“Temos que aprofundar as relações com Macau, a Grande Baía e a China” - Plataforma Media

“Temos que aprofundar as relações com Macau, a Grande Baía e a China”

José Manuel Ribeiro, presidente da Câmara de Valongo e da Rede de Autarquias Participativas, admite ter havido “alguma hesitação estratégica de Portugal a respeito do papel de Macau e da importância das relações da Lusofonia com a China. Contudo, garante, “elas terminaram” com a chegada de Augusto Santos Silva ao Ministério dos Negócios Estrangeiros. “Temos que aprofundar as relações com Macau, a Grande Baía e a China, no seu conjunto; no domínio turístico, da investigação e da educação. É por aqui que se tem de começar! Mas o objetivo é chegar à economia empresarial, às oportunidades de investimento, às dinâmicas sociais”, conclui o autarca. No seu caso, apontando a Área Metropolitana do Porto, pois “tem escala, quer para aproveitar bem as oportunidades, quer para oferecer em troca ativos interessantes em todos os setores”. 

– A internacionalização é vista por vários economistas como o principal instrumento para uma real mudança do paradigma orçamental. Concorda? 

Qualquer economia tem de estar preparada para a internacionalização. O seu instrumento orçamental – o Orçamento do Estado de cada país – tem de ser também vocacionado para favorecer a internacionalização das suas empresas. Porém, a pandemia da Covid-19 veio demonstrar que a economia empresarial não consegue responder a todos os problemas. Estados e governos têm de investir intensamente em inovação, tecnologia, digitalização… Durante a crise da Covid-19, os estados e as sociedades mais modernizadas responderam melhor à crise, mantendo as suas economias a funcionar, crianças e jovens a estudar, e os idosos mais protegidos de contágios e da doença. Ou seja, o novo paradigma orçamental que deve sair desta crise, não só tem de continuar a promover intensivamente a inovação e a digitalização nos setores mais óbvios – ciência, saúde, educação, economia, sistema financeiro –, mas também noutros como a justiça, serviços sociais, cultura, ambiente, etc. 

 – Como deve ser abordada a internacionalização a partir de uma cidade e economia municipal? 

Deve ser sobretudo abordada a partir de uma lógica de redes: comunidades intermunicipais, áreas metropolitanas, regiões político-administrativas. O desenvolvimento dos países e das grandes regiões mundiais tem muito a ganhar com a “diplomacia das cidades”, a sua agilidade e o foco muito preciso em determinados temas, setores ou comunidades. Num mundo livre, nenhuma cidade está impedida de ter relações externas específicas – paralelas e complementares às dos estados. 

– Redes de cidades – áreas metropolitanas, ou outras – devem organizar estratégias conjuntas de internacionalização? Quais seriam os eixos centrais dessa visão integrada? 

Os eixos centrais são três: Turismo, Investigação e Educação. E um quarto, que os aglutina: a Economia. Acredito genuinamente que os negócios correm melhor, são mais estáveis e lucrativos para todas as partes, quando há previamente um conhecimento, um contacto e um trabalho conjunto entre as diferentes comunidades. O convívio real, concreto, cultural entre comunidades produz maravilhas.  

– Ainda que sob tutela dos Negócios Estrangeiros, podem as cidades e regiões portuguesas conduzir a sua própria afirmação internacional? 

Devem fazê-lo nos quadros das relações diplomáticas do Estado português, da União Europeia, da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Respeitando esses quadros, as cidades e municípios já fazem imenso trabalho na geminação de cidades e sub-regiões, convívio de comunidades, intercâmbio cultural, troca de missões e mostras comerciais. Se há entidades que têm ativado redes de empresários na diáspora, são os municípios portugueses, com a preciosa e decisiva ajuda da AICEP e da rede diplomática. Tem havido um trabalho muito relevante de qualificação das próprias autarquias para atraírem investimento a partir dessas redes. Esse trabalho, evidentemente, é para continuar e aprofundar. 

Num mundo que perde pontes, onde o nacionalismo floresce, podem as cidades fomentar redes complementares às dos estados-nação? 

