Próxima fase: ajustar programas curriculares à realidade sanitária - Plataforma Media

Próxima fase: ajustar programas curriculares à realidade sanitária

Desde logo, parto da pergunta que se impõe: o Ministério da Educação está a preparar os alunos para um “mundo que já não existe”? Perante um futuro incerto, está a educar as crianças e jovens para a imprevisibilidade, mudança, adaptação, empatia e responsabilidade coletiva? No papel, sim! Mas quando se trata de políticas que o permitam e facilitem: Não! Senão vejamos: no Perfil dos Alunos à saída da Escolaridade Obrigatória considera-se fundamental que a escola habilite “os jovens com saberes e valores para a construção de uma sociedade mais justa, centrada na pessoa, na dignidade humana e na ação sobre o mundo enquanto bem comum a preservar”.  Com uma escola tão condicionada por extensas matérias, provas, tempos e metas, não pode a Escola cumprir este desiderato. Atentemos num exemplo muito concreto: do ponto de vista ambiental está previsto ensinar a importância da relação com o ambiente, mas as aulas funcionam em espaços fechados, sem contacto com a vida natural. Não há uma política educativa que promova na prática os valores ambientais que se defendem nos manuais. 

Atentemos noutros exemplos: os alunos mais novos têm de ficar sentados horas excessivas numa fase de desenvolvimento físico e emocional que não se coaduna com esta exigência. Com trinta alunos e uma enorme diversidade individual na sala aula, os professores não podem trabalhar para, e com o indivíduo. A redução de turmas deveria ter sido uma prioridade e já ser uma realidade.

Vivemos uma crise sem precedentes e nem isso faz mudar as políticas públicas de educação em Portugal!

Talvez devêssemos exigir um perfil de saída da escolaridade obrigatória para o Ministro da Educação que, num momento em que devia dizer que vamos ajustar os currículos aos constrangimentos únicos que vivemos, diz que o que importa é repor as aulas, possivelmente para que se pense que encara o assunto com seriedade, reafirmando a ideia de que para o responsável das políticas da educação em Portugal  o importante é sempre a quantidade e não a qualidade de conteúdos. Este é um ministro que não antecipa, não resolve, não se adapta: se a mudança antes já passaria por rever programas curriculares com vista à redução rigorosa de conteúdos, agora faz mais sentido do que nunca, nomeadamente naquilo que é possível, ou seja rever metas a atingir, rever domínios, rever programas, com rigor, sem deixar que isso se confunda com facilitismos ou passagens administrativas.

Num estudo do Health Behaviour in School-Aged Children (HBSC)35% dos alunos diz gostar menos da escola por causa das aulas. 87% associa este descontentamento a demasiada matéria e 85% ao facto de considerarem a matéria aborrecida. Os estudantes de hoje são diferentes de outras gerações!  Hoje já não é tão importante o que sabemos, mas o que fazemos com o que sabemos. Não faz sentido que a escola seja essencialmente para debitar informação, ou para privilegiar a memorização. O foco terá que ser compreender, analisar, definir perspetiva crítica, mais do que o saber em si mesmo. É evidente que um dos passos para tal é o de rever programas curriculares e reajustá-los às faixas etárias e níveis de desenvolvimento cognitivo, ajustá-los às exigências do futuro: vivemos uma crise sem precedentes e nem isso faz mudar as políticas públicas de educação em Portugal!

*Deputada do partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN) – Portugal

Related posts
MacauSociedade

Aulas em Macau não vão ser suspensas, diz Wong Ka Ki

Eleitos

Será que vamos poder votar?

EleitosPortugal

De olhos bem abertos

ChinaSociedade

Duas empresas chinesas construirão 1.000 escolas no Iraque

Assine nossa Newsletter