tem clube (que se saiba) elevando a fasquia até ao “impossível”, o tipo de reptos que o fazem correr: ou ganha o Mundial ou perde tudo. Ele nem espera por desafios alheios, ahahah, antecipa os seus.

Já agora confesso que até à famosa entrevista onde partiu a louça não tinha fé na Selecção, mas desde que ele se atirou para o tudo ou nada já acredito, até acredito que marque golos com o olhar tal deve ser a força anímica para levar o caneco para casa. Enfim, nem por um segundo duvido que Ronaldo vai dar tudo o que tem, porque enquanto os companheiros ficarão felizes por chegar longe, a Ronaldo só interessa ganhar a final, menos que isso é nada (também acho). Tem 37 anos, um museu cheio de troféus, qual a motivação para jogar à bola? Nenhuma, o que interessa é ganhar o Mundial, o que lhe falta. Aliás afirmou-o na tal entrevista, se ganhasse reformava-se, é claro, compreendo bem. Com certeza não tem o rendimento de outros tempos mas fora isso estamos a falar de outra galáxia de vantagens para a equipa e o país. Têm noção da mais valia que acrescenta a uma campanha de publicidade ao turismo de Portugal na Times Square em Nova York, da quantidade de adeptos e jornalistas de todo o mundo que arrasta atrás de Portugal, do que representa ser a figura com mais seguidores no Instagram a nível mundial, 500 milhões? Sejam homens como ele, aguentem-se todos, e aproveitem que está a acabar!

Quanto ao jogo contra o Gana, o resumo é curto: fomos felizes na sequência dos acontecimentos. Na primeira parte o Sr Engenheiro brindou-nos com o seu habitual medinho, na segunda parte Ronaldo cavou um penalty e marcou-o. A seguir temos de agradecer ao Gana por ter marcado um golo, não fora isso e a esta hora o Sr. Engenheiro ainda estaria a defender o 1-0. O empate abriu as hostilidades, literalmente. Por via disso os nossos jovens inconformaram-se, aplicaram mais velocidade e mataram o jogo… até verificarem que pensavam tê-lo morto. Bom aviso para perceberem que nenhum adversário está ali para se deixar matar.

*Embaixador do PLATAFORMA

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