Portugal quer China a impor lei da rolha - Plataforma Media

Portugal quer China a impor lei da rolha

Portugal relança a 10 de Setembro a Academia da Cortiça na China, após uma pausa de três anos. Cada vez mais chineses bebem vinho e a Associação Portuguesa da Cortiça quer que eles continuem a exigir, aos vinhos de todo mundo, as rolhas que Portugal domina a nível mundial. 

Era para ser apenas uma de muitas ações de uma campanha portuguesa de promoção na China, mas João Rui Ferreira lembra-se bem do momento em que a Academia da Cortiça o apanhou de surpresa. 

“Eu estive na China em 2018, nas duas primeiras sessões, em Xangai e Guangzhou, que começaram com 20, 30 participantes, e depois ganhou uma escala incrível”, disse ao PLATAFORMA o vice-presidente da Associação Portuguesa da Cortiça (Apcor). 

A primeira edição da Academia atraiu quase 2.000 participantes ao longo de 93 eventos em 33 cidades chinesas, que resultaram na formação de mais de 30 embaixadores da cortiça. 

João Rui acredita que o interesse nasceu da “grande vontade de saber mais sobre vinho”. 

João Rui Ferreira, vice-presidente da Associação Portuguesa da Cortiça (Apcor)

“A maioria dos apaixonados chineses pelo vinho tem curiosidade sobre as diferentes formas de selar as garrafas e como é que interagem com o vinho”, confirmou ao PLATAFORMA o crítico chinês de vinho, Denis Lin Dianli. 

Após a primeira edição da Academia, “foi possível ganhar uma dimensão fortíssima, o que nos obriga a dar continuidade ao projeto, ainda que em moldes tecnologicamente diferentes”, sublinha João Rui. 

A Academia da Cortiça regressa a 10 de setembro, com um seminário na capital chinesa, Pequim, com ligação por videoconferência a outras quatro cidades. 

Chengdu, Wuhan, Xiamen e Hangzhou foram escolhidas tendo em conta o tamanho da população, o consumo de vinho, a importância económica e as ligações ao comércio eletrónico, explica o dirigente da Apcor. 

Inicialmente estava prevista a realização de eventos em diferentes cidades, mas o recente surto de Covid-19 no interior da China obrigou a mudar os planos, revelou Denis Lin Dianli, que irá falar durante a sessão. 

João Rui Ferreira prefere ser positivo: “Temos a oportunidade de talvez chegar ainda a mais pessoas num modelo que combina o presencial com o virtual”. 

Denis Lin Dianli, crítico de vinho

Os organizadores esperam juntar 50 pessoas, a maioria dos quais serão distribuidores ou retalhistas de vinho na China, disse ao PLATAFORMA Li Yao, um executivo com mais de 30 anos de experiência no setor da cortiça que irá também intervir no evento. 

Mas todos são bem-vindos, sublinha João Rui Ferreira, incluindo ‘sommeliers’, jornalistas especializados e críticos gastronómicos ou de vinho. 

Alguns dos participantes serão convidados a inscrever-se num curso de 12 meses para formar embaixadores da cortiça. “As pessoas certas para nós são grandes líderes de opinião”, diz Denis Lin. 

“Quando os seus amigos ou clientes lhes perguntem sobre as rolhas, eles poderão explicar-lhes de forma clara as vantagens da cortiça para vedar o vinho, com confiança e usando informação correta”, acrescenta o crítico. 

Isto porque, diz Denis, alguns fabricantes de rolhas de plástico têm exagerado o risco de tricloroanisol, o composto químico que cria o gosto ou aroma a “rolha” nos vinhos. “Atualmente, novas tecnologias reduziram essa possibilidade a um nível muito baixo”, diz o chinês. 

A maioria dos consumidores chineses de vinho sabe pouco, tanto sobre cortiça como sobre rolhas, lamenta Li Yao. 

As boas notícias, diz João Rui Ferreira, é que “os chineses têm de facto uma preferência clara pela cortiça, que associam a esta fortíssima relação secular com o vinho”. 

Ou seja, explica Li Yao, vinhos que usem rolhas de plástico arriscam-se a serem vistos na China como produtos “baratos e de baixo nível”. “Vinho de qualidade tem de usar rolhas de cortiça, isto está gravado na mente dos chineses e não é negociável”, acrescenta. 

