Leituras de verão - Capítulo 2

Leituras de verão – Capítulo 2

Já escolheram a leitura de verão? A feira do livro foi-se, a silly season está quase no fim, e se não compraram o livro das férias ainda têm o pico de vendas do natal para adquirir um, quem sabe se para oferecer, só que a ideia não era comprarem e sim lerem. Pensem nisso.

Voltando aos livros à venda em supermercados, parece não haver grande variedade temática. Bom, na verdade estou a ser demasiado crítico com estes espaços porque há pouco tempo fui a uma livraria procurar dois títulos, um de poesia e outro de divulgação científica, e para minha surpresa esses temas tinham desaparecido da organização principal das prateleiras; o empregado rebuscou um numa zona obscura, o outro foi buscá-lo ao armazém porque nem zona tinha, como se os meus pedidos estivessem a caminho da clandestinidade. O átrio central ocupava-se de temas apropriados a revistas, e no geral fiquei com a sensação de que a livraria estava mais pequena do que antes. O empregado foi muito simpático o que me deu confiança para comentar “é impressão minha ou isto cada vez está mais encolhido?” Baixando os olhos com genuíno embaraço desabafou entre dentes “sim, na qualidade…” Diria que o episódio reflecte o panorama actual quer ele resulte da vontade popular ou da agenda das elites para o povo.

Nos supermercados a secção de culinária encontra-se em franca expansão visto estarmos praticamente fechados em casa há mais de um ano, contudo a de viagens minguou, um paradoxo uma vez que não podendo realizá-las, pelo menos fantasiávamos; a não ser que se pretenda desincentivá-las… Notei igualmente uma profusão de livros sobre campos de concentração e guetos nazis, uma tendência curiosa porque não recordo de alguma vez ter visto nestes estabelecimentos tanto material sobre o assunto. Será uma moda, para nos treinar a resistir, ou nos conformarmos pela consciência de que apesar de tudo não estamos assim tão mal? Eis os exemplos: As resistentesmulheres judias que combateram nos guetos de Hitler, Os irmãos de Auschwitz, Na Orquestra de Auschwitz, O tatuador de Auschwitz, e claro, sempre a farejar o odor dos temas de sucesso, José Rodrigues dos Santos apresenta a sua versão de Auschwitz, O manuscrito de Birkenau. Não se ponham já a pensar que copiou, isto é diferente. Birkenau fica a 3Km de Auschwitz e embora o campo se chame Auschwitz-Birkenau ele teve a sagacidade de não usar o óbvio que também já cansa; e depois “Birkenau” até soa bem tal como “manuscrito” não é papel, livro, documento, é manuscrito, uma palavra que de imediato me sugestionou segredos e enredos de espionagem. Por acaso tenho um livro do José, A fórmula de Deus mas nunca presumam que falo por falar: não fui eu que o comprei, ofereceram-me num natal, sei que li até à página 36 porque ainda lá está o marcador, mas não recordo a razão de ter parado de o ler, talvez por sentir o sabor a sucedâneo de Dan Brown, autor do qual já lera duas obras para concluir que melhor fora ter visto só os filmes e encerrava o assunto. O livro mantém-se em estado imaculado aguardando o destino que, aí sim, recordo ter cogitado: oferecê-lo a alguém com a mesma mentalidade de quem me o ofereceu, uma intenção gorada a partir de agora… Entretanto tornou-se imprestável na estante, envelheceu mal não resistindo ao tempo, é como ter ali um iogurte fora do prazo. Tendo lido duas dúzias de páginas do Manuscrito de Birkenau sob o som da promoção dos peitos de frango a 3,99€ era bom que não formassem juízos baseados nas minhas convicções, aquilatem por vós. Quanto a mim suponho que a nova obra se inscreva na mesma lógica do tal iogurte na estante, deve-se consumir quanto antes senão estraga-se.

Dois grandes temas monopolizam a oferta do top: thriller e romance. E se o Rodrigues dos Santos se pode gabar de na capa apresentar o autocolante 2ª edição 30000 exemplares”, não passa de um carapau aos olhos dos próximos tubarões internacionais.

Thrillers:
A tempestade – Número 1 do New York Times
O agente americano – O bestseller nº1 do New York Times
Um por um – #1 New York Times
A ordem – N#1 best seller do The New York Times
A rapariga do fim – O fenómeno internacional (autora bestseller de A rapariga sem nome)
Laranja de sangue – Autora do fenómeno bestseller
A rapariga no espelho – Bestseller internacional
O clube do crime das quintas-feiras – Mais de 1 milhão e 400 mil livros vendidos no Reino Unido.

Romances:
Um amante perigoso – Best seller do New York Times
O pecador – Autora bestseller #1 do New York Times
A órfã e o fidalgo – Bestseller internacional
Desejo – Da autora bestseller do New York Times
O jogo do poder – a autora mais popular em todo o mundo
Para sempre – Mais de 30 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo – Simplesmente a melhor escritora do mundo (segundo o Romantic Times)

Todos são “bestseller”, sete têm o selo do The New York Times, e um, só no Reino Unido vendeu mais de 1,4 milhões, 13,5% da população portuguesa. Escritos por variados autores têm em comum a origem anglófona e prometem agradar, o número de exemplares vendidos atesta-o. Se milhões gostaram porque não haveria você de gostar? Vamos saltar olimpicamente por cima do facto de em Portugal se ler pouco, não é essa a questão que pretendo abordar.

