Resultados das eleições relacionados com a pandemia e opinião pública? - Plataforma Media

Resultados das eleições relacionados com a pandemia e opinião pública?

Fundado em 1988, o Boletim de Estudos de Macau é uma publicação local de língua chinesa, que recentemente publicou um estudo sobre as eleições da Assembleia Legislativa do ano passado. Num outro artigo, analisámos os seus resultados de uma perspetiva académica. Aqui, iremos comentar o único estudo quantitativo sobre o tópico: “Hábitos de Voto, Competição durante Eleições e Resultados – Estudo Empírico Baseado nas 7ªs Eleições para a Assembleia Legislativa de Macau” por Huo Weidong e Huang Weiqi.

Antes de iniciar, é importante explicar brevemente os requisitos básicos para um estudo quantitativo. Em comparação com um estudo qualitativo, este possui um maior número de normas e critérios objetivos, e é isso que faz dele “cientifico”.

Estes critérios incluem o uso de dados apropriados para responder às questões levantadas durante o estudo, nível de confiança e validade das variáveis e um modelo estatístico correto.

Caso não sejam cumpridos estes critérios, as conclusões do estudo estarão comprometidas.

Desta forma, conseguimos imediatamente fazer uma simples avaliação do artigo acima mencionado: insuficiente, por violar mais do que uma das normas.

Primeira violação: dados usados

Uma das infrações mais graves trata-se do facto de os dados usados no estudo não responderem a uma das questões levantadas pelos autores: Quais os fatores que afetam a alta taxa de abstenção durante as eleições para a Assembleia Legislativa de 2021?

Na publicação, os autores oferecem duas possíveis explicações.

A primeira foi apresentada por Tong Hio Fong, membro da Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa (CAEAL), que referiu que “a pandemia, as medidas de controlo epidémico e o tempo são as principais razões que afetam a vontade de votar”. A segunda são, na verdade, quatro fatores resumidos pelos autores com base na literatura disponível, “consciência cívica” “interesse político e identificação com um partido”, “motivação para votar” e “nível de competição”.

Quaisquer que sejam os fatores, só está aqui em causa a vontade de cada eleitor em votar. Mencionei num artigo anterior que se houver interesse em investigar a relação entre as desqualificações e a taxa de abstenção, a forma mais científica de o fazer será através de um inquérito ao mesmo grupo de eleitores antes e depois das eleições. Contudo, segundo sei, não existem dados semelhantes em Macau. Ou seja, não se consegue comprovar a correlação entre os dois fatores e a possível influência mencionada anteriormente.

A primeira coisa que me chamou à atenção neste artigo foram os dados usados pelos autores e a sua análise. Como era de esperar, visto não existirem dados sobre as intenções de voto e o comportamento dos eleitores num nível “individual”, os autores não foram capazes de medir o primeiro grupo de fatores de influência.

O segundo grupo de fatores também só conseguiu ser medido “indiretamente”, através de dados alternativos. Por exemplo, usa-se “participação eleitoral na freguesia” em vez de “voto ou não-voto do eleitor”.

Em termos empíricos, “freguesia” e “eleitor” são unidades de diferentes dimensões, mas a hipótese criada pelos autores com base em estudos anteriores faz uso da métrica “indivíduo”. Não existe justificação nem apoio teórico para aplicar estas conclusões também a “freguesias”.

Segunda violação: assunções do estudo

O facto da teoria que sustenta o estudo e as suas variáveis não estarem na mesma unidade criou ainda outra falha nesta publicação. Por exemplo, conjeturas não fundamentadas como a hipótese 1: “Existe uma correlação positiva entre a taxa de voto da mesma mesa de voto ou freguesia durante estas eleições e as anteriores”, segundo referem os autores.

“O hábito de voto por si só já reforça a consciência cívica da população e a sua crença na participação política. A ação de voto irá aumentar significativamente a probabilidade de participação nas eleições seguintes”, salienta ainda o estudo.

No entanto, aqui fala-se de participação “individual” e não de “freguesia” como mencionada na hipótese 1. Alguém que vote regularmente, como todos podemos esperar, irá provavelmente continuar a votar nas próximas eleições. Todavia, não consigo compreender como a taxa de voto de uma certa freguesia nas últimas eleições para a Assembleia Legislativa tem qualquer correlação com a taxa de abstenção global.

Segundo a hipótese 2, “existe uma correlação negativa significativa entre os eleitores ‘pró-democratas’ e a taxa de voto”. Mais uma vez temos uma suposição que aplica incorretamente a teoria utilizada a uma unidade diferente. Os “democratas” estão em clara desvantagem em termos de recursos em comparação com as cinco maiores
associações, sendo que a sua mobilização de votos depende apenas de ideologia.

Por isso, é plausível assumir que quantos mais cidadãos se identificarem com as ideias democratas, mais alta será a sua probabilidade de votar.

Pelo contrário, caso os democratas sejam desqualificados das eleições, estes indivíduos podem escolher votar noutra lista, não votar, ou até votar em branco. Ou seja, existe uma relação entre os eleitores apoiantes do movimento “pró-democrata” e a sua taxa de voto, mas não com o resultado global das eleições.

Na verdade, tendo em consideração que a percentagem de voto dos democratas tem sido estável e os seus apoiantes constituem uma minoria, com o poder sólido mobilizador
das listas tradicionais e associações de trabalhadores, é teoricamente possível que os pró-democratas sejam responsáveis pelo crescimento da abstenção em 10 por cento nas últimas eleições legislativas. Contudo, como não existe nenhuma sondagem eleitoral em Macau, não existe forma de sabermos se estes apoiantes democratas foram de facto votar ou não.

Assim sendo, porque deverão as autoridades estar preocupadas em convencer a população de Macau sobre o impacto da pandemia e do tempo no resultado das eleições?

*Macaology

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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