Ajuste de contas - Plataforma Media

Ajuste de contas

Os ciclos políticos, diz a semântica que os define, não passam disso mesmo: de serem ciclos. Ou seja, vieram para marcar – não para ficar. Mudam-se os tempos, contextos e vontades… muda o perfil e a natureza do ciclo. Não volta tudo a ser o que era; mas deixa de ser o eterno que se arrogava ser, passando a ser mais uma coisa finita – novamente marcante, outra vez perene. A tendência de um ciclo, essa, é sempre a mesma: finito, reciclável, passageiro. 

Há uma tendência perigosa na mudança dos ciclos políticos: os ajustes de contas. Contra os estrangeiros que em tudo mandavam; os negócios que tudo exploravam; os conservadores que tudo controlam; os liberais que tudo desdenham…  A lista é infinita. Bem como o engodo da vingança, do ajuste de contas. Afinal, é apenas de uma mudança de ciclo; uma alternância; um momento na História que um dia perde gás e se evapora. O mal estar com o passado expõe um duplo erro de perspetiva: primeiro, serve uma ilusão passageira, pensando que a nova realidade é mais imutável que a anterior; depois,  alimenta um futuro que passará o seu tempo a servir a vingança que se segue. Tudo isso é inútil, cansativo, pobre de espírito… 

Macau assume um novo ciclo. É preciso ver, perceber e assumir. Afinal, ele é óbvio e incontornável. Mas há uma cauda… histórica, portuguesa, ocidental, que hoje é passado e amanhã tem valor. É a lei da vida, é a dinâmica da História. Contudo, é preciso atenção à leitura dos ciclos. Neste que agora vivemos, naquele que se foi, e no que a seguir virá; servir a China, a partir de Macau, é manter a porta aberta a ocidente. Porque é disso que o mundo se alimenta e a China precisa. Nos dois lados da ponte importa lutar por essa consciência. Os ajustes de contas não mudam o passado; toldam o futuro – alimentam o eterno retorno da vingança. 

*Diretor-geral do PLATAFORMA

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Related posts
Editorial

Coragem e lucidez

Editorial

O jogo da política

Editorial

Terrorismo de Estado

Editorial

Dever de consciência

Assine nossa Newsletter