Resíduos médicos escondem perigo pandémico em Macau - Plataforma Media

Resíduos médicos escondem perigo pandémico em Macau

Macau entrou a 18 de junho no estado mais restrito de prevenção epidémica que a cidade alguma vez testemunhou. A grande quantidade de resíduos médicos criados durante este processo transforma a proteção ambiental no problema social mais silenciado durante o combate contra o vírus. Um virologista acredita que o despejo incorreto destes resíduos poderá causar infeções indiretas. Quem se preocupa com o ambiente afirma que as autoridades devem incentivar a população a reutilizar materiais não afetados pela contaminação

Desde o início do surto que o principal objetivo público se tornou a taxa de contaminação zero. Na praça, o tema de discussão é o “combate ao vírus” ou a “coexistência”. Excluindo a doença, o foco parece ser os atuais problemas económicos e sociais, contudo, várias pessoas continuam a afirmar que se deve ter em conta a proteção ambiental durante o combate epidémico.

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Num confronto entre o vírus e a população de Macau, a proteção ambiental e a ecologia, já marginalizadas, acabam por ser completamente ignoradas.

LIXO DOMÉSTICO

Para conseguir atingir o objetivo de infeção zero, o Governo de Macau tem adotado várias medidas, mas este trabalho de prevenção epidémica intenso gera uma quantidade enorme de resíduos médicos. Nas estações de teste de ácido nucleico podemos ver vários profissionais a utilizar sacos amarelos próprios para resíduos médicos, transportados depois para a Estação de Tratamento de Resíduos Perigosos em Coloane.

Mas e em casa?

RISCO DE INFEÇÃO INDIRETA

Os kits de teste de antigénio rápido incluem um saco de alumínio com uma tira plástica reagente, um saco selado com um tubo de ensaio, uma zaragatoa, em alguns casos um saco especificado como “Biohazard Specimen Bag” (saco para amostras de produtos com risco biológico), e um manual de instruções.

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Com a normalização da situação epidémica, estes itens, antigamente apenas presentes em hospitais ou clínicas, são componentes básicos dos testes de antigénio que a população utiliza regularmente, e por isso fazem parte do nosso lixo doméstico. Pinky, dona de casa de uma família de quatro, admite que a epidemia aumentou a quantidade de lixo na sua casa.

“Sempre que vou a uma estação de teste de ácido nucleico trago vários testes antigénio, assim como máscaras, mas as caixas parecem-me um grande desperdício, uma família por vezes leva logo 10 a 20 caixas”.

A mesma residente costuma estar muito ocupada com as tarefas de casa, por vezes os centros de recolha não estão abertos, ou não estão a aceitar resíduos e, por isso, as máscaras usadas e estes testes rápidos acabam misturados com o lixo doméstico. “Para evitar o trabalho extra, depois de usar o teste rápido atiro-o diretamente para o lixo, sem sequer usar os sacos incluídos no kit.”

PERIGO PARA A SAÚDE PÚBLICA

Jacky Cheong, professor na Faculdade de Saúde Pública da Universidade Jiaotong de Xangai, salienta que com a crescente popularidade de testes antigénio, que incluem zaragatoas, soluções e tiras de teste consideradas infecciosas após o uso, se estas não forem descartadas de forma correta, “existe risco de infeção indireta”, especialmente em contextos como o de Macau, com alta densidade populacional. A solução que o virologista aponta é a de “consciencialização pública”, acrescentando que a OMS possui diretrizes para o tratamento próprio de resíduos médicos.

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Contudo, Macau não implementou requisitos obrigatórios para a eliminação destes resíduos em contexto doméstico, nem a população tem o devido conhecimento sobre os mesmos. Por essa razão, reforça a importância de o Governo estabelecer direções claras.

