“Alavancar o potencial de uma das regiões mais ricas da China” - Plataforma Media

“Alavancar o potencial de uma das regiões mais ricas da China”

Sete bancos locais já concluíram os procedimentos para prestar serviços no âmbito do “Projecto de Gestão Financeira Transfronteiriça da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau”, anunciou a Autoridade Monetária de Macau (AMCM). Ao PLATAFORMA, indivíduos e entidades ligadas à atividade apontam o impacto positivo deste mecanismo no desenvolvimento da Área da Grande Baía, bem como na diversificação da economia de Macau.  

Os residentes de Macau e Hong Kong podem agora abrir uma conta de transferência de fundos destinada às transações com as nove cidades da Grande Baía nos bancos de Macau e Hong Kong e uma conta de investimento em renminbis nos bancos do Interior da China que fazem parte deste projeto, através das suas sucursais de Macau e Hong Kong, com o intuito de adquirir produtos financeiros qualificados e comercializados no Interior da China. Por sua vez, os residentes do Interior da China que habitam nas cidades integradas na Grande Baía podem abrir uma conta de transferência de fundos destinada às transações com Macau e Hong Kong e uma conta de investimento nos bancos de Macau que fazem parte deste projeto, com o objetivo de adquirir produtos financeiros qualificados e comercializados pelos bancos de Macau. 

Também intitulado de Wealth Management Connect (WMC), o projeto foi lançado por Pequim há um mês, e permite alargar o leque de escolhas dos residentes da Grande Baía no acesso a um conjunto de produtos e serviços financeiros, aos quais anteriormente não tinham acesso. Este mecanismo destina-se aos investidores a título individual, que com os seus próprios capitais podem adquirir produtos financeiros, num montante de investimento até um milhão de renminbis, por cada investidor.  

Cid Álvares: O principal objetivo é promover uma maior interligação e gradual integração dos mercados financeiros da Área da Grande Baía. 

Com autorização para prestar serviços em Macau ao abrigo do novo esquema estão o Banco da China, Banco de Comunicações, China Guangfa Bank, CMB Wing Lung Bank, Banco Industrial e Comercial da China e o Banco Luso Internacional. 

“Há vários indivíduos com um elevado património líquido na Grande Baía que procuram produtos financeiros diversificados e alocação globalizada de ativos”, diz ao PLATAFORMA a sucursal do Banco da China em Macau. A instituição acrescenta ainda que os residentes do Interior da China, “em especial aqueles que estão interessados em internacionalizar os seus investimentos, estão mais otimitas”, tendo a oportunidade de, gradualmente, começar a deslocar os seus investimentos para o exterior. 

“O principal objetivo é promover uma maior interligação e gradual integração dos mercados financeiros da Área da Grande Baía, ao estabelecer um quadro regulatório que vem facilitar os investimentos transfronteiriços entre as diferentes jurisdições da Área da Grande Baía”, explica ao PLATAFORMA o presidente executivo do Banco Nacional Ultramarino. Segundo Carlos Cid Álvares, o projeto constitui o “primeiro mecanismo de acesso mútuo ao mercado da Grande Baía para investidores individuais”, apontando-o como crucial para “alavancar o potencial de uma das regiões mais ricas da China”, ao mesmo tempo que “impulsiona a diversificação da economia de Macau” – cidade altamente dependente da indústria do jogo.  

Carlos Cid Álvares, presidente executivo do Banco Nacional Ultramarino

Ip Sio Kai: O setor financeiro pode aproveitar o ambiente de negócios único que a cidade tem, através da Zona de Cooperação, em Hengqin. 

Ip Sio Kai, presidente da Associação de Bancos de Macau, revela ao PLATAFORMA que uma das grandes vantagens do projeto incide na criação de oportunidades para a população local. Mais ainda, “o setor financeiro pode aproveitar o ambiente de negócios único que a cidade tem, através da Zona de Cooperação, em Hengqin. A RAEM deve utilizar a flexibilidade dos dois mercados e os recursos dentro e fora da Zona de Cooperação para alargar o desenvolvimento da gestão de ativos e finanças modernas”, reflete.  

Hong Kong não será um problema 

A AMCM, citada pelo jornal South China Morning Post, declarou que a implementação deste mecanismo de investimento tem dois sentidos: “Por um lado, irá criar maior procura de investimento em Macau e promover o desenvolvimento de produtos de investimento mais diversificados pelas instituições financeiras de Macau; por outro, alarga as opções de investimento dos residentes”.  

Além disso, a autoridade acredita que cria um incentivo para os bancos se empenharem ativamente na inovação de produtos e serviços financeiros modernos. Opinião que Cid Álvares partilha, dado o conjunto de oportunidades que o projeto traz, “desde o acesso a um mercado mais vasto, à captação de novos clientes”. Cerca de 86 milhões de pessoas residem nas nove cidades da província de Guangdong. Em 2020, a região teve um Produto Interno Bruto (PIB) superior a 1,6 biliões de dólares americanos, mais do que a Austrália (1,3 biliões).  Macau passa agora a ter acesso a este mercado, mas será que tem espaço numa indústria em que Hong Kong já possui vasta experiência?  

