Rohani acusa Israel de querer semear o 'caos' com morte de cientista iraniano

Rohani acusa Israel de querer semear o ‘caos’ com morte de cientista iraniano

O presidente iraniano, Hassan Rohani, acusou Israel neste sábado (28) de querer semear o “caos” com o assassinato, na sexta-feira perto de Teerã, de um importante cientista do programa nuclear, um crime que segundo as autoridades de Teerã deve ser “castigado”

“Mais uma vez, as impiedosas mãos da arrogância global, com o usurpador regime sionista como mercenário, foram manchadas com o sangue de um filho desta nação”, afirmou Rohani.

As autoridades iranianas utilizam a expressão “arrogância global” em referência aos Estados Unidos.

Mohsen Fakhrizadeh, 59 anos, diretor do Departamento de Pesquisa e Inovação do ministério da Defesa, foi gravemente ferido quando seu carro foi atacado por vários indivíduos, que trocaram tiros com sua equipe de segurança, e faleceu poucos minutos depois.

Neste sábado, o guia supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, pediu um “castigo” para as pessoas que estão por trás do crime e se siga adiante com “o esforço científico e técnico deste mártir em todos os âmbitos nos quais estava trabalhando”.

“A nação iraniana é muito inteligente para cair na armadilha da conspiração dos sionistas. Estão pensando em criar o caos, mas deveriam saber que conhecemos suas intenções e não terão êxito”, completou Rohani em um discurso exibido na televisão.

O presidente se comprometeu ainda a impedir que a morte de Fakhrizadeh prejudique os avanços científicos do país e disse que o assassinato do especialista foi motivado pela “incapacidade” dos inimigos do Irã de impedir seu desenvolvimento.

“Os inimigos do Irã deveriam saber que a coragem do povo e das autoridades iranianas é tamanha que este ato criminoso não ficará sem consequências”, acrescentou.

Risco de escalada

O chefe da diplomacia iraniana, Mohamad Javad Zarif, acusou na sexta-feira Israel de ter tido um “papel” neste “ato terrorista”, que mostra “um belicismo desesperado de seus autores”.

Até agora, Israel não reagiu às acusações do Irã, mas a emissora Channel 12 reportou que foi intensificada a vigilância nas embaixadas israelenses. Contatado pela AFP, o ministério das Relações Exteriores não quis fazer comentarios.

A ONU apelou “à contenção e à necessidade de evitar qualquer ação que possa levar a uma escalada das tensões na região”, informou neste sábado seu porta-voz. “Condenamos qualquer assassinato ou execução extrajudicial”, acrescentou.

A Alemanha alertou neste sábado para o risco de uma escalada após o assassinato do cientista e pediu às partes “que renunciem a ações que poderiam agravar a situação”. 

“A poucas semanas da posse de um novo governo nos Estados Unidos, precisamos conservar as margens de diálogo existentes para poder resolver com negociações o conflito pelo programa nuclear iraniano”, disse o porta-voz do ministério das Relações Exteriores em Berlim.

A Síria, aliada do Irã, considerou que se tratava “não de um simples assassinato, mas de uma ação terrorista que a comunidade internacional deve condenar”, segundo o ministro das Relações Exteriores, Faisal Mekdad.

O governo do Catar afirmou em um comunicado que um assassinato deste tipo “só acrescentará lenha na fogueira em um momento em que a região e a comunidade internacional estão tentando reduzir as tensões”.

O cientista assassinado havia sido apontado pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, como o pai do programa iraniano que tem como objetivo produzir a bomba nuclear, intenção que o Irã sempre negou.

O Departamento de Estado americano indicou em 2008 que Fakhrizadeh executava “atividades e transações que contribuíam para o desenvolvimento do programa nuclear do Irã”.

“Este assassinato bárbaro mostra que nossos inimigos vivem semanas difíceis nas quais sentem (…) que sua pressão diminui, que a situação mundial muda”, afirmou Rohani. 

Os inimigos do Irã “querem aproveitar ao máximo (…) estas semanas para criar uma situação incerta na região”, completou, sem revelar detalhes.

O assassinato aconteceu a menos de dois meses da posse do democrata Joe Biden, vencedor das eleições de 3 de novembro, como presidente dos Estados Unidos.

Biden pretende modificar a política americana a respeito do Irã, depois que Donald Trump decidiu retirar de maneira unilateral o país do acordo internacional de 2015 sobre o programa nuclear iraniano. Washington restabeleceu a partir de então as sanções contra Teerã.

O movimento libanês pró-Irã Hezbollah criticou o assassinato do cientista, cometido nas palavras do grupo “por grupos criminosos e terroristas para impedir que a República Islâmica (…) preserve seus progressos científicos e sua independência política e intelectual”.

Olho por olho

Pouco se sabe sobre o trabalho que era executado pelo cientista. Na sexta-feira, o ministro da Defesa do Irã, Amir Hatami, afirmou que Fakhrizadeh teve um “importante papel nas inovações de defesa”.

“Administrava a defesa nuclear e fazia um grande trabalho”, completou, sem apresentar mais explicações.

O diretor da Organização Iraniana de Energia Atômica (OIEA), Ali Akbar Salehi, explicou que mantinha com o falecido uma “boa cooperação, em particular no âmbito da defesa antinuclear”.

Fakhrizadeh é destaque em toda a imprensa iraniana neste sábado. “Olho por olho. Sionistas, estejam preparados”, afirma em sua manchete o jornal ultraconservador Kayhan.

Mohamad Javad Zarif, ministro das Relações Exteriores da República Islâmica, pediu à comunidade internacional o “fim das vergonhosas posições ambivalentes e a condenação do ato terrorista”.

Vários cientistas especializados no programa nuclear iraniano foram assassinados nos últimos anos. Teerã responsabiliza sistematicamente a Israel por estas mortes.

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