Pandemia, ativismo e cinema africano no 18.º Festival IndieLisboa - Plataforma Media

Pandemia, ativismo e cinema africano no 18.º Festival IndieLisboa

O Festival Internacional de Cinema IndieLisboa, que começa no dia 21, volta a ser marcado pela pandemia, que afetou o calendário de festivais e a produção de cinema português, admitiu à Lusa o diretor e programador Miguel Valverde.

“É marcada pela covid-19, independentemente de nós queremos ou não, seja pelos filmes recebidos, pelas temáticas, seja pelo tempo que vivemos. As necessidades de programação servem para ser o reflexo dos seus tempos”, disse.

A 18.ª edição, que este ano voltou a ser empurrada da primavera para o verão, abrirá no dia 21 com “Summer of love”, documentário do baterista Questlove, premiado este ano em Sundance, e que recorda o Harlem Cultural Festival, em 1969, nos Estados Unidos.

Da programação hoje anunciada, destaca-se a competição portuguesa, com um lote reduzido de longas-metragens e mais de uma dezena de curtas, reflexo da paralisação provocada pela pandemia.

“Recebemos menos filmes este ano, tanto ‘curtas’ como ‘longas’. E a produção portuguesa, se a de ‘curta’ não parou, e habitualmente é feita muito de forma espontânea, a de ‘longas’ parou”, assegurou Miguel Valverde.

As quatro longas em competição são “No táxi do Jack”, de Susana Nobre, “Rock Bottom River”, de Fern Silva, “Simon Chama”, de Marta Sousa Ribeiro – todos exibidos em festivais internacionais – e, em estreia mundial, “Granary Squares”, de Gonçalo Lamas.

Entre as ‘curtas’ estão “Boa noite”, de Catarina Ruivo, “Um quarto na cidade”, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, “Sopro”, de Pocas Pascoal, “Tracing Utopia”, de Catarina Sousa e Nick Tyson, e “The Shift”, de Laura Carreira.

Miguel Valverde sublinha que esta edição do IndieLisboa volta a dar destaque ao cinema africano, desta vez com uma retrospetiva da cineasta francesa Sarah Maldoror, que morreu em 2020, respondendo às preocupações da direção do festival de estar atenta à atualidade.

Neste caso, é pela discussão atual sobre colonialismos e pelo facto de a retrospetiva da obra de Sarah Maldoror antecipar um ciclo que o centro artístico Palais de Tokyo, em Paris, lhe dedicará a partir de outubro.

“Sentimos que estava na hora de mostrar uma obra que é muito pouco conhecida, nunca houve uma retrospetiva da obra dela como vamos fazer aqui. É uma obra marcadamente política. Ela tem uma ligação a Portugal, através do companheiro, Mário Pinto de Andrade. Lutou pelos vários movimentos de libertação de Angola, Cabo Verde e Guiné-Bissau”, afirmou o programador.

Da restante programação, já tinha sido anunciado um foco na obra do realizador colombiano Camilo Restrepo, “um cineasta que desde há muito tempo faz um cinema muito político (…) e que tem ido à procura de histórias que têm muito a ver com franjas da população, com excluídos, com movimentos sociais”, explicou Miguel Valverde.

Nas sessões especiais estarão, por exemplo, os documentários “Vieirarp”, de João Mário Grilo, sobre o casal de artistas plásticos Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes, e “A cidade de Portas”, de Teresa Prata e Humberto Kzure, sobre o arquiteto Nuno Portas.

“Gaza, mon amour”, dos irmãos palestinianos Tarzan e Arab Nasser, e “O princípio, o meio, o fim e o infinito”, do músico Pedro Coquenão, também fazem parte das sessões especiais do IndieLisboa.

“Bad luck banginng or loony porn”, do romeno Radu Jude, que recebeu este ano o Urso de Ouro em Berlim, rodado em plena pandemia, está na secção “Silvestre”.

Miguel Valverde considera que este é um dos filmes marcados pela atualidade pandémica, sem nunca falar dela: “Há um ano, filmes com máscaras não eram comuns e agora já são, e isso sente-se em vários filmes que vamos passar no festival”.

A competição internacional contará com seis documentários e outros tantos filmes de ficção, entre os quais “Nous”, da premiada realizadora francesa Alice Diop, um retrato fragmentado de quem habita nos subúrbios de Paris, e que passou este ano no Festival de Berlim, e “Les Sorcières de l’orient”, produção francesa de Julien Faraut que recorda as atletas da equipa de vólei do Japão, que conquistaram o ouro nos Jogos Olímpicos, em 1964, em Tóquio, e que ficaram conhecidas como “As bruxas do Oriente”.

A programação IndieMusic, que faz a ponte entre cinema e artes de palco, contará, entre outros, com “Já estou farto!”, de Paulo Antunes, “Ney à flor da pele”, de Felipe Nepomuceno, “Eram 27 dias e paraste”, filme de bastidores sobre a apresentação do álbum “Uma palavra começada por N”, de noiserv, “Caudal”, filme sobre um concerto dos Solar Corona, e “We Were Floating High”, que segue os First Breath After Coma, durante 2019.

O encerramento do IndieLisboa, a 06 de setembro, será com “Paraíso”, filme de Sérgio Tréfaut, rodado no Brasil.

O IndieLisboa decorrerá no cinema São Jorge, no Cinema Ideal, na Cinemateca Portuguesa, na Culturgest e na Biblioteca Palácio Galveias, e já beneficiará da medida anunciada pelo Governo de alargamento da lotação das salas de 50% para 66%.

Em 2022, o festival deverá voltar ao calendário pré-pandemia, entre abril e maio.

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