O Presidente do Hong Kong Institute of Securities Dealer, Tom Chan Pak-Iam, acredita que sim, pois a proximidade entre cidades pode pesar na decisão dos investidores. “Alguns residentes de Zhuhai e Zhongshan vivem mais perto de Macau do que de Hong Kong e podem ter preferência por comprar produtos financeiros em Macau”, disse em declarações ao South China Morning Post.  

Cid Álvares: O projeto vai incentivar a utilização do renminbi (RMB), o que contribuirá para uma maior internacionalização do mesmo. 

Mas existe uma clara diferença entre as duas cidades. De acordo com o mesmo jornal, em julho de 2021, o total de depósitos bancários em Macau era de 129 mil milhões de dólares americanos, valor muito inferior aos 1,92 biliões depositados em Hong Kong. Macau tem 30 bancos, 25 corretoras e oito empresas de gestão de ativos. Já Hong Kong possui 160 bancos, 600 corretoras e 942 empresas de gestão de ativos.  

Apesar de um mercado financeiro menos desenvolvido, a AMCM tem confiança de que Macau terá sucesso. “Durante muito tempo, os residentes da Área da Grande Baía têm tido laços comerciais estreitos com Macau, e alguns deles têm estabelecido relações profundas com os bancos locais. Estas relações duradouras irão encorajar os investidores do continente a comprar produtos de investimento a estes bancos”, afirmou a autoridade. 

Internacionalização do Renminbi  

Na cerimónia de abertura do “Projecto de Gestão Financeira Transfronteiriça da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau”, o Chefe do Executivo da RAEM, Ho Iat Seng, disse que para além do incentivo ao desenvolvimento diversificado dos produtos das instituições financeiras de Macau, o mecanismo impulsiona a internacionalização do renminbi (RMB), passando a ser, de forma gradual, uma moeda importante para o investimento no exterior. 

Leia mais sobre o assunto em: Novas vantagens para o setor financeiro de Macau

“Vai incentivar a utilização do renminbi, o que contribuirá para uma maior internacionalização do mesmo”, afirma Cid Álvares ao PLATAFORMA. 

O presidente da Associação de Bancos de Macau, Ip Sio Kai, acredita que o âmbito da utilização do renminbi será alargado, uma vez que os residentes de Macau podem abrir contas em renminbi nos bancos do continente para investir em produtos financeiros da Grande Baía. Segundo o mesmo, este também é um indicador de que “a cooperação económica e financeira na Grande Baía cresceu para um nível mais profundo de conectividade do mercado financeiro”. 

Ip Sio Kai, presidente da Associação de Bancos de Macau

Banco da China: Será necessário tempo para polir e explorar continuamente o projeto transfronteiriço

Ao PLATAFORMA, a sucursal do Banco da China em Macau salienta que o projeto representa uma tentativa de internacionalizar o renminbi e acredita que a circulação da moeda irá aumentar, tanto internamente como externamente. Contudo, irá demorar algum tempo para desenvolver e melhorar o mecanismo: “Desde a implementação do Shanghai-Hong Kong Stock Connect, em 2014, até ao lançamento do Shenzhen-Hong Kong Stock Connect, em 2016, o valor de mercado das ações de Hong Kong detidas por investidores do continente que se dirigem para sul atingiu 2,7 biliões de Hong Kong dólares e o das ações detidas por investidores de Hong Kong que se dirigem para norte atingiu 2,6 biliões de renminbis no primeiro semestre de 2021. O mecanismo sofreu um período de crescimento e progresso em termos de cotas, modelo e escala de produtos, e foi do zero a uma escala comercial acumulada de 70 biliões de renminbis. Como tal, sendo um processo necessário para a abertura do mercado financeiro chinês e internacionalização do renminbi, será necessário tempo para polir e explorar continuamente o projeto transfronteiriço”. 

Lusofonia à espreita 

Com esta iniciativa, é provável que a cooperação sino-lusófona saia a ganhar, aponta o presidente executivo do Banco Nacional Ultramarino. Na sua opinião, a Lusofonia “pode beneficiar deste projeto, na medida em que será mais fácil aos investidores privados participarem, eventualmente, em investimentos que envolvam os Países de Língua Portuguesa”.  

Contudo, o Banco da China em Macau salienta que o corredor financeiro é, por agora, de usufruto exclusivo dos residentes da Grande Baía e, a curto prazo, as instituições financeiras lusófonas não estarão incluídas no mecanismo. No entanto, a longo prazo, aliado ao desenvolvimento da região e à maturação do esquema financeiro transfronteiriço, pode ser que a China pretenda expandir o leque de produtos e cotas para dar resposta a novos interessados. Nesse contexto, o banco acredita que os Países de Língua Portuguesa poderão beneficiar.  

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