Tempos complicados para a violência obstétrica - Plataforma Media

Tempos complicados para a violência obstétrica

Segundo as partilhas que nos chegam, a violência obstétrica tem muitas “caras”. A pressão psicológica – “se depois o seu bebé tiver problemas, é consigo!” – é uma das mais comuns, a par de comentários paternalistas e desadequados – “pare lá de gritar que assusta os vizinhos!”. Mas também acontece em intervenções que quando feitas por rotina podem prejudicar gravemente a evolução natural do parto e, dessa forma, o bebé e a mulher. São exemplos disso a indução do parto, a episiotomia ou ainda a  manobra de Kristeller (pressão na barriga da mãe para o bebé sair), desaconselhada e perigosa mas ainda praticada.

A publicação recente em Diário da República de uma Resolução, que recomenda ao Governo a eliminação de práticas de violência obstétrica e a realização de um estudo sobre as mesmas, é um manifesto sinal de aprovação e de reconhecimento deste problema por parte da Assembleia da República. Um passo que cremos ser significativo e certeiro se queremos que Portugal enverede em definitivo por uma prática de nascimentos mais humanizados.

No mesmo sentido, e em nome de uma maior transparência sobre como se nasce no nosso país, o Parlamento aprovou igualmente uma iniciativa em que se exorta o Governo a divulgar e publicar, de forma sistemática, os dados de obstetrícia e neonatologia das maternidades portuguesas. Apesar de esta já ser uma obrigação prevista na legislação, apesar de várias associações cívicas e outras já terem solicitado esses mesmos dados – essenciais para se perceber quantas induções, quantas episiotomias, quantas intervenções se fazem nos partos em Portugal, assim como para melhor compreender as causas de morte de bebés e de mulheres no parto, estes dados permanecem incompreensivelmente no domínio do desconhecido. Incompreensivelmente e inaceitavelmente, para mais quando a taxa de mortalidade materna tem vindo a ser um problema grave nos últimos anos, que, sem se conhecer as causas, por falta de informação, dificilmente poderá ser eficientemente abordado enquanto tal.

Contudo, não obstante a pertinência, a inegável gravidade da matéria em apreço e a evidente importância das iniciativas em causa, surgiu recentemente nas redes sociais um excerto de um chat privado, alegadamente atribuído a médicos obstetras. Nessa ‘conversa’,  cuja extrema preocupação era para com o teor destas iniciativas e o que elas implicam: uma maior transparência, um maior nível e rigor de informação, muito nos deve espantar a todos que a divulgação de tais dados seja temido e entendido como “tempos complicados se avizinham”. Quando a transparência de informação e a luta em prol da erradicação de abusos contra a mulheres grávidas e bebés assusta profissionais, então qualquer dúvida que pudesse eventualmente haver sobre a necessidade e importância destas medidas dissipa-se de forma imediata.

No nosso entender, tempos complicados avizinham-se, sim, para a violência obstétrica e para a ocultação de potenciais más práticas! Ao nosso lado para esse fim teremos, certamente, todos os profissionais de saúde que diariamente se esforçam por prestar os melhores cuidados possíveis, que diariamente fazem do SNS um orgulho para o nosso país, que acreditam que é possível mudar práticas obsoletas, que atualizam as suas práticas com base na mais recente evidência científica. Aqueles e aquelas que consideram que o caminho a fazer é o do respeito pelos direitos das mulheres na gravidez e no parto, que acreditam que para mudar o mundo é preciso mudarmos a forma como acontecem os nascimentos, para que  haja total respeito e dignidade. A todos eles e elas o meu agradecimento.

*Deputada do PAN

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