A arte de bem preservar - Plataforma Media

A arte de bem preservar

A preservação cultural e histórica estão incluídas nas dez medidas de Guangdong para melhorar a qualidade de vida da população. As autoridades da província chinesa afirmam que foi alcançado o objetivo anual de “preservação de edifícios históricos em todos os concelhos” em 2021. Poderá tal servir como exemplo para Macau? Alguns acreditam que medidas semelhantes estão já a ser implementadas, apesar de necessitarem de maior clareza. Outros afirmam que se deve inovar estes espaços restaurados para atrair um maior grupo de visitantes

Segundo o jornal Nanfang Daily, o Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano e Rural de Guangdong publicou critérios sobre o reconhecimento de valor histórico, renovação e restauro de um edifício.A província chinesa já estabeleceu um sistema de mapeamento e registo destes edifícios históricos através de um atlas, tendo também implementado visitas guiadas a estes edifícios. Existem atualmente 4050 edifícios históricos em Guangdong, mais 343 do que em 2021.

Esse registo faz com que seja uma das províncias com maior número de edifícios com valor histórico em todo o país. Entre estes, 3767 (cerca de 93 por cento) estão marcados com uma sinalização de proteção, sendo que 2607 já foram registados no sistema de mapeamento. Uma série de regiões tem ainda reconhecido a identificação destes locais como parte importante da conservação da herança cultural e histórica da província, como é o caso de Chaozhou. Nesta cidade, foi implementado um sistema de sondagem e conservação que inclui sugestões feitas por peritos, assim como candidaturas pelos próprios proprietários dos edifícios.

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O presidente da Associação dos Embaixadores do Património de Macau, Wallace Or, afirma que várias das medidas noticiadas, como o sistema de registo, foram já implementadas em Macau. Segundo a Lei de Salvaguarda do Património Cultural, o processo de candidatura pode ser iniciado pelo próprio proprietário do imóvel. A mesma legislação inclui ainda uma cláusula de incentivo para “distinguir contributos relevantes na salvaguarda do património cultural”.

“É algo raramente aplicado em Macau, e os departamentos relevantes podem considerar seguir esta direção”, afirma.

Já o arquiteto Jimmy Wardhana espera que as atuais normas de preservação do património sejam clarificadas. O mesmo salienta que em várias regiões do estrangeiro foram já implementadas regras para a preservação da paisagem urbana, essência da cidade, havendo até restrições sobre o design da sinalética. “Caso os arquitetos sigam estas normas, será garantido um ambiente geral urbano positivo”, esclarece o arquiteto que participou na 7a edição da Bienal Shenzhen-Hong Kong de Arquitetura e Urbanismo em 2017.

Como membro da equipa de curadoria do Pavilhão de Macau, Jimmy Wardhana foi responsável por apresentar ao público o atual estatuto e futuro desenvolvimento do conceito de “pátio”, algo único em Macau. Em entrevista ao PLATAFORMA, o mesmo refere que estes pátios são uma característica especial da cidade, sendo um testemunho da vida e comunidade do passado.

Para o arquiteto, alguns dos edifícios entre estes pátios e becos “seguem proporções magníficas e o estilo Lingnan, mas devido à sua idade e degradação vários representam um problema de segurança”. O mesmo partilha ainda que a equipa teve imensas ideias durante a preparação da bienal, incluindo a adição de novos elementos a estes pátios para os transformar em locais turísticos.

“Macau é uma cidade para se andar a pé. Embora muitos destes pátios e becos sejam agora locais privados, os disponíveis poderão ser conservados em certa medida e renovados com novos elementos, convidando o público a conhecer a história de Macau”, revela.

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OFERECENDO NOVA ALMA AOS EDIFÍCIOS

Leong, uma residente, é amante de História e acha positiva a inclusão de novos elementos nestes edifícios.A mesma explica a este jornal que atualmente alguns destes edifícios apesar de “revitalizados”, continuam “sem vida”, isto porque ao serem usados como locais de exposição, a sua maioria permanentes, acabam por se transformar em “múmias”.

