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Discussão da arquitetura moderna de Macau

A preservação da arquitetura moderna em Macau raramente é discutida. Apesar de algumas campanhas esporádicas ao longo das últimas décadas, muitos arquitetos consideram que a comunidade não se importa com estes edifícios. O principal obstáculo à sua conservação é exatamente o facto de a população de Macau não possuir uma relação próxima com a arquitetura. Um grupo publicou um guia que pretende transformar a arquitetura moderna num recurso cultural e turístico da região e encontrar uma solução para a sua preservação

A preservação da arquitetura moderna em Macau tem sido debatida ao longo das últimas décadas. A controvérsia com a paisagem do Farol da Guia em 2005 deu início a uma campanha entre a comunidade para proteção deste edifício que serviu ainda como força catalisadora de um movimento de preservação local. Uma das principais preocupações deste movimento é a arquitetura moderna. Estas construções eram altamente valorizadas na era da soberania portuguesa, como por exemplo a Escola Secundária Luso-Chinesa de Luís Gonzaga Gomes, construída na década de 30, e o Edifício do Mercado Vermelho, considerados património de valor desde a era colonial.

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Contudo, quase nove anos após a aprovação da “Lei de Salvaguarda do Património Cultural” em 2014, apenas o Antigo Estábulo Municipal, a Igreja de Nossa Senhora das Dores, a Ponte-cais n.o 1, a Antiga Ponte-cais da Taipa e o Cais de Coloane foram inseridos na lista de patrimónios locais protegidos.

Quando questionado sobre o facto de a preservação destas construções modernas não ter evoluído desde a aprovação da “Lei de Salvaguarda do Património Cultural”, o arquiteto Lui Chak Keong afirma que “existem vários interesses envolvidos”, além do facto de apenas parte da comunidade demonstrar interesse na preservação desta arquitetura.

LUTA ENTRE O GOVERNO E A POPULAÇÃO

O urbanista e comentador Lam Iek Chit acredita que caso o critério seja a proteção segundo a “Lei de Salvaguarda de Património Cultural”, os edifícios incluí- dos na lista serão maioritariamente de grande dimensão, com um design vistoso, associados a algum evento histórico ou de uso público. Mesmo cumprindo os anteriores critérios para inclusão na lista, muitos edifícios modernos ainda não são considerados património protegido, como é o caso do Cinema Alegria e do Mercado Municipal Horta da Mitra.

“O principal obstáculo à preservação da arquitetura moderna em Macau é o facto da população não possuir grande relação com estes edifícios. As linhas mais simples do design moderno acabam por não deixar uma impressão positiva entre o público, especialmente quando o mesmo está abandonado ou delapidado.

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É difícil convencer a população a apoiar a sua proteção, e ainda mais difícil conseguir auxílio do Governo quando a comunidade não apoia a causa”, explica Lam Iek Chit.

O mesmo se aplicou ainda a casos de preservação mais conhecidos, como os quatro edifícios de administração pública na Rua de Dom Belchior Carneiro em 2013 e o Hotel Estoril e Piscina Municipal em 2015.

Na altura, vários membros da comunidade sugeriram que o edifício Art déco da década de 60 usado pela função pública e propriedade do Governo, fosse preservado.

O Governo em resposta sugeriu a possibilidade da existência de ruínas do Colégio de São Paulo debaixo do edifício. Ung Vai Meng, tendo na altura acabado de assumir funções como Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, chegou até a considerar os edifícios como “vândalos”.

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Os dormitórios foram eventualmente demolidos e transforma- dos no atual local onde está localizado o Colégio de São Paulo e o seu parque de estacionamento. Em 2015, um ano depois da “Lei de Salvaguarda do Património Cultural” entrar em vigor, o então Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura propôs demolir o antigo Hotel Estoril e piscina Municipal Estoril para “construir um centro cultural e recreativo, incluindo um Centro Juvenil de Atividades Culturais”.