ESTAÇÕES DE TESTAGEM ACUMULAM LIXO

O equipamento de proteção utilizado pelos profissionais em cada uma destas estações inclui máscaras N95, fatos e óculos para proteção, toucas, luvas cirúrgicas, proteções de sapatos, entre outros produtos descartáveis. Estes profissionais trocam ainda de equipamentos de proteção a cada intervalo.

Os trabalhadores que fazem a recolha das amostras são também obrigados a trocar de luvas entre cada sessão, para garantir a segurança do processo. Todavia, ao proteger a humanidade de uma possível infeção, vamos destruindo as nossas defesas ambientais.

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Os Serviços de Saúde de Macau (SSM) emitiram um comunicado de imprensa no início de julho onde afirmaram que com a implementação do plano de testagem universal, o Laboratório de Saúde Pública iria operar 24 horas. Até às 3 horas da tarde do dia 11 de julho, o laboratório processou mais de 4 milhões de testes. Este número significa que mais de 8 milhões de pares de luvas e de zaragatoas foram usados e deitados ao lixo.

Joe Chan, da Macau Green Student Union, que há muito se preocupa com o ambiente em Macau, afirma: “Este problema pode dividir-se em duas partes, primeiro os kits de teste e resíduos médicos criados durante a pandemia; segundo, a falta de reciclagem destes resíduos devido ao risco de contaminação faz com que estes sejam descartados em centros de incineração a altas temperaturas.

Em Macau, esta prática inclui o transporte de resíduos médicos para a Estação de Tratamento de Resíduos Perigosos.” Chan explica que segundo o “Planeamento da Proteção Ambiental de Macau (2021-2025)”, o volume de resíduos especiais e de risco enviados para tratamento em 2021 aumentaram em 35,5 por cento em comparação ao ano de 2020, para um total de 6.223 toneladas.

Existe assim um crescimento exponencial destes resíduos, e apesar da Direcção de Serviços de Proteção Ambiental (DSPA) ter aumentado a capacidade da Estação de Tratamento de Resíduos Perigosos e a capacidade de incineração, Joe Chan afirma que esta não é a solução.

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Mesmo com os altos requisitos implementados pela Estação para filtrar substâncias tóxicas e armazenamento permanente num local adequado em Macau, devido ao espaço limitado da cidade, o mesmo acredita que estas substâncias tóxicas serão libertadas com a erosão do solo e poderão eventualmente contaminar o solo e a água.

“Será como plantar uma bomba ecológica para as próximas gerações”, lamenta.

ATRASOS NO TRATAMENTO DE RESÍDUOS

Em Hong Kong, o Departamento de Proteção Ambiental implementou um Plano de Controlo de Resíduos Médicos em 2011 para regularizar o processo desde a produção ao tratamento deste tipo de lixo. O plano inclui não só um sistema de credenciação para empresas que recolhem e fazem o tratamento destes resíduos, como define diretrizes específicas para os produtores de resíduos médicos.

Após o PLATAFORMA questionar a DSPA e o SSM sobre a existência de requisitos específicos para o tratamento especial de resíduos médicos produzidos pelo combate epidémico, a DSPA publicou um comunicado onde declara que a empresa responsável pelo seu transporte, a Companhia de Sistemas de Resíduos de Macau (CSR), tem recolhido estes resíduos de acordo com os requisitos do departamento de saúde e transportado os mesmos para os centros de incineração.

“A temperatura de incineração deve ser mantida acima dos 850 graus Celcius para matar por completo o vírus”.

Os SSM não responderam até ao fecho da edição. Joe Chan concorda que perante um estado de pandemia não existe forma de reciclar todas as zaragatoas e tubos de ensaio utilizados. É uma realidade que temos de aceitar. “Numa situação epidémica, para além da falta de mão de obra, não existe nenhum país estrangeiro capaz de reciclar estes resíduos, a poluição é inevitável”.

Contudo, o mesmo acredita que existe ainda espaço para melhorar, com a implementação de políticas que incentivem a população a reciclar as caixas e manuais de instruções não contaminados.

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