“Aprendizagem em casa” não é viável - Plataforma Media

“Aprendizagem em casa” não é viável

Os surtos locais levaram a que as aulas presenciais fossem suspensas nas escolas de ensino não superior. As instruções das autoridades variam entre “aprendizagem em casa”, para alunos até ao terceiro ano, e aulas onlinepara os restantes. Ao PLATAFORMA, encarregados de educação e alunos diretamente afetados pela situação explicam as dificuldades criadas pela mudança, enquanto uma especialista na área da educação alerta para os perigos associados a estes novos métodos de ensino.  

Vong Sou Kuan, professora associada da Faculdade de Educação da Universidade de Macau, explica o impacto da “aprendizagem em casa” – método de ensino que não obriga a aulas online, podendo variar entre jogos, vídeos e exercícios de consolidação. A nível administrativo, a suspensão das aulas presenciais causa alguma inconveniência, visto que as escolas são obrigadas a atingir determinados objetivos durante o ano letivo. Os professores também estão sob enorme, pois o plano curricular é o mesmo, mas há uma redução no período de aulas.

Vong Sou Kuan: Assumindo que só será dada nova matéria com a retoma do ensino presencial, tanto alunos como docentes terão dificuldade em acompanhar o ritmo de ensino. 

Além disso, a especialista afirma que, segundo as orientações da Direcção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ), “na grande maioria das escolas” os professores não estão a ensinar novas matérias, mas sim a “rever conteúdos”. Von Sou Kuan concorda com o método de revisão, dado que “deve ser feita antes de se aprender algo novo”, no entanto, salienta que é importante implementar o princípio de “aprender conteúdos novos com os conhecimentos que já possuímos”. Caso contrário, “assumindo que só será dada nova matéria com a retoma do ensino presencial, tanto alunos como docentes terão dificuldade em acompanhar o ritmo de ensino”, aponta.   

A DSEDJ receia que muitos alunos não consigam acompanhar o currículo escolar sem aulas presenciais. Vong Sou Kuan compreende a preocupação, e sugere que as escolas adotem uma estratégia de revisão, com posterior introdução de novos conteúdos. “Depois de aprendermos o 123, contamos até 3 de forma crescente. De seguida, podemos aprender a fazê-lo de forma decrescente”, dá o exemplo. A docente académica acrescenta ainda que a DSEDJ devia criar conteúdos de “telescola” para auxiliar a aprendizagem dos alunos.  

Wong: Somos uma família com os dois pais empregados, precisamos de ir trabalhar e, muitas vezes, não conseguimos cumprir as horas recomendadas para ensinar o nosso filho 

Até agora, a comunicação com os professores tem sido feita através da internet e redes sociais, refere Wong, mãe de uma criança no primeiro ano escolar. As atividades diárias são propostas pelos professores, que partilham com os encarregados de educação vários materiais e conteúdos relevantes, para que estes últimos possam ensinar as crianças em casa. “A escola tem fornecido matérias de estudo, como apresentações digitais ou vídeos, de forma a que consigamos seguir o calendário curricular, rever e ensinar os conteúdos às crianças”, diz. Para esta encarregada de educação, o método de ensino atual “é melhor do que nada”.  

Porém, sublinha as dificuldades de seguir o currículo proposto pela escola. “Somos uma família com os dois pais empregados, precisamos de ir trabalhar e, muitas vezes, não conseguimos cumprir as horas recomendadas para ensinar o nosso filho”, lamenta. O problema já foi levantado aos professores, visto que é impossível recriar a rotina escolar à qual a criança estava habituada. “Só podemos vigiar o estudo depois do trabalho”.  

Vong Sou Kuan mostra-se apreensiva no que diz respeito a uma aprendizagem sem supervisão dos encarregados de educação. Para a professora, quando os pais não têm tempo para acompanhar os estudos dos filhos, estes podem tornar-se mais preguiçosos, e a longo prazo terão dificuldades em retomar o ritmo de estudo normal. “É a mesma razão que faz com que as crianças fiquem tristes no final das férias de verão. Ainda não têm maturidade suficiente para compreender a sua situação, e quanto mais tempo livre têm, menos capacidade de autodisciplina desenvolvem. Este comportamento poderá não ter um impacto imediato, mas vai deixar marca no futuro, caso não seja implementado um método disciplinado de aprendizagem”, analisa.  

Aluna Fong: Para além dos alunos que não conseguem assistir às aulas, às vezes existem problemas de rede e a voz do professor é cortada.

Fong, aluna do 10º ano tem a mesma opinião. A aluna teme que estes métodos de ensino levem a que os alunos percam a sua autodisciplina e crie dificuldades académicas, estando os professores ausentes para esclarecer dúvidas diretamente. No fim de setembro, quando as aulas foram suspensas, a escola de Fong implementou um programa de “aprendizagem em casa”, e só passadas duas semanas é que estabeleceram um regime de aulas online. Mas há vários problemas associados às aulas online, “muitas vezes interrompidas por problemas de rede”, com alunos que não conseguem entrar na sala de aula virtual, sendo o professor obrigado a continuar. “Para além dos alunos que não conseguem assistir às aulas, às vezes existem problemas de rede e a voz do professor é cortada”, aponta Fong.  

Ao PLATAFORMA, a mãe desta aluna revela que a filha confessou ter receio de ligar o microfone para fazer perguntas, com medo de perturbar os restantes alunos, acabando por ficar calada mesmo quando não entende a matéria. Ambas consideram que a “aprendizagem em casa” e as aulas online não se comparam ao método de ensino presencial – com horário regular e supervisão constante.  

As aulas presenciais foram suspensas no dia 25 de setembro, devido a um caso positivo de Covid-19 num segurança de um hotel que servia como centro de isolamento, tornando-se assim o 65º caso confirmado de Macau. Originalmente, as aulas seriam retomadas a 4 de outubro, mas na manhã desse dia foi confirmado um novo caso, levando as autoridades a cancelar o reinício da atividade escolar. Depois de um intervalo de um mês, a DSEDJ informou que as escolas não superiores em Macau irão reabrir na próxima segunda-feira, dia 25 de outubro.  

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