Sabedoria e coragem podem ajudar a descongelar os laços sino-americanos - Plataforma Media

Sabedoria e coragem podem ajudar a descongelar os laços sino-americanos

As relações entre a China e os EUA deterioraram-se a um ritmo sem precedentes nos últimos quatro anos graças às políticas do Governo Donald Trump, baseado no lema “A América Primeiro”. Há esperanças de que a próxima administração de Joe Biden tome medidas para reverter essa tendência.

Os laços sino-americanos enfrentam oportunidades e desafios, especialmente quando Washington diz que os esforços para se envolver com Pequim fracassaram e que as relações internacionais, hoje, assentam na competição entre as grandes potências - e é por isso que os Estados Unidos veem a China como um país estratégico e rival ideológico.

É dos factos que o atual Administração fez todos os possíveis nesse sentido, tendo desencadeado uma nova Guerra Fria para conter a ascensão da China. E, apesar de a China exercer uma contenção exemplar em face dos movimentos unilaterais e disruptivos dos EUA, os laços sino-americanos atingiram um novo nível. Como disse o embaixador chinês nos Estados Unidos, Cui Tiankai, em outubro, as relações China-Estados Unidos passaram por “graves dificuldades raramente vistas nos últimos 41 anos”.

Como Biden tem experiência de trabalho com a China, especialmente como vice-presidente dos Estados Unidos na presidência de Barack Obama, muitos dizem que, provavelmente melhorará as relações bilaterais depois de tomar posse como presidente já em janeiro. Dito isto, o futuro das relações sino-americanas dependerá da política da futura Administração com a China.

A julgar pela campanha presidencial do candidato e a plataforma do Partido Democrata para 2020, Biden pode apenas mudar, de modo, parcial, mas não totalmente, a política de Trump face à China. Mais importante ainda, democratas e republicanos chegaram a um consenso de que a China diminuiu a diferença com os EUA, portanto, lidar com essa nova realidade tornou-se o principal desafio para Washington. Na verdade, numa entrevista em outubro, Biden disse que a Rússia é a “maior ameaça” dos EUA e a China o “maior concorrente”.

Isso significa que a China e os EUA continuarão a compartilhar uma relação competitiva.

Os direitos humanos são outra questão controversa que pode afetar as relações sino-americanas. O Governo Trump tem interferido nos assuntos internos da China. Os EUA intensificaram o conflito ideológico com a China, meteram o nariz nos assuntos internos chineses, inclusive em assuntos relativos à Região Administrativa Especial de Hong Kong, à região autónoma de Xinjiang (minoria Uigur) e à questão de Taiwan.

E uma vez que Biden reiterou o compromisso do Partido Democrata com valores como liberdade, democracia e direitos humanos, as relações da futura administração com a China podem não ser muito diferentes das de Trump. Ou seja, é improvável que Biden reverta essa política face à China e, como resultado, as divergências sobre valores entre os dois lados podem continuar.

Trump impôs restrições políticas e criou barreiras tecnológicas contra as empresas chinesas de alta tecnologia para garantir que os EUA continuem líderes globais no campo de tecnologia avançada. E, embora Biden possa evitar novas medidas contra Pequim pode, por outro lado, aumentar os investimentos em alta tecnologia para manter a liderança global dos EUA neste setor. Como tal, a competição tecnológica dos dois lados pode intensificar-se.

Mas, uma vez que Biden se opõe à guerra comercial desencadeada por Trump, a qual acabou por sair pela culatra aos EUA, e a uma nova guerra fria, poderá avançar com medidas para aliviar as tensões sino-americanas e adotar uma abordagem mais cautelosa em matérias sensíveis como a questão de Taiwan, contribuindo para melhorar os laços bilaterais.

Diferente do caprichoso e egocêntrico Trump, Biden é conhecido por respeitar a ordem mundial e as regras e valores internacionais e isso deve bastar para garantir que os EUA, como superpotência, cumpra as respetivas responsabilidades globais. O país deverá regressar ao multilateralismo e juntar-se novamente ao acordo nuclear com o Irão e ao Acordo de Paris.

Dadas essas possibilidades, é previsível que os laços sino-americanos estabilizem durante a presidência de Biden.

O presidente eleito prometeu não apenas impulsionar a economia dos EUA e melhor salvaguardar a segurança nacional e os direitos humanos, mas também trabalhar com a China para enfrentar os desafios globais, incluindo as mudanças climáticas e não proliferação nuclear. Pequim e Washington também podem cooperar na luta global contra a pandemia COVID-19.

No entanto, Biden pode criar novos desafios para a China. Criticou Trump por alienar aliados dos EUA, dizendo que, ao mesmo tempo que quer fortalecer a cooperação e a coordenação com os aliados, a nova Administração tentará alcançar um consenso sobre como lidar com uma China em ascensão. Portanto, Pequim deve estar preparada para superar esses desafios.

No mês passado, o presidente Xi Jinping endereçou os parabéns a Biden pela vitória e disse esperar que as relações sino-americanas melhorem sob a nova presidência para o benefício dos dois povos, bem como da comunidade internacional. Se demonstrarem respeito mútuo, trabalharem juntos para resolver questões globais e comuns e administrarem adequadamente as disputas bilaterais durante o mandato de Biden, os laços sino-americanos voltarão ao caminho certo.

*O autor é investigador associado do Instituto de Estudos Americanos da Academia Chinesa de Ciências Sociais

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