"A narrativa no Brasil apresenta os lusitanos como povo que veio para explorar e depois se foi embora"

“A narrativa dominante no Brasil apresenta os lusitanos como povo estrangeiro que veio para explorar e depois se foi embora”

Foi logo em 1822 que o Brasil começou a negar a origem portuguesa para se justificar como país ou esse afastamento foi sobretudo obra da república, para minimizar a era imperial sob a égide dos Bragança?

O afastamento começa em 1822, ainda antes da declaração da independência, quando os portugueses do Brasil, com D. Pedro e José Bonifácio à cabeça, procederam à inversão de sentido com que justificaram a separação. Aqueles mesmos que tinham sido até aí os maiores expoentes do antigo regime, apresentaram-se como vítimas da “tyrania portugueza”, inaugurando assim – como escreveu Eduardo Lourenço – “o discurso ressentido de uma nação sem pai”. Logo na primeira metade do século XIX, os liberais brasileiros, na Oposição, começaram também a criticar “os males que vinham do passado” – absolutismo monárquico, centralização política, escravatura… Desta forma, o passado herdado pela independência deixou de ser considerado herança benigna – como defendia Varnhagen, pai da historiografia brasileira – para se transformar num pesado fardo. A partir de 1889, a república agravou tudo – sobretudo no período jacobino, quando os portugueses passaram de parentes próximos a inimigos. Num contexto de intensa disputa pelo mercado de trabalho, em que os imigrantes ocupavam o lugar dos escravos, os lusitanos foram apontados como culpados de todos os males imputados à monarquia. Em mensagem ao presidente Floriano Peixoto, que cortou relações com Portugal, o clube dos jacobinos de São Paulo prometia combater os estrangeiros “especialmente os portugueses, raça inferior, povo refratário ao progresso, nosso inimigo de todas as épocas, causador de todos os nossos males e do nosso atraso!” Foi a república aliás, que – 100 anos depois da independência – criou Tiradentes. Ele tinha a seu favor a data de nascimento – 21 de abril, convenientemente um dia antes do aniversário da chegada de Cabral, que se queria apagar.

Esse estranhamento, como afirma no título do livro, é evidente hoje no dia a dia para um português que viva no Brasil?

Para um português que aqui viva e observe, é patente o pouco conhecimento e a desvalorização do passado, a ponto de muitos brasileiros nem sequer associarem a língua que falam ao país que somos. Portugal é uma vaga, distante e remota referência, sobre a qual se aprendeu alguma coisa na escola, mas não é associado à identidade nacional, já que a narrativa dominante tende a apresentar os lusitanos como povo estrangeiro que veio para explorar e depois, empurrado, se foi embora: “Levou o ouro e deixou as pedras”. Como se os brasileiros não fossem produto da metamorfose dos colonos que aqui assentaram arraiais e fizeram o Brasil. É como se o inegável elo histórico que liga os dois países tivesse sido apagado da memória nacional. Hoje em dia, não há xenofobia antiportuguesa – eu não falo isso nem na tese nem no livro: os brasileiros são simpáticos e cordiais no trato; mas há, em geral, grande desconhecimento e rejeição da herança, que o anedotário anti-português promoveu e promove.

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