Tropas estrangeiras em Cabo Delgado vêm com "contrapartidas", diz ex-secretário da SADC - Plataforma Media

Tropas estrangeiras em Cabo Delgado vêm com “contrapartidas”, diz ex-secretário da SADC

Numa entrevista ao Club of Mozambique este domingo, o ex-secretário da SADC (Comunidade de Desenvolvimento da África Austral), Tomaz Salomão, aponta que Moçambique devia olhar para a região antes de estabelecer contactos para a intervenção militar estrangeira na província de Cabo Delgado.

Na opinião de Tomaz Salomão, como cidadão moçambicano, o apoio das tropas estrangeiras deviar ser direcionado para “logística e treino” apenas. “Deem o apoio nos termos que foram pedidos pelo governo de Moçambique”, salientou.

O economista aponta para situações semelhantes para justificar a sua opinião. “As experiências pelo mundo mostram que quando tropas estrangeiras entram num determinado território nunca mais saem. Esta é a realidade. Ao procurar algum tipo de apoio, devia-se dar primazia à região (África Austral) antes de percorrer não sei quantas milhas para falar com Portugal ou com os Estados Unidos. Não há em qualquer parte do mundo uma intervenção militar estrangeira que seja feita sem contrapartidas. O país tem de ter a capacidade de avaliar e estar consciente das prioridades nacionais”, explicou.

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O ex-secretário da SADC relembra um episódio em território nacional, onde a presença de tropas estrangeiras não foi bem-vinda pela população. “Em Moçambique já tivemos tropas estrangeiras. Recordo-me do então Presidente da República, Joaquim Chissano, que teve de ir a uma reunião na Zambézia com a população. O que o povo queria era a retirada das tropas estrangeiras. Portanto, cabe a este país chamado Moçambique, ser ele próprio a construir a sua defesa e a defender-se ”, disse.

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Palma:

Tomaz Salomão reforça a ideia de que se deve evitar o envolvimento de tropas estrangeiras na luta contra os insurgentes dando o exemplo de Palma. “Em Palma não aconteceu o pior cenário. Os insurgentes não fizeram mais porque desta vez encontraram uma resposta forte das forças armadas de Moçambique. Pela primeira vez numa operação deste tipo, houve intervenção da força aérea moçambicana, com pilotos moçambicanos que repeliram os insurgentes. Isto mostra que se existir um investimento adequado na preparação das tropas, com equipamento e treino, estamos mais perto de mitigar o problema. As forças armadas são muitas vezes criticadas pela população mas mostraram a sua bravura na operação”, referiu.

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O ex-secretário executivo da SADC disse ainda ser estranho que o atentado perpetrado pelos terroristas em Palma, a 24 de Março, tenha ocorrido pouco depois de a petrolífera Total anunciar o recomeço das atividades, tendo sido assgurado que estavam reunidas as condições de segurança para prosseguir.

“O governo e a Total anunciam,‘ Vamos retomar o trabalho – as condições são criadas após um interregno ’. Dois dias depois ocorre um ataque, o que significa que este ataque já estava planeado e preparado, e os insurgentes estavam apenas à espera do momento certo para ‘apertar o gatilho’ ”, observou.

A violência armada em Cabo Delgado começou há mais de três anos, mas ganhou uma nova escalada em 24 de março, quando grupos armados atacaram pela primeira vez a vila de Palma, a cerca de seis quilómetros de grandes projetos de gás natural.

Os ataques provocaram dezenas de mortos e obrigaram à fuga de milhares de residentes de Palma, agravando uma crise humanitária que atinge cerca de 700 mil pessoas na província, desde o início do conflito, de acordo com dados das Nações Unidas, e com cerca de 2.500 óbitos desde o início do conflito, segundo contas feitas pela Lusa.

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