Faliram 261 PME beneficiárias de apoios financeiros em Macau - Plataforma Media

Faliram 261 PME beneficiárias de apoios financeiros em Macau

Até ao fim de março, cerca de 260 pequenas e médias empresas (PME) que receberam apoios financeiros no âmbito dos planos de apoio governamentais anunciaram o seu encerramento. Associações locais salientam que o mercado interno de Macau não satisfaz as necessidades financeiras destas empresas, e esperam que o relaxamento das medidas fronteiriças com Hong Kong possa aliviar a pressão

A chegada da pandemia motivou as autoridades de Macau a disponibilizaram uma série de apoios financeiros às empresas e à população. Entre 2020 e março deste ano, a Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT) aprovou 18.541 dos quase 21 mil pedidos de apoio no âmbito do Plano de Apoio a Pequenas e Médias Empresas (PME), Plano de Bonificação de Juros de Créditos Bancários e ainda a medida de “ajustamento de reembolso de diversos planos de apoio”. Todas estas
políticas de apoio financeiro totalizaram um investimento de 8,73 mil milhões de patacas (2,25 mil milhões de patacas dos empréstimos do Governo, cerca de 6,15 mil milhões de patacas dos bancos e 330 milhões da medida “ajustamento de reembolso”).

Leia também: Apoio às PME pôs travão ao fecho de negócios em Macau

Em resposta ao PLATAFORMA, a DSEDT informa que as três principais medidas de apoio destinadas às PME receberam um elevado número de pedidos. Só para o Plano de Apoio a PME, que permite contrair um empréstimo sem juros até 600 mil patacas, com a restituição a ser feita num prazo máximo de oito anos, foram recebidas 8.354 solicitações. Mais de 18 por cento dos pedidos (1.576) enquadram-se no âmbito da redução temporária dos requisitos para candidatura – basta as empresas exercerem atividade há um ano.

Porém, a DSEDT revela que 181 empresas beneficiárias do apoio já faliram, representando 2,7 por cento do número total dos casos aprovados. A este jornal, a autoridade explica que as empresas beneficiárias só precisam de começar a pagar o empréstimo 18 meses depois de terem recebido o montante. Por isso, “ainda não há PME que perderam apoio por não conseguirem pagar as dívidas”.

As medidas de confinamento no Interior da China têm vindo a melhorar muito. Isto permite que pessoas fora das zonas controladas visitem Macau. O mercado do Interior da China tem mais de 1,4 mil milhões de pessoas e é importante participar na circulação interna

Lei Cheok Kuan, presidente
da Federação da Indústria e Comércio
de Macau Centro e Sul Distritos

Um total de 5.063 PME solicitaram um crédito no montante máximo de dois milhões de patacas, com a bonificação de juros até quatro por cento e com um prazo máximo de bonificação de três anos. Neste plano, as autoridades cancelaram o empréstimo a quatro empresas por não conseguirem saldar a dívida e um total de 80 empresas beneficiárias encerraram portas até ao final de março deste ano, o que significa 1,7 por cento.

A DSEDT acrescentou que para salvaguardar a boa gestão do erário público, na eventualidade das empresas beneficiárias do Plano de Apoio às PME encerrarem o negócio, precisam de devolver a verba atribuída aquando do seu fecho. Quanto às que beneficiam da bonificação de juros, o Governo suspende de forma imediata o apoio.

O Executivo revela estar a acompanhar as necessidades das PME e a avaliar o efeito das medidas de apoio. Em outubro do ano passado, o Governo acabou por prolongar os planos de apoio financeiro.

Leia também: Macau anuncia medidas para garantir emprego e sobrevivência do comércio

Foi prorrogado o prazo de candidatura à medida “ajustamento de reembolso”, permitindo alguma flexibilidade nos pagamentos. O prazo de candidatura à medida provisória “Ajustamento de reembolso de diversos planos de apoio foi prorrogado mais um ano, vigorando até 31 de janeiro de 2023. As candidaturas do Plano de Apoio a PME e o Plano de Bonificação de Juros de Créditos Bancários estarão abertas até outubro deste ano.

Pessimismo e recessão

Um inquérito pedido pela Associação Comercial Federal Geral das Pequenas e Médias Empresas de Macau concluiu que quase um terço das PME despediu trabalhadores devido ao impacto da pandemia, sendo que perto de 10 por cento ponderam fechar portas.

A vice-presidente da referida associação, Melinda Chan, partilha que o inquérito foi realizado para averiguar a situação geral das empresas. A mesma responsável esclarece que “as pessoas que vivem em Macau, apesar de conscientes do contexto socioeconómico, precisam de uma avaliação global. Creio que só se pode analisar o mercado através de dados concretos”, concretiza.

“Obviamente que as PME estão muito pessimistas quanto ao futuro. Macau está em recessão e a crise está a alastrar-se a várias áreas”, salienta, acrescentando que as PME locais nasceram da prosperidade do setor turístico, mas de repente o número de visitantes caiu significativamente. “O impacto é gigante”, atesta.

