Filme de Macau destaca-se entre os grandes do cinema chinês - Plataforma Media

Filme de Macau destaca-se entre os grandes do cinema chinês

Conhecidos como os Óscares chineses, o festival de cinema “Cavalo de Ouro” nomeou um filme de Macau em três categorias pela primeira vez. Falando ao PLATAFORMA, membros da produção consideram que as opiniões de fora são extremamente importantes para o desenvolvimento da sétima arte na cidade. Apesar das dificuldades, explicam que são essas mesmas limitações que distinguem o cinema local dos demais

Depois de ser nomeado em 2016 para a categoria de Melhor Curta nos prémios Cavalo de Ouro, com a sua obra “Crash”, o realizador local Hong Heng Fai foi novamente selecionado para o festival com a sua longa-metragem “Kissing The Ground You Walked On”. Este ano conta com nomeações para Melhor Realizador, Melhor Som e Melhor Cinematografia, competindo contra os melhores da indústria da sétima arte chinesa.

Leia também: “Este filme comprova que é possível fazer cinema em Macau e que estamos apenas no início”

O diretor-executivo da Comissão dos prémios Cavalo de Ouro, Wen Tien Hsiang, afirma que Hong Heng Fai é o primeiro realizador de Macau a ser nomeado nestas categorias, descrevendo as suas obras como “um encontro entre Ryusuke Hamaguchi e Tsai Ming Liang”.

Ao PLATAFORMA, Hong Heng Fai diz que a produção do filme estendeu-se vários anos e que grande parte do tempo foi dedicado à criação do diálogo. A obra iniciou em 2014, tendo sido financiada pelo Instituto Cultural de Macau (ICM) em 2017 e as filmagens concluíram no ano passado, com o trabalho de pós-produção a ser concluído este ano.

O orçamento do filme rondou as duas milhões de patacas, com o subsídio do ICM do “Programa de Apoio à Produção Cinematográfica de Longas-Metragens” a rondar 1.5 milhões de patacas.

O restante ficou a cargo da produtora de Hong Heng Fai, que confessa que os custos da criação de um filme em Macau são altos. E, devido aos recursos limitados, as filmagens tiveram de ser feitas com uma equipa pequena.

UM MODELO DE SUCESSO DIFERENTE

Foram cerca de 10 membros, todos eles residentes locais, que participaram na filmagem da longa-metragem. O realizador afirma que todas as produções enfrentam obstáculos. “A minha forma de realizar é um pouco mais ‘rústica’, portanto, para mim, a parte mais difícil é o processo criativo”.

Charlie Sou Wai-kin, cinematógrafo responsável pela nomeação para Melhor Cinematografia, partilha que o tema é “a condição humana” e é complicado de descrever em palavras. O filme é bastante diferentes das suas obras anteriores. É diferente do modelo mais industrial de Hong Kong, onde recebem o horário de trabalho para o mês seguinte.

Nesta obra, o plano de produção para a tarde era decidido durante a manhã, o que foi do seu agrado.

Leia também: Língua e cultura são chaves para a afirmação de Macau na Grande Baía

“Na verdade, o guião que recebia diariamente não estava totalmente definido (menos de 50 por cento). Com este tipo de estrutura mais íntima existe muito mais liberdade”, assume.

“Todo o mês de filmagens foi orgânico, não era um clima morto (pré-determinado)”.

Sou Wai-kin comenta que grande parte dos filmes de Macau tem como inspiração o cinema de Hong Kong ou Taiwan. Caso fosse filmado por uma equipa de Hong Kong, poderia ter sido finalizado em 10 dias, mas teriam sido perdidos muitos destes ajustes orgânicos.

Por isso, espera que o setor artístico de Macau consiga compreender que cada pessoa cria da sua própria forma, não é necessário seguir um estilo de fora.

Leia também: Segurança Nacional alargada ao cinema em Hong Kong

“Ficámos felizes em saber que podíamos acordar às 7h e terminar às 22h todos os dias. Mesmo não havendo um guião, o realizador conseguiu manter a equipa unida e relaxada”, conta um dos atores, Lam Sheung.

