Milhares de crianças angolanas são vítimas de queimaduras por negligência dos pais - Plataforma Media

Milhares de crianças angolanas são vítimas de queimaduras por negligência dos pais

Sozinhos em casa. Aline, de oito anos, é a mais velha de dois rapazes, um de cinco e outro de três. A menina decide fazer o pequeno-almoço. Acende o fogão e coloca uma cafeteira com água a ferver, para o chá. Enquanto aguarda, corta os pães em fatias e aplica a manteiga. São 8 horas da manhã.

O chá está pronto a servir. Depois de desligar o fogão, puxa a ponta do vestido de lã que tem no corpo, para tirar o recipiente. A cafeteira está muito quente. Aline não resiste à temperatura. Larga a cafeteira e todo o líquido efervescente atinge-lhe no peito, barriga, pernas, e nos órgãos genitais. Chora de dor. Grita por socorro. Ela não consegue andar.

O irmão, de cinco anos, corre para fora. Pede ajuda a uma vizinha que, entretanto, por falta de um telemóvel ainda não sabe o que fazer. Minutos depois, leva a menina ao Hospital Geral de Luanda, de onde recebeu a informação que os pacientes com queimaduras devem ser encaminhados para o Hospital dos Queimados, que funciona provisoriamente no Zango II, município de Viana. “A menina tem de internar”, avisa um dos médicos, em serviço, no banco de urgência da referida unidade hospitalar. Aline vai ficar algum tempo sem usar calças e calções. Apenas poderá andar de vestidos, saias curtas e largas, para permitir que as feridas sequem mais rápido, reduzindo as dores e os riscos de infecção.

Para minimizar as marcas das queimaduras, a me-nina deverá ser submetida, mais tarde, a uma cirurgia reparadora, com recurso a enxertia (retirar a pele de uma parte sã, do corpo, para cobrir as partes queimadas). “Caso contrário, a pequena terá que conviver com as cicatrizes para o resto da vida”, disse o médico.
Contactada pelo Jornal de Angola, a mãe da pequena Aline disse que nunca iria perdoar-se, caso o pior acontecesse com a filha. Teresa Ambrósio reconhece que uma criança não deve ter a responsabilidade de cuidar de outras crianças. “Eu sei disso. Mas muitas vezes não tenho escolha”.

“A vida está tão difícil que já não dá para ficar só em casa, a olhar para as paredes. Tenho que arranjar alguns negócios e ir zungar, para conseguir comida para os meus filhos. O meu marido está há cinco anos desempregado, mas também não pára em casa. Se eu ficar sem fazer nada, os meus filhos vão passar fome,” lamenta a jovem mãe de 25 anos.
Azar ou coincidência? Vinte dias depois da data de internamento, enquanto Aline aguardava por alta médica, o primo, que tem apenas um ano, acabava de dar entrada no banco de urgência. O menino queimou o “rabinho” com o óleo quente que estava numa frigideira, no chão da cozinha.

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