Conservação do ambiente brasileiro precisa de “noção de gradualismo” - Plataforma Media

Conservação do ambiente brasileiro precisa de “noção de gradualismo”

Gesner de Oliveira, ex-presidente do Conselho Administrativo de Defesa Económica (CADE) e da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) propõe, numa obra que assina em co-autoria com Artur Villela Ferreira, um caminho diferente para o debate ambiental no Brasil. 

Com o título “Nem negacionismo, nem apocalipse – economia do meio ambiente: uma perspectiva brasileira”, levanta-se uma alternativa que tenha em conta a complexa realidade do país que, se por um lado dispõe de grande potencial energético, peca por ser vítima de uma economia informal que parece proliferar à margem da lei e, tende a crescer quando esta é mais rigorosa. 

Em entrevista à Globo, Gesner aborda a obra, começando por referir que não adianta lutar contra o canudinho (palhinhas) se o lixo é deitado em qualquer lugar, sem incineração adequada. “Estamos claramente a ultrapassar os limites planetários. É preciso senso de urgência. Mas é preciso também uma noção de gradualismo. Não se mudam hábitos e preferências da noite para o dia”, acrescenta.

Para o economista, a perspetiva brasileira no debate do meio ambiente diverge da posição europeia e norte-americana. Enquanto os países mais desenvolvidos discutem a composição dos gases de efeito de estufa provenientes da dependência de combustíveis fósseis, o Brasil tem uma matriz elétrica limpa, com potencial para melhorar. Em solo nacional, os gases com efeito de estufa são consequência direta do desmatamento.

“Se você for mais rigoroso com a grilagem de terras (falsificação de documentos para, ilegalmente, tomar posse de terras devolutas ou de terceiros), a gente pode reduzir as nossas emissões com relativa velocidade. Precisamos de uma política pública para o meio ambiente pautada na análise científica e na nossa realidade”, defende.

Onde surge o problema para Gesner? De acordo com o ex-presidente do Sabesp, metade da população brasileira não tem acesso a recolhas de lixo, 30 por cento da produção de água é desperdiçada e não há tratamento devido dos esgotos.

“Temos 30 milhões de brasileiros sem acesso à água tratada. Esse é um tema central para o Brasil, mas que é irrelevante para os EUA e a União Europeia. No documento que o Ministério das Relações Internacionais levou  para a COP 22 (Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente), em 2016, a gente não mencionava a palavra água. Felizmente esse tema entrou na pauta da política pública, com o novo marco regulatório”, esclarece.

A construção civil também representa um obstáculo grande para a conservação do meio ambiente. O economista explica que o uso inadequado de materiais, excesso de resíduos e falta de reciclagem constituem um problema.

“Enquanto a gente tiver 1500 lixões, você não tem incentivo para a reciclagem. No campo, temos um agronegócio que se beneficia da necessidade de proteger o ambiente. O problema está no ciclo perverso da grilagem. O sujeito invade a terra, queima, planta de forma amadora, depois põe gado e vende. Tudo isso mostra que a economia subterrânea ou a informalidade é a maior inimiga do meio ambiente”, diz. 

No entanto, Gesner não concorda com a aplicação de leis mais rigorosas, dado que só aumenta a atração do mercado informal. Não cumprir os requisitos torna-se vantagem ainda maior, alimentando o “ciclo perverso de informalidade e dualidade”, diz.

Para quebrar o ciclo, o economista quer rigor no mercado informal, mas benefícios para quem tem propriedade e protege a flora.

“Se a pessoa gera externalidade positiva, ela tem de ganhar alguma coisa”, seja em forma de prémio ou subsídio. Embora lamente, afirma que não adianta lutar contra certas formas de poluição se não existe estrutura necessária para a eliminar, como o lixo. “Às vezes ter metas menos ambiciosas, mas que possam fazer valer o efeito concreto é melhor. É preciso encontrar um equilíbrio”, defende.

No livro, destaca-se que o contexto em que o Brasil se insere requer um gradualismo e uma análise honesta do custo-benefício. A pauta ambiental, por muito importante e urgente que seja, tem de estar alinhavada com uma agenda económica que ainda procura resolver os problemas crónicos de pobreza e desigualdade. 

O processo de desenvolvimento não pode passar por um agravamento do estado do ambiente e depois, quando der frutos, passar à respetiva solução. Esse ponto de vista esbarra na falta de tempo. “Não podemos reeditar a trajetória dos países maduros. É impossível fazer a mesma trajetória hoje. O Brasil tem todas as condições para, em 10 anos, ser visto como um país líder na questão ambiental. Depende de nós, tem que ter planeamento, metas claras. E uma narrativa que é legitimada, aceita pela sociedade”, conclui.

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Related posts
Mundo

"Sinais vitais" da Terra estão a enfraquecer, apontam cientistas

Mundo

Na 5.ª feira a Humanidade começa a viver a crédito

Cultura

Ai Weiwei em Serralves, pela justiça ambiental

LifestylePlataforma Sabores

Empresa francesa lança-se na produção de foie gras de laboratório

Assine nossa Newsletter