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Recuar para seguir em frente

Guilherme Rego

Surgiram esta semana algumas luzes quanto ao destino da indústria do jogo. Algumas das alíneas desconsideravam o contexto socioeconómico de Macau e pareciam antecipar o fim da indústria – ou parte dela. Agora foi oferecido aos casinos-satélite um espaço no futuro. O diploma recuou na imposição de que estes teriam de pertencer às concessionárias e poderão agora continuar a sua operação mediante aprovação do Chefe do Executivo.

Estes casinos, que representam metade dos estabelecimentos de fortuna ou azar da cidade, já planeavam a sua retirada.

Circulava a notícia de que muitos iriam encerrar, e o primeiro a realmente fazê-lo foi o Grand Emperor. A grande preocupação era a salvaguarda de milhares de empregos ameaçados pela mudança: questionava-se a capacidade das concessionárias de proteger estes trabalhadores e a sobrevivência dos negócios alimentados por estas operações.

Leia mais sobre o assunto: Jogo: Governo recua na proposta para acabar com casinos-satélite

No entanto, especialistas apontam que esta alteração pode não chegar, pois a queda dos junkets e o controlo chinês na fuga de capitais e, consequentemente, na receita. As autoridades chinesas estão inclusive a recusar vistos a “jogadores frequentes”, para evitar viagens não essenciais durante os surtos epidémicos no Interior.

Cientes de que o mercado doméstico não promete o que outrora deu, procuram-se formas de atrair o internacional, incentivando as concessionárias a explorar outros mercados através de benefícios fiscais. Esta alteração à lei tem vantagens, mas algumas estabelecem uma mudança complexa de sistema. A verdade é que demonstram a
abertura das autoridades a dar passos atrás para garantir a sustentabilidade da indústria, enquanto se caminha para a diversificação económica – que será mais rápida e maior
caso se permita o desenvolvimento do jogo.

Contudo, a pressa é inimiga da perfeição, e quando se trata da maior indústria de Macau, mais cuidado se deve ter a moldar o seu futuro. O Governo começa a cair na realidade: a queda do jogo não beneficia a diversificação, muito pelo contrário. Sem o jogo será lenta e ineficaz. Numa autêntica corrida contra o tempo tem de se garantir a sua continuidade, ouvindo e considerando as opiniões sobre a lei.

A intenção do Governo é entregar a proposta de lei na Assembleia em junho, mas as dúvidas sobre a sua eficácia ainda são muitas; e mudanças durante a pandemia trazem dificuldades acrescidas. Têm de contemplar o contexto singular em que nos encontramos, ao mesmo tempo que preparam o futuro – que se espera diferente.

O prazo das novas concessões está alinhavado com os planos de diversificação. Para já, sobretudo pelas dificuldades que atravessam todos os níveis da sociedade, as mudanças não devem ser radicais, mas sim ajustar o que é extremamente necessário para controlar a atividade. Daqui a 10 ou 12 anos, conforme se prevê o fim das licenças que serão ativadas em dezembro, pode-se reavaliar a situação e adaptar novamente.

Nessa altura, o contexto socioeconómico deve ser mais estável, e novos setores de atividade podem permitir uma redução da indústria do jogo.

*Diretor-Executivo do PLATAFORMA

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