Além disso, não há sinais de que as autoridades de Macau irão abrir as fronteiras a estrangeiros. Nesse sentido, os visitantes do Interior da China continuarão a ser a principal fonte.

A mesma responsável sublinha que “temos de acompanhar a tendência de encerramento das lojas. Porém, não vejo possibilidade de recuperar a curto prazo”.

Na sua perspetiva, a economia de Macau deve manter o atual cenário no segundo semestre deste ano.

A também diretora executiva da Macau Legend Development reconhece que atualmente os recursos humanos e os custos com as rendas não constituem o maior problema. “Macau não consegue sobreviver apenas com a procura interna. Ter uma população inferior a 700 mil pessoas impossibilita sustentar as empresas existentes”, esclarece.

A também ex-deputada da Assembleia Legislativa conclui ainda que todas as empresas foram afetadas pela Covid-19, mas as de Macau enfrentam uma dupla pressão devido ao ajustamento da indústria do jogo.

“O setor do turismo e do jogo são os principais motores da economia. Se estas indústrias entram em declínio, as expetativas das PME são destruídas, como aconteceu com muitos pequenos negócios no NAPE. Os turistas gostam de ir aos restaurantes locais e provar diversas iguarias locais. Agora, estes negócios foram forçados a encerrar portas”, indicou.

Por agora, Melinda Chan refere que os hotéis ainda estão a aguentar, mas alerta que “se chegarmos a um ponto em que encerram, então a crise passa a ser gravíssima”.

Expandir negócios em Hengquin

Umas das conclusões levantadas pelo inquérito e levado a cabo pelo Centro de Pesquisa de Macau indica que mais de um terço das PME (32,1 por cento) concordaram que o Projeto Geral de Cooperação Aprofundada de Hengqin é positivo para negócios, enquanto mais de metade (53,4 por cento) expressaram o desejo de expandir para a Ilha da Montanha.

Leia mais sobre o assunto: Benefícios para empresas de Macau em Hengqin

Contudo, as empresas que já planearam e estão prontas a implementar as ideias ou estão em vias de planeamento representam apenas 5,8 e 7,7 por cento, respetivamente.

As empresas dos setores de exposições, convenções, indústrias culturais e criativas (16,2 por cento), e imobiliário, gestão de propriedades e engenharia (15 por cento) indicaram que planeiam desenvolver negócios em Hengqin. Mais de 10 por cento já tinham planos e estavam prontas a implementá-los, enquanto que 17,3 por cento estavam ainda a planear.

Contudo, metade referiu não saber como começar (14,2 por cento) ou não ter um plano específico (34 por cento), totalizando 48,4 por cento.

O setor do turismo e do jogo são os principais motores da economia. Se estas indústrias entram em declínio, as expetativas das PME são destruídas

Melinda Chan, empresária

Neste contexto, Melinda Chan analisou que uma parte das PME registou prejuízos graves durante a pandemia, por isso, é difícil avançar com planos de investimento.

Ademais, a ex-deputada explica que agora o fluxo de pessoas em Hengqin “não é satisfatório para os negócios, por isso, as PME ainda não têm coragem de expandir os seus negócios lá”.

A empresária mencionou ainda que segundo dados obtidos, o nível do salário para os recém-graduados de Macau reduziu para as 10 mil patacas, estando esse valor próximo do salário de Shenzhen.

De olho no mercado de Hong Kong

Por sua vez, o presidente da Federação da Indústria e Comércio de Macau Centro e Sul Distritos não está muito pessimista quanto ao segundo semestre deste ano.

Em declarações ao PLATAFORMA, Lei Cheok Kuan apontou que o número diário de casos positivos da Covid-19 em Hong Kong deve cair para os dois dígitos. Nessa altura, “será uma boa oportunidade para os governos da RAEM e da RAEHK negociarem para relaxarem as restrições nas fronteiras”, concretiza.

O mesmo responsável afirma que o passaporte de vacinação pode funcionar entre Macau e Hong Kong, admitindo que o mercado local pode ter mais do que apenas visitantes do Interior da China.

Leia mais sobre o assunto: Passaporte de vacinação pode ajudar turismo

Além disso, Lei Cheok Kuan sublinha que o Governo anunciou a nova fase do plano do cartão de consumo, que irá injetar mais de 5,9 mil milhões de patacas no mercado interno. Em simultâneo, “as medidas de confinamento no Interior da China têm vindo a melhorar muito.

Isto permite que pessoas fora das zonas controladas visitem Macau. O mercado do Interior da China tem mais de 1,4 mil milhões de pessoas e é importante participar na circulação interna”, atira.

No que diz respeito às dívidas contraídas pelas PME, Lei Cheok Kuan afirma que a associação manifestou esse problema ao Governo. “Segundo a resposta que recebemos, para aliviar a pressão das empresas no pagamento de dívida é precisa uma autorização da Autoridade Monetária. Nesse sentido, esperamos que o Governo comunique com a AMCM”, referiu.

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