"Para se ter sucesso numa rede social a melhor receita é o máximo de raiva"

“Para se ter sucesso numa rede social a melhor receita é o máximo de raiva”

O título do mais recente livro de Francisco Louçã é provocador: O Futuro Já Não É O Que Nunca Foi. É a vez do político e economista ser substituído pelo ensaísta e em duzentas páginas confrontar o leitor com uma análise de um nada admirável mundo novo. Outros lançamentos: D. António Ribeiro, de José António santos e Ricardo de Saaverda, e Einstein e Lenine em Moscovo, de Boris Hessen

Desta vez, o leitor tem de separar Francisco Louçã daquele que melhor conhece de declarações políticas e deixar-se levar por uma perspicaz radiografia pelas grandes alterações sociais – e tecnológicas – vividas no planeta neste século XXI; as de antes, as de durante e as que se preveem ser as do pós-pandemia da covid-19. Quanto à mudança de registo neste volume, Louçã não nega que “a identidade de cada pessoa seja sempre única”. Afirma que tem “uma história e faço parte dela. Este livro é mais ensaístico no sentido de ser mais de reflexão e menos de proposta”. Sendo o primeiro livro com este perfil, a justificação de o escrever é: “Perceber o mundo e o modo como podemos intervir nele, antecipar problemas, trazer ideias e soluções”.

As razões para ter escrito O Futuro Já Não É O que Nunca Foi devem-se às “dificuldades que a democracia enfrenta devido à poluição comunicacional e à perturbação da organização da hegemonia que ameaçam o quotidiano e exigem muito mais do que uma visão simplista e de curto prazo”. Está consciente de que esta é uma reflexão difícil, principalmente pelo que está na origem das mudanças na sociedade. Dá exemplos: “A sociedade do medo, a criação do susto como forma de comunicação, a perturbação permanente das relações entre pessoas. Situações que degradam não só a democracia mas alteram a forma de ver.”

É um trabalho que não resulta de mais tempo livre durante a pandemia, garante: “Deve-se a ter escrito três longos ensaios, os quais modifiquei bastante nesta versão. O primeiro era sobre a sociedade do medo e o paradoxo criado pela pandemia, um vírus que nos faz ter medo das pessoas que mais amamos ou de que somos mais próximos e com quem a aproximação é perigosa.” Acredita que o vírus “será sempre passageiro, mas a sociedade do medo evoca outro tipo de perceções e de fragilidades, bem como de imposição da regra e da mudança do senso comum”, o que o levou a perguntar “porque num século XXI, iluminado pela razão, é um tempo de obscurantismo que ressurge, bem como de violência, de submissão e de desprezo pelos outros, impondo-se uma cultura de raiva como forma de organização do poder. Um quadro que é novo, mas irá muito além dos meses de pandemia que ainda estamos a viver.”

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