"Adeus Semana Dourada"

“Adeus Semana Dourada”

Analistas e associações locais preveem uma Semana Dourada sem movimento, face ao contexto atual de Covid-19 em Macau. O período de festividades, que decorre entre 1 a 7 de outubro, era aguardado com grande expetativa; por ser dos pontos mais altos para a atividade turística, e por representar um alívio para a economia da cidade. No entanto, as previsões não apontam para um cenário dourado, mas sim negro.  

Em 2019 – ano que precede a pandemia – a Semana Dourada trouxe aproximadamente 985 mil visitantes a Macau (um aumento de 11,5 por cento face a 2018). No ano seguinte, já com as marcas da Covid-19 na Região, este número desceu drasticamente, para apenas 156,300 mil turistas (uma queda de 86 por cento face ao ano anterior). No ano corrente, a expetativa era de retoma e revitalização, com a chegada de visitantes do continente. No entanto, os novos casos de Covid-19 dissipam as esperanças de uma semana positiva.  

Metade dos visitantes oriundos da China continental já cancelaram os planos de viajar para Macau, segundo informações do portal Inside Asian Gaming. Com o passar dos dias, é provável que a situação piore, com o aumento das restrições locais e fronteiriças.  

A imagem mostra as Ruínas de São Paulo – um ponto turístico habitual – com pouca movimentação

Ao PLATAFORMA, Stephen Yao, residente de Cantão, explica que, para além das razões óbvias, os novos requisitos para a entrada em Macau também podem influenciar os destinos dos turistas. Antes do novo coronavírus, visitantes provenientes da China continental podiam pedir autorizações de entrada no Território através de uma máquina automática. Desta forma, a autorização era obtida no imediato. Para prevenir e controlar a pandemia de Covid-19, todos os pedidos passaram a ter de ser apresentados presencialmente, com marcação prévia, podendo a emissão das autorizações demorar mais de uma semana. O empresário de Guangdong, que cancelou a sua viagem a Macau mal surgiram as primeiras notícias do surto, frisa que apesar da entrada na cidade continuar a ser permitida, muitos dos turistas do continente preferem mudar os planos de viagem para não se colocarem em risco e evitarem o período de quarentena obrigatória. 

Sonhos viram pesadelos  

Analistas do Credit Suisse afirmaram que “40 a 50 por cento dos jogadores cancelaram a sua viagem com a preocupação de que a situação pudesse arrastar-se por mais tempo do que o esperado”. A quarentena de regresso ao continente não é um aspeto que motive os consumidores, e os analistas referem ainda que “vários jogadores enfrentaram quarentena obrigatória ao voltar de Macau nos últimos dias”.  

Depois dos casos mais recentes, a JP Morgan Securities (Asia-Pacific) emitiu um relatório intitulado de “Adeus Semana Dourada”. Como o título sugere, a análise não é animadora, lembrando que da última vez que Macau adotou medidas semelhantes – quando um agregado familiar de quatro pessoas testou positivo no início de agosto -, as receitas brutas de jogo tiveram a pior queda desde setembro de 2020. A consultora considera que o timing das novas restrições “dificilmente poderia ser pior”, dado que a indústria do jogo perspetivava um aumento da procura durante a Semana Dourada.  

Segundo Andy Wu, presidente da Associação de Indústria Turística de Macau, a situação é “mais grave” do que a verificada em agosto. O responsável apontou que havia hotéis com reservas de 70 e 80 por cento da capacidade e, em alguns casos, até de 90 por cento. Ao jornal Ou Mun, fontes da indústria identificaram que o cancelamento das reservas se encontra na ordem dos 20 a 30 por cento, sendo a área do Cotai a mais afetada. Em declarações à Rádio Macau, Andy Wu considerou que ficaria “bastante satisfeito” se a taxa de reservas não baixasse dos 50 por cento. O líder associativo lembra que antes da pandemia, cerca de 20 por centos dos visitantes vinham de Hong Kong. Como tal, frisou o apelo do setor de turismo ao corte de restrições na circulação entre as duas regiões, tendo ainda considerado que a recuperação económica só acontecerá com o apoio externo. A maioria dos visitantes chegam das nove cidades da província de Guangdong – integradas na Área da Grande Baía– e de Hong Kong. 