Acrescenta que a experiência do realizador como ator o ajudou a melhor descrever os problemas encontrados na representação, o que considera como um luxo e uma bênção. O facto de todos os membros da equipa estarem familiarizados uns com os outros também facilitou a comunicação. Foi uma aprendizagem conjunta, explica, já que a indústria de cinema local ainda está numa fase embrionária.

“O maior desafio para os atores é garantir que estamos sempre preparados”, acrescenta.

VISIBILIDADE PARA CRESCER

Lam Sheung é um dos poucos locais que já participou em produções do Interior da China e Hong Kong e, como tal, esta longa-metragem em Macau opôs-se paradoxalmente à sua realidade.

“[Filmar] em Macau deixou-me imensamente mais feliz do que no Interior ou em Hong Kong, todos nos conhecemos e comunicamos sem problemas. Quando trabalho na China continental ou em Hong Kong não sei como fazer perguntas, com medo de parecer ridículo, mas em Macau posso ser direto. Caso existisse uma indústria de cinema em Macau o mesmo não aconteceria. Tudo se pode transformar numa limitação”, enfatiza.

Leia também: “Macau está a ser filmado por locais pela primeira vez”

Lam Sheung acredita que a nomeação da obra, sendo Taiwan uma sociedade mais aberta, pode servir de inspiração para Macau.

“Finalmente é dada visibilidade aos vizinhos de Hong Kong e de Macau”, reitera. E dada a pequena dimensão de Macau, com pouca exposição, “comentários de fora são altamente importantes” para o desenvolvimento da indústria, que tem “pouca experiência”.

“NÃO PRECISAMOS DE DEFINIR OS FILMES DE MACAU”

Tanto Lam Sheung como Charlie Sou Wai-kin acreditam que não é necessário promover os filmes locais com a bandeira local. “Não precisamos de definir os filmes de Macau”, defende Charlie.

“Kissing The Ground You Walked On”

Na fase em que a cidade se encontra, acredita que já é bom ver obras locais a chegar lá fora, nem é algo que considere necessário.

Na sua opinião, a nível criativo existem algumas limitações em Macau, mas até certa medida são essas restrições que distinguem a cidade. Lam Sheung reforça: Quem cresce nesta cidade conhece o seu ambiente. Precisamos de mostrar as ruínas de São Paulo para ser considerado um filme de Macau?”.

Leia também: Projetos cinematográficos China-Macau ‘Mollywood’ foram lançados

O ator defende que alguém tem de dar o primeiro passo para romper nesta pequena indústria da cidade.

“Existem imensos realizadores em Macau que ‘são só garganta’, não podemos culpar o nosso contexto, quando a culpa é nossa de não sermos suficientemente bons”.

Para Lam Sheung a criação de cinema é difícil em qualquer parte do mundo. “Até existem realizadores no Iraque”, refere.

No passado, grande parte da produção de Macau vinha de projetos comerciais, encomendados por departamentos governamentais ou empresas de casinos, seguindo-se pelas ocasionais curtas-metragens. Após a pandemia muitos destes realizadores mudaram de direção, o que para o ator pode ser positivo, provando quem é capaz de perseverar nesta área.

O realizador Hong Heng Fai acredita que caso o Governo, ou outras entidades, possam oferecer mais apoio à indústria, além do financeiro, incluindo distribuição, promoção ou até mesmo contratos com cinemas, será possível ajudar a desenvolver a indústria de cinema local. Isto deve-se ao arranque tardio do setor na cidade, e o facto de se tratar de uma indústria de pequena dimensão atualmente, além de ser uma forma de arte e cultura bastante dispendiosa.

Leia também: Festival de Cinema Brasileiro em Pequim mostra diversidade cultural

“É impossível conseguir um retorno de capital positivo em Macau. Assumindo um contexto em que nos preocupamos com o retorno, com um orçamento de um milhão para um filme em Macau, na melhor das situações seria possível um retorno de 100 mil patacas. Caso se queira vender a obra em Hong Kong ou Taiwan, estes terão em conta os elementos do filme capazes de apelar ao público destas regiões para que o produto venda. É um processo longo. Atualmente fala-se muito da Área da Grande Baía, mas serão todas as culturas na região de facto semelhantes? Será que partilham os mesmos gostos em atores e narrativas?”.

O realizador sugere assim que o Governo comunique com os criadores regularmente para o desenvolvimento saudável da indústria.

Assine nossa Newsletter