Li Yao, executivo com mais de 30 anos de experiência no setor da cortiça

Mesmo as companhias vinícolas chinesas, incluindo as gigantes Great Wall e Changyu, se renderam às evidências. Mais de 80 por cento do vinho produzido na China utiliza rolhas de cortiça, estima Denis Lin. 

Portugal é o líder destacado na fileira da cortiça, com 70 por cento das exportações e mais de 80 por cento da cortiça transformada no mundo, sublinha João Rui Ferreira. 

E o mercado da China não é exceção ao domínio português. Mais de 90 por cento das rolhas de cortiça para engarrafar vinho chinês vêm de Portugal, calcula Li Yao. 

Ainda assim, no ano passado, o mercado chinês ocupou apenas o 10º lugar nas exportações portuguesas de cortiça, com uma fatia de 2,1 por cento do total, correspondente a 22 milhões de euros, segundo dados da Apcor. 

Mas as ações de promoção da cortiça na China – que incluem a Academia da Cortiça – representam 10 por cento dos 3,1 milhões de euros que a associação pensa gastar em todo o mundo até ao final de 2022. 

João Rui Ferreira admite que “pode parecer haver uma diferença de escala” entre as exportações e o investimento da Apcor mas lembra que a China é um país cada vez mais relevante para o setor do vinho. 

O mercado chinês é já o quinto maior do mundo, embora apenas cerca de 3 por cento dos 1,4 mil milhões de habitantes beba regularmente vinho. 

“Se virmos o consumo per capita, ainda temos claramente uma margem de progressão enorme”, diz João Rui. E, mais do que ganhar quota de mercado, os produtores portugueses de cortiça querem “crescer em valor”, acrescenta. 

Além disso, sublinha o vice-presidente da Apcor, é “importantíssimo” garantir que os consumidores chineses continuem a preferir rolhas de cortiça, devido à “capacidade de influência” em outros mercados que exportam vinho para a China. 

Uma influência que já se faz sentir, confirma Denis Li. Embora as rolhas de plástico sejam mais populares na Austrália e Nova Zelândia, mesmo estes países tiveram de começar a usar cortiça nas garrafas de vinho que exportam para China, diz o crítico. 

Cortiça no volante e não só 

Em 2020, a venda de rolhas, no valor de 14,1 milhões de euros, representou cerca de dois terços das exportações totais de cortiça portuguesa para o Interior da China, segundo dados da Associação Portuguesa da Cortiça (Apcor). 

“A nível mundial, 70 por cento das exportações portuguesas de cortiça são rolhas. Na China é um pouco menos, o que quer dizer que há maior peso de outros usos”, disse ao PLATAFORMA João Rui Ferreira, vice-presidente da Apcor. 

Utilização de cortiça no tablier, nas portas e na bagageira de um protótipo lançado a 12 de agosto pela marca Mini, detida pelo grupo alemão BMW AG.

É o caso da indústria de material desportivo da China, que usa cortiça portuguesa para fabricar a ponta dos volantes de badminton, revela o executivo chinês Li Yao. 

Mais de 90 por cento dos volantes usados no mundo são fabricados na China, onde o badminton é um dos desportos mais populares. 

Há talvez duas décadas que a cortiça começou também a ser utilizada na China como material de construção, no isolamento de edifícios e em pavimentos, mas apenas de forma esporádica, disse Li Yao ao PLATAFORMA. 

“A China tem potencial para crescer noutras áreas”, diz João Rui Ferreira, nomeadamente na combinação da cortiça com outros materiais no setor da engenharia. 

Um exemplo é a utilização de cortiça no tablier, nas portas e na bagageira de um protótipo lançado a 12 de agosto pela marca Mini, detida pelo grupo alemão BMW AG. 

“O vinho pode ser uma porta de entrada para dar a conhecer as qualidades térmicas e acústicas que a cortiça tem”, defende João Rui. 

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Related posts
ChinaPortugal

Câmara Luso-Chinesa prepara ligação direta a Xangai

ChinaEconomia

Grupo chinês EMGI investe 300 milhões de euros no imobiliário de Lisboa

Assine nossa Newsletter