O combate para levar água às populações de Oecusse-Ambeno

O combate para levar água às populações de Oecusse-Ambeno

O verde intenso que hoje marca as escarpadas montanhas do enclave timorense de Oecusse-Ambeno, fruto de uma época das chuvas mais intensa do que nos anos anteriores, ‘esconde’ um problema crónico de falta de água na região.

E se hoje os campos de cultivo estão verdes, beneficiando da chuva e de projetos de irrigação já implementados, nos últimos anos a situação foi dramática para muitos habitantes do enclave e obrigou, durante um longo período, à distribuição de água em camiões tanque.

“Temos cerca de 40 mil pessoas com dificuldades de acesso a água, cerca de metade da população do enclave. É uma situação muito complicada. Agravada porque em alguns locais há problemas de desflorestação”, declarou o presidente da Região Administrativa Especial de Oecusse-Ambeno (RAEOA), Arsénio Bano, que acompanhou a Lusa numa visita a várias zonas afetadas.

“Desde setembro do ano passado fizemos uma intervenção de emergência, a distribuir 100 a 150 mil litros diariamente, através de tanques de água, às populações”, disse.

O problema da água não é exclusivo de Oecusse e continua a ser uma das maiores dificuldades para muitos habitantes de Timor-Leste, com falta de pontos de acesso a fontes de água em vários locais e ausência de redes de distribuição.

As alterações climáticas, já evidentes nos padrões de chuva em Timor-Leste, a ausência de sistemas de coleta e de irrigação, a desflorestação em vários locais e a crescente procura da crescente população, fazem aumentar a pressão sobre os recursos hídricos do país.

Por isso, projetos no setor da água são a prioridade da RAEOA para este ano, num investimento de mais de quatro milhões de dólares (3,3 milhões de euros), para apoiar agricultores e fornecimento direto às famílias, indicou o responsável.

“Sem água, eletricidade e estradas, a economia não funciona e a vida das pessoas também não. Disso depende o acesso à educação, à saúde e o movimento da economia”, sublinhou.

“É uma situação difícil. São problemas crónicos de todo o país”, admitiu Bano.

Em Panite, suco Lalisu, perto da capital, equipas da RAEOA estão a apoiar agricultores e residentes da zona a criar um pequeno canal que permita irrigar melhor e de forma mais regular os campos de arroz que alimentam a população da zona.

Dois ramos de árvores grossos, a fazer de ponte improvisada, permitem atravessar um pequeno canal, ainda rudimentar e por terminar, mas que já está a fazer chegar água aos campos de arroz da planície.

Cerca de 125 famílias tinham perto a ribeira de Tono, uma das maiores da região, mas era preciso uma intervenção maior, de emergência, para desviar alguma água para os cerca de 85 hectares de arrozais.

“Os agricultores de 125 famílias pediram para a autoridade ajudasse a viabilizar água. É uma intervenção de emergência porque tivemos dois anos com pouca chuva e só este ano as coisas parecem melhor”, comentou Arsénio Bano.

Mais acima, em Tono, já a sair das planícies que rodeiam a capital, a barragem e canais de irrigação da Ribeira, estão hoje com água, que por ali corre para chegar a mais de 1.700 hectares.

Um projeto, implementado no mandato do primeiro presidente da RAEOA Mari Alkatiri, para fazer chegar água a cerca de 1.700 hectares de campos de cultivo, numa vasta região a oeste da capital, Pante Macassar.

“Durante dois anos quase não tivemos água. A irrigação depende da água da chuva, e este ano temos mais chuva e esperamos poder conseguir irrigar mais de mil hectares de campos de arroz”, indicou Bano.

“São quase três mil famílias e quase oito mil pessoas que dependem diretamente disto, em quatro sucos da zona: Cunha, Lalisu, Lifau e Costa”, sublinhou.

No caminho para a zona fronteiriça de Oesilo, em Nusla’o, Bobokase, o barulho pneumático e compassado de uma perfuradora assinala talvez o projeto mais importante em curso na melhoria do acesso à água da região.

A RAEOA está a investir cerca de quatro milhões de dólares (3,3 milhões de euros) para fazer oito poços, em média a uma profundidade de 80 metros, com um depósito de 200 mil litros cada e uma rede de distribuição a famílias da região.

“Vamos conseguir fazer chegar água a mais de 39 mil pessoas. O projeto inclui um sistema de depósito e de distribuição às famílias, com ligações que permitam acesso a água potável e regular”, explicou Bano.

Depois, no futuro, poderá haver um sistema de contadores e de pagamento e, eventualmente, mais tarde, uma empresa regional de água.

“Sem estes serviços básicos não se consegue fazer o resto”, reiterou.

Daí que, a par da prevenção e combate à covid-19, de alguns projetos de construção de estradas, incluindo a ligação entre Tono e Oesilo, o foco seja na água e para ser possível deixar de andar quilómetros para dar de beber às famílias.

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