Situação no norte de Moçambique está "fora de controlo" - Plataforma Media

Situação no norte de Moçambique está “fora de controlo”

O coordenador nacional da Helpo em Moçambique considerou que a situação no norte do país africano está “fora de controlo”, apesar dos esforços do Governo para restaurar a tranquilidade e da preocupação dos parceiros regionais.

“Esta situação começou a 5 de outubro de 2017, com o ataque a Moçímboa da Praia, mas desde o final do primeiro semestre do ano passado, o número de deslocados começou a aumentar de forma exponencial”, disse Carlos Almeida.

O responsável da organização não-governamental (ONG) falava no final da apresentação de uma exposição de fotografias tiradas pelo próprio em Cabo Delgado, apresentada hoje em Lisboa.

“A questão dos jovens levados para fora do país é uma realidade provada, que depois regressaram do estrangeiro com estrangeiros e começaram a criar seitas e a criar um problema que agora está fora de controlo”, afirmou Carlos Almeida.

O responsável da Helpo explicou que antes dos ataques iniciais “já havia a informação de que havia jovens a serem recrutados para a Arábia Saudita para bolsas de estudo, mas quando voltavam não tinham estudado nada e vinham só radicalizados em termos de leitura do Alcorão”.

O coordenador da ONG disse que “estas seitas têm muito pouco de religioso, porque grande parte das pessoas que sofrem é muçulmana, é puro banditismo numa ideologia dita muçulmana, não tem nada de religioso”, apontando que “já havia pequenos sinais anteriores a 2017 de que algo não estaria bem”.

Questionado se considera que a radicalização destes jovens se deveu a uma falta de investimentos na província de Cabo Delgado, Carlos Almeida preferiu não fazer comentários políticos, mas afirmou que “há muito poucas escolas secundárias”.

“Quando em 2019 houve o ciclone Idai, no centro, e depois o ciclone Kenneth entrou em Cabo Delgado, as pessoas já estavam em grandes dificuldades e as crianças têm dificuldades em prosseguir os estudos, daí a Helpo ter bolsas de estudo que garantem um ano de estudos por apenas 40 euros”, lembrou.

Nesta província mais a norte de Moçambique, onde estão os grandes projetos de exploração de gás natural que poderão desenvolver exponencialmente a economia do país, “há 30% das pessoas a morar fora das suas aldeias, de onde fugiram por temerem pela vida”, frisou.

Em relação ao empenho das autoridades centrais no terreno para garantirem a segurança das populações, Carlos Almeida respondeu: “O Governo está empenhado, as forças de defesa e segurança estão a trabalhar muito para controlar as zonas fora do seu controlo, foi dada uma resposta firme em Palma, uns dias depois as autoridades já controlavam a vila”.

“A Comunidade de Desenvolvimento da África Austral [SADC] está preocupada, a África do Sul e a Tanzânia estão muito preocupadas, e Portugal tem tido um papel fundamental junto da União Europeia, porque este não é um problema de Moçambique, é regional e global, se o movimento ganhar raízes pode trazer outros problemas mais graves”, concluiu.

A exposição “O princípio, o meio e o resto — Olhos nos olhos com os deslocados de Cabo Delgado” está patente na sede da Ordem dos Médicos, em Lisboa.

A Helpo é uma organização criada em 2008, que tem o apoio do Camões — Instituto da Cooperação e da Língua. Em 2019, por causa da crise decorrente das passagens dos ciclones Idai e Kenneth, a intervenção da Helpo em Moçambique intensificou-se nos distritos de Pemba, Ancuabe, Mecufi, Metuge, Montepuez e Mocímboa da Praia, todos em Cabo Delgado.

Grupos armados aterrorizam Cabo Delgado desde 2017, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico, numa onda de violência que já provocou mais de 2.500 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED, e 714.000 deslocados, de acordo com o Governo moçambicano.

O mais recente ataque ocorreu em 24 de março contra a vila de Palma, provocando dezenas de mortos e feridos, num balanço ainda em curso.

As autoridades moçambicanas recuperaram o controlo da vila, mas o ataque levou a petrolífera Total a abandonar por tempo indeterminado o recinto do projeto de gás com início de produção previsto para 2024 e no qual estão ancoradas muitas das expectativas de crescimento económico de Moçambique na próxima década.

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