Redesenhar a relação China-Lusofonia num mundo com novos desafios - Plataforma Media

Redesenhar a relação China-Lusofonia num mundo com novos desafios

Académicos do universo sinolusófono reuniram-se no “Fórum dos Think Tanks entre a China e os Países de Língua Portuguesa”, em Macau, para discutir a agenda de desenvolvimento e segurança global. Num contexto de instabilidade geopolítica e recessão económica, falou-se sobre os desafios, oportunidades e o papel de Macau na construção da ponte entre a Lusofonia e o gigante asiático

O evento foi descortinado por Liu Xianfa, Comissário do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China em Macau, que se mostrou confiante relativamente ao desenvolvimento da cooperação entre os Países de Língua Portuguesa (PLP) e a China. Mediante um ambiente geopolítico e sanitário desafiante, em que se enfrentam “mudanças sem precedentes” e “crises de várias dimensões”, Liu acredita que a cooperação poderá ser alicerçada no desejo comum de “paz e segurança”.

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Por outro lado, partilhou o que considera ser os “sucessos” da China nas áreas sociais, energéticas e económicas. “A China fez em duas décadas o que outros países desenvolvidos demoraram 100 anos a fazer. [Este desenvolvimento acelerado] é um bom exemplo que outros países podem seguir”, apontou.

Por fim, elencou os feitos desta relação nos últimos anos, como o aumento das exportações e importações entre os povos, o intercâmbio estudantil, a disseminação dos institutos Confúcio e o fortalecimento da rede de cidades geminadas.

“As portas da China não vão fechar, muito pelo contrário. Vão estar cada vez mais abertas”, vaticinou.

A seguir, foi a vez da Secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, Ao Ieong U.

Entre a difusão da Medicina Tradicional Chinesa e a cooperação que “Macau tem promovido” entre a China e os PLP, ressalvou “o papel de liderança” da cidade “no ensino da língua portuguesa na Grande Baía.

DESAFIOS COMUNS

“Por razões históricas os Países de Língua Portuguesa partilham a mesma língua e relações especiais entre si. Tanto a China como estes países estão em vias de desenvolvimento e enfrentam oportunidades e desafios. Estes países complementam-se e, nos últimos anos, o comércio bilateral bateu recordes históricos”, comentou Yu Xingming, da Academia Chinesa de Comércio Internacional do Ministério do Comércio da China.

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Tom Dwyer, diretor do Centro de Estudos sobre a China CASS-UNICAMP, também analisou um estudo que envolveu centenas de investigadores que procuraram entender as preocupações que ligam os jovens da China e do Brasil. A proteção ambiental, desenvolvimento sustentável e falta de oportunidades, por exemplo, foram pontos em comum. Nesse sentido, sugere que haja “colaboração a nível institucional” para arranjar soluções.

MAIS DO QUE UMA RELAÇÃO BILATERAL

Noutra ótica, Yu Xingming evidenciou que a relação entre a China e a Lusofonia “ultrapassa uma relação bilateral”. “Já é tripartida”, sustentou, referindo que envolve três continentes: Europa, África e América. E esta cooperação tem permitido “entrar em mercados terceiros”, dando o exemplo da China Three Gorges e da EDP, que já estão noutros países fora da esfera lusófona a desenvolver projetos de energia sustentável.

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“Portugal é extremamente importante para as relações com a Europa, sobretudo no contexto internacional complexo. É um mercado de apenas 10 milhões, mas abre as portas para o resto do continente”, defendeu Zhang Min, investigadora do Instituto de Estudos Europeus da Academia Chinesa de Ciências Sociais.

SEGURANÇA DESBLOQUEIA TUDO

No evento, uma das ideias mais debatidas foi a da segurança, sendo “um pré-requisito para o desenvolvimento, prosperidade e estabilidade”, acredita Yu Xingming. Osvaldo Mboco, decano da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Técnica de Angola – UTANGA, disse que o mais importante é definir “que tipo de segurança se deve estabelecer”, pois os desafios da África lusófona são distintos.

O académico assinalou que Cabo Verde é politicamente estável, mas carece de “uma economia pujante”; a Guiné-Bissau vive “instabilidade política”; Moçambique lida com a “ameaça terrorista em Cabo Delgado”, que já adiou o maior projeto de gás natural liquefeito do continente e, por fim, a recessão económica que vigora desde 2014 em Angola trouxe insegurança alimentar ao país.

“Sem paz ou segurança, dificilmente os países conseguem alcançar o desenvolvimento”, enfatizou, defendendo que esta problemática “tem de ser resolvida” para fortalecer a cooperação.

