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Afogados na narrativa

As eleições para a Assembleia Legislativa em Hong Kong, no último domingo, esclarecem bem quem manda. Só há deputados patriotas – toda a gente pode votar, mas só esses podem ser eleitos. Resultado: cerca de 70 por cento dos eleitores nem foi às urnas. O ocidente critica a “erosão da democracia”; a China contrapõe o “futuro brilhante”, agora que a “ordem foi reposta” na região autónoma.  

Democracia não é vocábulo do regime chinês; mas também nunca foi prática real nas colónias britânica e portuguesa

A realidade impõe-se, como se previa desde as primeiras manifestações dos guarda-chuvas amarelos. E o debate está viciado por ideologias que manipulam as palavras, retirando-lhes sentido. Democracia não é vocábulo do regime chinês; mas também nunca foi prática real das colónias britânica e portuguesa. Lisboa agora cala-se, rendida e/ou envergonhada; Londres finge lavar a alma, fazendo de conta que acreditou em Pequim para uma impossibilidade ideológica. O discurso britânico na década de 1990 – “depois de nós será o caos” – era claro: choram agora lágrimas de crocodilo. 

Leia também: G7 denuncia ‘erosão’ da democracia em Hong Kong

Pequim, que na transição de poderes prometeu que tudo seria como dantes, justifica agora a abstenção com a “interferência estrangeira”; pretendendo fazer crer que sabe implantar a democracia. Pode saber muita coisa – até defender a sua legitimidade. Mas não sabe, não quer, nem vai promover essa democracia.  

Há um debate na China sobre “democracia”, mas com outro dicionário. Talvez o Partido Comunista Chinês alargue a base militante, integrando etnias, culturas e perspetivas; quiçá as decisões políticas sejam um dia escrutinadas por elos inferiores e superiores da hierarquia; as liberdades até podem ser toleradas, desde que o partido único se sinta a salvo disso…. 

Leia também: Hong Kong: China confirma detenção de ativistas pró-democracia que tentaram fugir

Quanto a Macau, navega à deriva na sua própria narrativa. Não sabe, não quer, nem vai desafiar Pequim. E faz de conta que ser patriota e fiel é sinónimo de competência e visão estratégica. Mas não é. Se ninguém sabe construir pontes, ainda se afogam todos na tempestade. 

*Diretor-Geral do PLATAFORMA

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