Macron e Le Pen entram em choque sobre Rússia, UE e véu islâmico - Plataforma Media

Macron e Le Pen entram em choque sobre Rússia, UE e véu islâmico

O presidente centrista Emmanuel Macron e a candidata da extrema direita Marine Le Pen protagonizaram um tenso debate esta quarta-feira, marcado pelos choques sobre Rússia, a União Europeia e o véu islâmico, a quatro dias da segunda volta que decidirá quem comandará a França até 2027

“Você depende do poder russo e do senhor Putin […] Você fala de seu banqueiro quando fala da Rússia”, disse Macron a sua rival do Reagrupamento Nacional (RN), durante o único debate televisionado entre ambos antes do segundo turno.

Em plena invasão russa da Ucrânia, que trouxe de volta os temores dos franceses sobre o aumento da inflação e a perda de poder aquisitivo, o mandatário busca apresentar Le Pen como complacente com Moscou e alertar para sua política externa.

“Isto não é certo e é bastante desonesto”, respondeu sua rival. Em 2014, seu partido contraiu um empréstimo de 9 milhões de euros – que ainda está sendo pago – de um banco russo, porque nenhum banco francês quis concedê-lo, alegou.

Na política externa, Le Pen propõe sair do comando integrado da Otan, que estabelece a estratégia militar da aliança, mas não da zona do euro. Sua eleição representaria outro revés para a União Europeia, que ela quer reformar, após a reeleição do húngaro Viktor Orban.

“Esta eleição é também um referendo a favor ou contra a UE”, “de uma ambição ecológica”, “da laicidade, da fraternidade”, advertiu Macron, que defendeu “uma Europa forte […] com potências fortes como a França” para fazer peso na cenário mundial.

Horas antes do debate, tanto o opositor russo Alexei Navalny, que está preso em seu país, como o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, criticaram a relação entre Le Pen e Putin. O ucraniano exigiu que a candidata admitisse que “se equivocou”.

Para não deixar dúvidas, a herdeira da Frente Nacional (FN), reiterou que a “agressão contra o povo ucraniano é inadmissível” e disse apoiar “uma Ucrânia livre”, independente dos Estados Unidos, da UE e da Rússia.

Guerra civil

A eleição presidencial na França repete o duelo final de 2017, mas o país não é o mesmo. Uma série de protestos sociais, como os “coletes amarelos”, abalou o mandato de Macron, uma pandemia confinou milhões de pessoas e a guerra retornou aos confins do Leste Europeu.

“Há cinco anos, tenho visto o povo da França sofrer […], preocupar-se com o futuro. Outra escolha é possível”, disse Le Pen, que se apresentou como a presidente da “liberdade”, do “poder aquisitivo” e da “fraternidade nacional”.

Embora Macron lidere a disputa com 12 pontos de vantagem, de acordo com a última média de pesquisas Ipsos/Sopra Steria, apenas 69% dos franceses afirmam ter certeza de que votarão, incluindo cerca de 6 em cada 10 eleitores do esquerdista Jean-Luc Mélenchon, que ambos os candidatos buscam atrair e mobilizar.

Nesse sentido, o debate se apresenta como um momento-chave, já que essa parte do eleitorado o vê “com a esperança” de “confirmar uma eleição que não é totalmente garantida”, ou que os ajude a tomar, finalmente uma decisão, opina Emmanuel Rivière, cientista político da consultoria Kantar, em entrevista à rádio RFI.

Ambos tentaram marcar pontos nesse campo. Macron, candidato da República em Marcha (LREM) de 44 anos, considerou que a proposta de sua rival de proibir o véu islâmico em público levaria a uma “guerra civil” na França.

Marine Le Pen, por sua vez, classificou de “injustiça absolutamente insuportável” a proposta de Macron de aumentar a idade de aposentadoria de 62 para 65 anos, apesar de ele ter dito que está disposto a alterar para 64 anos, para atrair os eleitores de esquerda.

‘Autoritários demais’

Ao contrário de 2017, quando com 66,1% dos votos foi proclamado presidente pela primeira vez, Macron deve agora defender sua gestão, marcada por crises e os protestos contra suas políticas das classes populares.

O presidente defendeu seu equilíbrio, assim como o impulso reformista e liberal que pretende recuperar. Para “financiar” o sistema de pensões, é preciso “trabalhar mais, progressivamente”, defendeu o chefe de Estado.

De acordo com as pesquisas Ipsos/Sopra Steria, Le Pen é considerada como a que melhor entende os problemas do povo, enquanto Macron tem uma melhor imagem internacional. Ambos, no entanto, são considerados “autoritários demais” para quase metade dos franceses.

Durante o debate televisionado, tenso, mas mais cordial que há cinco anos, os candidatos tentaram projetar essa imagem de seu oponente. “Eu tento me colocar no lugar do povo”, disse Le Pen ao atual presidente.

A candidata apresentou um perfil mais tranquilo que em 2017, quando foi criticada por sua “agressividade” e “sua falta de preparo”, o que não a livrou, em troca, das críticas de Macron: seu programa “não tem pé nem cabeça”.

No domingo à noite será conhecido o nome de quem vai presidir a França nos próximos cinco anos e começará a campanha legislativa de junho, que definirá com que maioria parlamentar governará, algo incerto em um tabuleiro político em recomposição. 

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