Entre sexta-feira e sábado da semana passada, o número de visitantes caiu 70 por cento, para cerca de 10 mil, observou a Sanford C. Bernstein. Na terça-feira, o número desceu para cerca de mil, de acordo com as autoridades. Nas estimativas da Sanford, as receitas dos casinos no mês de setembro poderão descer 68 por cento em comparação com o período homólogo de 2019, e que só deverão recuperar “a partir do final de outubro e em novembro”.  

A Credit Suisse vai mais longe, apontando que o casamento entre a política de tolerância zero à Covid-19 e a incerteza da eficácia das vacinas contra a variante Delta podem conduzir a que “a situação atual de Macau” se arraste para 2022 “ou até mesmo para 2023”.  

Além da Semana Dourada, os novos casos positivos também afetaram o programa da Direção dos Serviços de Turismo (DST). O Museu do Grande Prémio fechou e a “Gala de Drones Brilha sobre Macau” foi adiada.  

Leia mais sobre a gala de drones em: Gala de drones vai custar 7,6 milhões

Impacto nas PME  

Em declarações ao jornal diário Hoje Macau, José Sales Marques considera que não há grandes saídas. Na sua opinião, continuar com a política atual de tolerância zero é o mais acertado e que é “melhor resolver as coisas de uma forma realista e com aquilo que se tem”. O economista refere que a política do Governo de Macau de controlar a situação do ponto de vista sanitário, saúde pública e de apelar à população para se vacinar rapidamente é o caminho que permite a cidade “estar mais à vontade”.  

O presidente da Associação Económica de Macau, Lau Pun Lap, espera que o Governo avalie a possibilidade de uma nova ronda de apoios económicos. Citado pelo jornal Ou Mun, o antigo deputado sublinha que, apesar de o “plano de benefícios do consumo por meio eletrónico” estar ainda em vigor, muitos dos residentes já esgotaram o saldo. De acordo com Lap, devem ser tiradas ilações para tomar decisões que motivem o “bem-estar económico futuro”, com especial atenção às pequenas e médias empresas (PME), que “correm o sério risco de fechar portas”.   

Como gestor, Sales Marques admite as “dificuldades em fazer planos”, mas que o contexto atual força esta situação. “Temos de trabalhar para a frente e não para trás. Não podemos estar a chorar sobre o leite derramado. Temos de ser proativos e jogar com as probabilidades e, nesta fase, a probabilidade de as coisas não acontecerem é relativamente elevada”, disse ao Hoje Macau, acrescentando que é “provável” que apareçam mais pedidos de apoio económico ao Governo por parte das PME.   

Leia mais sobre o assunto em: Retrato de um centro turístico em crise

Em conferência de imprensa na quarta-feira, o Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, enfatizou os esforços do Governo na promoção do turismo de Macau. Porém, “não se pode pedir aos turistas que coloquem as suas vidas em risco”, referiu. Quanto aos apoios às PME, Ho Iat Seng afirma compreender as dificuldades e diz já ter pedido estudos para encontrar soluções. 

Chefe do Executivo de Macau, Ho Iat Seng.

Sobre o impacto do último surto em Macau, o economista considera que “retira qualquer esperança” da próxima semana ser “dourada”, afetando as perspetivas de melhoria até ao final do ano.   

A RAEM entrou em “estado de prevenção imediata” com o aparecimento de cinco casos positivos. Uma nova campanha de testagem em massa foi levada a cargo durante três dias, tendo esta terminado na terça-feira (28), com todos os resultados a darem negativo à Covid-19.   

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Related posts
MacauTransportes

Recuperação de passageiros no aeroporto de Macau só em 2024

MacauPortugal

Quarentena de 21 dias mantém-se para quem vem de Portugal

MacauPolítica

Fronteiras: Macau tem um longo caminho pela frente

MacauSociedade

Marcações disponíveis no Hotel Tesouro para quem vem da Europa

Assine nossa Newsletter