A questão de identidade numa família multicultural no Tibete - Plataforma Media

A questão de identidade numa família multicultural no Tibete

A questão da identidade para famílias multiculturais tem sido um dos focos da Associação de Intercâmbio Linguístico e Promoção Cultural (LECPA). Estas famílias podem ser divididas em duas categorias.

A primeira, é criada quando um agregado familiar é influenciado externamente por uma cultura diferente, seja devido à imigração ou a uma mudança de regime. É o caso de Carlos, que pertence à segunda geração de imigrantes filipinos, nascido e criado em Macau, o qual abordámos em fevereiro.

O segundo grupo diz respeito a famílias multiculturais criadas através de casamentos, coabitações ou adoções. É sobre este grupo que partilho de seguida uma história que presenciei na China continental e que explora a questão de identidade em famílias multiculturais.

Um motorista de etnia Han levou alguns clientes para uma pequena, mas famosa, pensão indígena na Região Autónoma do Tibete. A pensão era gerida por um casal, o homem era tibetano e a mulher uma imigrante americana lá radicada há 21 anos.

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Os convidados tinham viajado uma longa distância para explorar a beleza escondida do local e visitar campos e montanhas de perto.

Um tibetano vem dar-lhes as boas vindas, e o motorista exclama cheio de entusiasmo “não têm por aqui uma americana? Ela está em casa? Quero vê la! Vá lá chamá-la!”. Angela, a dona da pensão, gritou de seguida do segundo andar: “Não, não temos! Vá-se embora!”.

O marido de Angela, Djarga, e a filha do casal

Um dos hóspedes, envergonhado, subiu e explicou a razão da sua visita, pedindo desculpa pela indiscrição do motorista, ao que Angela respondeu: “Sem problema. Ele foi demasiado rude. Eu compreendo-os, mas isso não significa que tenha de o tolerar.Venham, sentem-se e bebam um café”. Enquanto o grupo estava sentado no jardim da pensão à espera do café, Angela aproxima-se e fala com o motorista no seu mandarim fluente.

“Tens de me respeitar, eu também sou humana e não estou aqui para olhares para mim! Já cá vivo há 21 anos, falo mandarim e tibetano. Já cá estou há tanto tempo que me considero local”. Estas palavras fizeram com que eu entendesse a identidade de Angela enquanto uma ‘local’, pela primeira vez.

Tal como o caso de Angela, muitas famílias multiculturais são produto de uma história de amor. A dona da pensão e o marido tiveram de encarar a fusão e atrito de duas ou mais culturas.Vinda dos Estados Unidos, a imigrante americana teve de se adaptar ao impacto de pelo menos duas culturas e línguas. Aprendeu chinês e tibetano, integrou-se na cultura tibetana e teve ainda de compreender a sociedade e a cultura chinesa como resultado da “sinização” da região autónoma. Já o seu marido, Djarga, teve de aprender a cultura e a ideologia ocidental através da mulher.

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Isto foi um choque para quem estava habituado a viver em zonas tão remotas da China desde os tempos de infância. Se um casamento requer compromissos, este casamento multicultural exige abundância, assim como uma compaixão do fundo do coração. Para tal, a comunicação é essencial.

Contudo, estes núcleos familiares também têm de lidar com uma barreira linguística. É por isso que a criação de uma identidade e forma de comunicação comum tem sido um dos pilares fundamentais destas famílias.

Embora Angela viva no território há 21 anos, e tenha estabelecido família com alguém local, muitas pessoas, exceto as que a conhecem, ainda a consideram estrangeira e não conseguem deixar de olhar fixamente para ela.

Quando questionada sobre a sua identidade, a mesma revela alegremente que não pensa muito nisso. Embora os seus hábitos de vida (como reparar as casas do campo, beber leite de iaque, e comer bolos da montanha) sejam os mesmos que os das mulheres tibetanas, Angela nunca se sentiu tibetana e não adquiriu a identidade chinesa.

Angela e a filha

A mesma está convencida de que pertence realmente à comunidade da Vila de Gulong. A vantagem de estar num lugar tão pequeno como Gulong é que todos os que lá vivem são indivíduos independentes, não estando limitados à identidade do sistema social. O marido tibetano, e a filha que está a estudar nos Estados Unidos, também têm opiniões diferentes sobre as suas próprias identidades. Contudo, o que os mantém unidos é a comunicação e um sentimento de pertença à família, o que acontece com outras na pradaria.

Angela faz também uso da sua própria ‘bagagem’ cultural e língua. Desde 2001 que juntamente com o seu marido gere a pensão e usa o seu conhecimento e experiência nos EUA para encontrar voluntários de todo o mundo dispostos a ajudar a construir sistemas de energia renovável na região e a resolver os problemas trazidos pela urbanização.

O objetivo é garantir uma vida pacífica nestas terras passadas de geração em geração.

Em suma, espero que as famílias multiculturais por todo o mundo possam olhar para o caso da Angela e do seu marido e aprender a criar pontes entre as suas línguas e culturas, pois apenas ao nos complementarmos mutuamente é que conseguiremos criar uma vida melhor.

*Membro da Associação de Intercâmbio Linguístico e Promoção Cultural (LECPA)

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