“A história deve ser discutida de várias perspetivas, mas atualmente é como se nos limitássemos a um grande pano, unidimensional, sem seminários, nem eventos. Quem é que terá interesse nisto? Quem irá querer voltar?”. Como exemplo, Leong menciona o restauro do Posto do Guarda Nocturno no Patane. O próprio local já não possui qualquer ex- posição sobre a sua história, assim como a Antiga Farmácia Chong Sai, que parece também não conter informação sobre a história da medicina chinesa e ocidental em Macau.

“A história de Macau é rica, não se limita aos pequenos painéis em exposição”, explica a residente. Segundo um inquérito à participação dos cidadãos em atividades culturais, conduzida pela Direcção dos Serviços de Estatística e Censos, a taxa de “visitas a museus ou locais do património mundial” no segundo trimestre de 2021 foi de 26,6 por cento, sendo a sua maioria trabalhadores do setor da educação.

O inquérito revela que com a promoção de projetos de turismo local, as visitas a museus ou locais de património mundial aumentaram 60,6 por cento desde o ano passado, com um total de 123.100 visitantes, e uma taxa de participação de 9,8 por cento. Porém, o número médio de visitas por pessoa desceu para os 2,9 por cento, menos 0,2 em comparação com o mesmo trimestre o ano passado.

Quanto às razões que mencionam para “não visitar museus ou locais do património mundial”, 64,4 por cento afirma não ter interesse, e 21,2 por cento revela “já os ter visitado anteriormente”.

Leong acredita que o exemplo de Yongqing Fang, no distrito de Liwan, Guangzhou, é perfeito para Macau seguir. A mesma revela que existem várias casas antigas que o Governo revitalizou e utilizou para promover o seu património cultural, equipados com comodidades como parque de estacionamento, casas de banho, entre outros. Fora o Museu de Ópera Cantonesa em Guangzhou, contam ainda com pintura e bordado tradicional, dança do leão e objetos não tradicionais para exposição, venda, experiências, comunicação e formação. “Aproveitar o espaço com novas ideias iria trazer vida ao lugar. O património mundial poderia ser visto por todos, locais ou turistas, para que ficassem a conhecer a riqueza cultural da cidade. Não seria ótimo?”, indaga.

Pan Lei, professor auxiliar do Departamento de Comunicação da Universidade de Macau, acredita existirem vários exemplos por todo o mundo de edifícios antigos que foram reaproveitados para exposições, e que o mesmo se poderá aplicar a Macau, onde existe muito espaço para desenvolver.

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O professor admite que existem algumas exposições de qualidade ocasionalmente na cidade, no entanto, o trabalho de curadoria dos museus ou de pequenos salões de exposição mantém-se largamente tradicional. À medida que o mundo se desenvolve, estas exposições devem preocupar-se não só com o valor artístico das peças, mas também com questões e tendências mundiais, assim como cultura popular. Desta forma irão atrair um público que não costuma frequentar museus e alargar a sua audiência. “Este tipo de trabalho de curadoria requer não só uma forte perceção artística, como também conhecimento sobre questões sociais e tendências globais do momento”, sublinha.

O académico não deixa de salientar a importância do estudo e pesquisa para a criação de novas exposições.

“É fácil pegar numa peça impressionista e exibi-la, todos conhecemos as grandes obras, mas os novos tópicos precisam de ser verdadeiramente estudados. O problema é que os que o fazem não são bons curadores, não têm a capacidade de saber como transformar o material de estudo numa exposição”, refere, acrescentando que é “igualmente necessário possuir uma equipa para promover o evento e apoiar a sua organização para conseguir atrair público entre a comunidade. Por esta razão é que várias pessoas se formam em administração de mu- seus. Macau ainda está numa fase muito precoce deste processo, com várias áreas por explorar”.

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