Hoje consideramo-nos pessoas informadas porém continuamos tão totós como sempre fomos. Quando era miúdo vendiam o Colgate com gardol e lembro-me de pensar o que raio era o gardol, será que punha os meus dentes a dançar o tango? Veio a União Europeia, acabaram-se as tangas, agora é obrigatório os ingredientes virem todos descriminadinhos, até a Coca-Cola teve de revelar o que a compõe. Pois, e serve de alguma coisa informarem que as batatas fritas têm E isto e E aquilo? Que me adianta ir à net procurar, ficando a saber que estou a ingerir butil-hidroxitolueno, estereato de ascorbilo, galato de propilo… Podia ser sulfato de esquilo, basicamente sei que têm isto e aquilo. Vi numa embalagem de uma multinacional de cafés a frase “cultivado com respeito”, o que pressupõe: a) ter faltado respeito neste negócio, e b) uma qualidade distintiva de marcas que não alegam fazê-lo. Outra: descobri na net um cartaz de 1959 que anuncia Agora em Portugal, Colgate, o creme dentífrico mais vendido em todo o mundo! Em plena era de consciência do consumidor e informação à velocidade warp continuamos a ser papados pelos mesmos argumentos de há 62 anos: tem chancela de respeito, veio de fora e vendeu milhões. É isto que os livros supra-mencionados proclamam. Sejam cafés, pastas de dentes ou livros a lógica é igual: vender o produto independentemente do conteúdo.

Um dia um amigo captou o interesse de uma editora de sucessos de música dance internacional; convidou-me para produzir o CD que pretendia gravar e levou-me à primeira reunião. Após os bons dias o responsável disparou “meus caros, antes de mais deixem-me dizer-vos que a nossa actividade é vender discos mas podiam ser bananas”. O que quis dizer? Que não venham para cá com “artes”, uma mania de certos músicos, porque o que se faz ali é um produto; o ponto de contacto entre a música e o produto era apenas o objecto em que esta se suportava, uma rodela de plástico, só que um produto de consumo é muito, muito mais que isso. No género de livros de que falo o propósito assemelha-se, vender resmas de papel decorado a 15€. Por menos de metade do preço e maior utilidade a Renova fabrica rolos com bonitos padrões que me entretêm o espírito na poltrona da casa de banho. 

A massa consumidora da literatura exposta em supermercados geralmente desconhece o conteúdo da embalagem, assim é estimulada a comprar por impulso através do aspecto impactante, o número de exemplares já vendidos, o boca a boca, a fama do autor, a certificação fornecida por indivíduos ou instituições. Ao contrário da amostragem cientificamente comprovada dos ingredientes em outros produtos, os livros podem dizer o que lhes apetece, fenómeno, obra-prima, melhor do mundo, afora, quero acreditar, o volume de vendas. Acreditando ou não, um número elevado valida qualquer coisa no subconsciente do grande público e se não vendia passou a vender, milhões de seguidores nas redes sociais, por exemplo, atestam a relevância de um produto ou pessoa. Importa o que dizem? O importante é o fluxo económico que geram, vamos sempre dar ao mesmo. A esmagadora maioria da oferta tem origem anglo-saxónica e exceptuando o natural interesse do público nacional nos portugueses não vi praticamente mais nada originário de outras culturas, vigora nas prateleiras um imperialismo anglófono. Além de ser a língua dos negócios, o inglês é o padrão literário imposto e copiado localmente, aliás ele complementa as produções audio-visuais, a própria definição de thriller,um dos géneros mais vendidos, é “filme de acção/suspense”. TV, cinema, plataformas de stream, e jogos, compõem-se maioritariamente de produções em inglês, porque haveria de ser diferente nos produtos literários?

No fim desta viagem ao supermercado vou revelar duas preferências: primeiro prefiro que leiam do que não leiam, pode ser qualquer título dos que aflorei, e segundo recomendo um que vi numa prateleira a rasar o chão; não está à altura dos olhos, têm de dobrar a espinha para o pegar mas vale o esforço. A capa não refere vendas astronómicas, o Daniel Pink não lhe reserva laudas e o New York Times nem para dizer worstseller se dignou a emprestar o nome, todavia acrescenta valor às nossas vidas. É uma autobiografia romanceada de Rui Nabeiro… o fundador dos cafés Delta, vejam só, aqueles produtos que se vendem uns corredores mais à frente. Intitula-se Almoço de domingo, foi escrito por José Luís Peixoto e os 17€ que me custou são ridículos comparativamente ao que oferece. Sei que estamos a dias do final do verão mas a sugestão foi propositada, este livro lê-se nas quatro estações de qualquer ano, não murcha, e quanto mais tempo passar mais fresco se tornará:

O passado tem de provar constantemente que existiu. Aquilo que foi esquecido e o que não existiu ocupam o mesmo lugar. Há muita realidade a passear-se por aí, frágil, transportada numa única pessoa. Se esse indivíduo desaparecer, toda essa realidade desaparece sem apelo, não existe meio de recuperá-la, é como se não tivesse existido.

José Luís Peixoto é um mestre mensageiro, sem intermediários, sem se deixar afectar pelo ruído exterior liga-se directamente ao “campo”, aquilo que a física quântica diz ser um… lugar (?) onde tudo o que alguém pode pensar, tudo o que não pode pensar, e tudo o que ninguém ainda pensou já existe sob a forma de onda. O autor serve-se do objecto biografado para construir um romance multi-dimensional, o objecto biografado ganha assim uma dimensão intemporal. Excelente negócio. Um negócio do qual os leitores são os maiores beneficiários e ainda poderia gerar mais ganhos caso servisse de base para um guião de cinema, tem tudo para isso.

Este livro está lá na prateleira para ser vendido, o mesmo objectivo dos que fui glosando, mas tal como os produtos de literatura são muito mais que escrita, a escrita do Peixoto é muito mais que um produto de literatura.

*Músico e embaixador do Plataforma

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