Vejamos: aos estados-nação cabe assegurarem condições de estabilidade, paz, e confiança entre os povos, para que o mundo possa ser multilateral, aberto, cosmopolita e tolerante. Esse trabalho dos governos e dos chefes de Estado é insubstituível. O trabalho das cidades e regiões deve ser complementar, apostando numa capilaridade para a qual as máquinas diplomáticas dos estados não têm vocação e não conseguem atingir. O papel das cidades é insubstituível para criar ligações culturais fortes entre comunidades específicas. 

– O Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), subsidiado pela União Europeia, é parco na ambição de internacionalização. Será falta de visão? Ou não é essa a prioridade neste momento? 

É preciso ter presente para que é que foi criado o PRR: ajudar os países a superarem rapidamente o choque da pandemia da Covid-19! Ora, isso implica obrigatoriamente internacionalização. Ela pode não estar muito explícita no articulado, mas está presente de forma implícita ao longo de todo o PRR: não há recuperação da economia sem internacionalização, não há recuperação da saúde, nem do sistema científico, nem da produção cultural, etc. Tudo o que nos é contemporâneo implica internacionalização para se desenvolver. Além disso, a União Europeia tem a mais aberta das economias mundiais. Em síntese: a internacionalização é-nos consubstancial e a recuperação da crise da Covid-19 vai passar muito por ela! 

– Até que ponto as relações históricas com Países de Língua Portuguesa podem ser relevantes na internacionalização, para além do tradicional eurocentrismo? 

Sempre foram, e continuarão a ser, um eixo muito relevante. Um exemplo: ainda esta semana um grupo de empresários portugueses com negócios em Angola falaram com a Câmara de Valongo por causa de uma empresa do concelho que acabaram de comprar. Para a desenvolver, vão investir uns milhões – parte ganhos em Angola, outra parte de verbas europeias. É assim a economia portuguesa há muitos séculos, e é assim que deve continuar: parte europeia, parte atlântica, parte no Índico, parte do Oriente, especialmente da China. Portugal deve apostar cada vez mais no seu ADN global – o nosso futuro passa por aí! 

– Macau tem a dupla missão de se integrar na Grande Baía e promover relações com a Lusofonia. Como explica que Portugal se tenha distanciado dessa oportunidade? 

Admito que há uma década possa ter havido alguma hesitação estratégica de Portugal a respeito do papel de Macau e da importância estratégica das relações da Lusofonia com a China. No entanto, desde que o Partido Socialista chegou ao poder em 2015 e que Augusto Santos Silva passou a chefiar a diplomacia portuguesa, essas hesitações terminaram. Portugal, enquanto país da União Europeia, sabe que os seus desígnios futuros, os da União Europeia e os da Lusofonia, Brasil incluído, não são contraditórios. Todos temos de trabalhar para aprofundar relações, fazer pontes e desenvolver projetos comuns. O século XXI vai em boa parte jogar-se nas relações da Ásia com o resto do mundo. A China recuperou a sua centralidade. 

– Podem as redes de cidades lusófonas – áreas metropolitanas em particular – encarar esse contexto como uma oportunidade para a internacionalização da sua economia? 

Claro que sim! As cidades lusófonas podem – sobretudo devem – fazer isso mesmo: identificar, agarrar e explorar todas as oportunidades que a deslocação de fluxos económicos, tecnológicos e financeiros para oriente lhes abrem. 

– Quais são as áreas em que Valongo – e a Área Metropolitana do Porto – estão mais interessadas na relação com Macau e a Grande Baía? 

Temos que aprofundar as relações com Macau, com a Grande Baía e com a China no seu conjunto, no domínio turístico, da investigação e da educação. É por aqui que se tem de começar! Mas o objetivo é chegar à economia empresarial, às oportunidades de investimento, às dinâmicas sociais. Dito isto, quero sublinhar que esta aposta deve ser feita no âmbito da Área Metropolitana do Porto. Só ela tem escala, quer para aproveitar bem as oportunidades, quer para oferecer em troca ativos interessantes em todos os setores. É o interlocutor certo para mediar outro nível de relações económicas entre o território em que se insere Valongo e a Grande Baía do sul da China. 

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