Apesar da opinião pública ser de que o antigo Hotel Estoril era um dos “edifícios mais icónicos de Macau, presenciando o desenvolvimento da estética arquitetónica mista durante os anos 60” e tendo sido iniciado o seu processo de qualificação como património, o mesmo foi rejeitado pelo Governo.

Em 2018, o Conselho do Planeamento Urbanístico aprovou a planificação do Edifício Rainha D. Leonor na Av. D. João IV, significando que o primeiro arranha-céus de Macau, construído na década de 50, poderia estar em risco de demolição.

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Na altura a deputada-eleita Lam Iok Fong, juntamente com uma série de arquitetos, entregaram uma petição com cerca de 700 assinaturas ao Instituto Cultural. Ao contrário dos edifícios da Rua de Dom Belchior Carneiro e do Hotel Estoril, o Edifício Rainha D. Leonor não foi demo- lido por diversas razões.

RECURSO CULTURAL E TURÍSTICO MODERNO

Para sensibilizar o público em relação à arquitetura moderna, um grupo de cidadãos criou a “Cooperativa de Planeamento Comunitário” e em 2014 publicou em cooperação com um artista local o “The Modern Trace – The Art Map of Modern Architecture in Macau”, um mapa desenhado à mão com 32 edifícios de arquitetura moderna.

Infelizmente, mesmo após a publicação do mesmo, muitos destes edifícios foram destruídos. O primeiro logo durante a preparação do mapa, concretamente a antiga empresa de panchões (cartuxos de pólvora) Kuan Iec, de três andares.

Depois da sua publicação, o edifício da Escola para Filhos e Irmãos dos Operários de Macau, construído em 1952 em frente ao Cinema Alegria foi também demolido. Duas construções em pedra no Centro Hospitalar Conde de São Januário foram igualmente destruídas para a construção de um edifício de combate a doenças infecciosas.

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Lam Iek Chit, membro do Conselho do Património Cultural, que também esteve envolvido na publicação do mapa, partilha:

“É uma pena, nenhuma destas demolições foi feita para lucro comercial de entidades privadas, mas para a criação de edifícios públicos de maior dimensão, ou seja, maiores hospitais, escolas, não é um problema que diga respeito apenas ao Instituto Cultural. O problema é que a sociedade de Macau não está consciente desta realidade para lutar pela história da cidade e memória da sua comunidade, como por exemplo a consideração de um meio termo para preservação destes edifícios, em vez de cair num jogo de soma-zero dominado pela demolição”.

Recentemente a Associação Docomomo Macau, um grupo preocupado com a conservação da arquitetura moderna da cidade, publicou o “Macau Modern Architecture — Walking Guide”. Este guia foca-se na arquitetura moderna da cidade entre a década de 30 e 60. Estes edifícios são uma prova da riqueza moderna em Macau.

O objetivo da publicação é oferecer ao público uma forma fácil e conveniente de explorar a herança moderna em Macau, explica o arquiteto Rui Leão. Não se trata apenas de turismo, é uma questão de identidade cultural e ligação à memória da cidade.

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O mesmo salienta que os 39 edifícios no livro são todos exemplos excelentes da sua era, e embora nem todos precisem de ser incluídos na lista de património protegido, não deixam de ser construções importantes em Macau. A seu ver estes edifícios merecem pelo menos ser mais discutidos. Macau, como cidade, deve compreender a importância destes edifícios e procurar promover maior diálogo sobre arquitetura moderna como património cultural.

“Nunca iremos conseguir implementar uma política sólida de preservação e construções públicas se não discutirmos a ligação entre a arquitetura moderna e a identidade local, assim como a sua importância para a comunidade”.

“Existe pouca discussão pública sobre arquitetura moderna e o Governo é indiferente à sua preservação. É da nossa responsabilidade trabalhar com diferentes organizações para dar voz a esta arquitetura, este silêncio é um crime.”

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