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Outro destaque da sua intervenção foi a questão da dívida africana à China. Apesar de dizer que “facilitou bastante o desenvolvimento de Angola”, considera importante “reconfigurar essa relação”.

“É preciso que as unidades de fabrico sejam transferidas para Angola para criar mais postos de trabalho e que haja transferência de know-how”. Apesar desse reparo, atribui também responsabilidades ao seu país, que diz ter de criar esse incentivo “melhorando o ambiente de negócios”.

Judite Nascimento, académica da Universidade de Cabo Verde, também enalteceu o investimento chinês em infraestruturas no seu país, que tem sido “estrategicamente direcionado para a educação, cultura” e agora começa também a escorrer para a saúde.

FÓRUM MACAU “AQUÉM DO SEU POTENCIAL”

As intervenções naturalmente viraram-se para o Fórum Macau, criado em 2003 por iniciativa da China e com o objetivo de consolidar o intercâmbio económico e comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa e de dinamizar o papel de Macau enquanto plataforma de cooperação.

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“Não é imediatamente percetível” os esforços do Fórum, disse o secretário-geral adjunto da instituição, Paulo do Espírito Santo. Por isso, diz que se deve encetar iniciativas “mais robustas que permitam às empresas aproveitar a plataforma, bem como agilizar os processos”. O também antigo ministro dos Negócios Estrangeiros da Guiné-Bissau não deixou de evidenciar o caráter único desta instituição:

“A China definiu uma estratégia distinta com os Países de Língua Portuguesa ao procurar uma plataforma institucional para as relações”.

“A recente avaliação externa conclui que o Fórum abriu um novo modelo de cooperação e que Macau cumpriu o seu papel como plataforma”, reforçou José Sales Marques, presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau.

Mesmo assim, “o Fórum ainda está aquém do seu potencial”, atesta Evandro Menezes de Carvalho, diretor do Centro de Estudos dos Assuntos entre o Brasil e a China da Fundação Gertúlio Vargas, apelando a uma revisão das linhas de crédito do Fundo de Cooperação e Desenvolvimento China-Países de Língua Portuguesa.

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Apesar da afirmação, não deixou de destacar alguns dos feitos realizados pelo Fórum, como as reuniões ministeriais, o aumento do interesse lusófono em produtos financeiros chineses, entre outros.

PONTE DISCRIMINATÓRIA

Desde 2020 que Macau tem adotado a política de casos zero da China continental para combater a pandemia de Covid-19. Como tal, o seu papel como ponte entre a China e os PLP tem sido afetado, apesar de agora se testemunhar uma gradual reabertura com o mundo. Desde 1 setembro que é permitida a entrada de cidadãos de mais de 40 países em Macau, incluindo Portugal e Brasil, ainda que obrigados a cumprir uma quarentena de sete dias num hotel designado, mais três dias de autogestão domiciliária.

Porém, os países africanos de língua portuguesa não foram incluídos, facto esse que Paulo do Espírito Santo disse “não beneficiar a cooperação win-win”, pedindo que se faça “justiça” para estes países que também “têm a pandemia sob controlo”.

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A pandemia fez com que a economia de Macau entrasse em recessão em 2019.

A dependência excessiva do jogo fez com que a diversificação [económica] tenha estado na agenda de vários governos, mas sem resultados práticos”, lamentou Sales Marques.

“É por isso que o 2º Plano Quinquenal prevê uma série de medidas para a diversificação”, nomeadamente através da Lusofonia. Relação esta que é facilitada pelo histórico comum no domínio legislativo, já que os sistemas jurídicos e administrativos são “semelhantes”, acrescentou.

“A articulação entre o sistema jurídico e comercial é um caminho eficaz para promover a relação”, defendeu Wei Dan, sub-diretora da Faculdade de Direito da Universidade de Macau.

Mas esta cooperação é “muito mais abrangente” e escorre para o campo cultural, social e académico, nomeada- mente no desenvolvimento sustentável, salientou Joaquim Ramos de Carvalho, coordenador do Centro Internacional Português de Formação em Interpretação de Conferência da Universidade Politécnica de Macau.

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Além de Macau possuir “vantagens na formação de quadros bilingues”, na disponibilidade de grandes infraestruturas MICE para promoção do intercâmbio e na integração de serviços financeiros entre as geografias, a sua relação com a Grande Baía permite ser um dinamizador entre os povos, descreveu Paulo do Espírito Santo.

A própria “realização deste evento [no meio de conflitos geopolíticos e pandemia] é uma prova irrefutável” do papel de Macau e da “vontade” destes povos em fortalecer a cooperação, terminou.

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