Corpos abandonados e crianças sozinhas após ataques em Moçambique

Corpos ao abandono e crianças sozinhas nas matas em Cabo Delgado

A violência armada em Cabo Delgado está a provocar uma crise humanitária com cerca de duas mil mortes e 500 mil pessoas deslocadas.

“A situação está descontrolada, há muitas crianças, sozinhas e perdidas nas matas”, referiu Beatriz João, jornalista da Rádio Comunitária São Francisco de Assis, localizada no distrito de Muidumbe.

“Cruzei-me com muitas dessas crianças enquanto caminhava quilómetros em direção a Montepuez [onde agora se refugia]”, referiu ao Fórum Nacional de Rádios Comunitárias, que divulgou um comunicado com declarações destes jornalistas e onde anunciou estarem a salvo os nove jornalistas daquela estação que há duas semanas fugiram, tal como a maioria da população.

A Igreja Paroquial do Sagrado Coração de Jesus “está a ser usada, nos últimos dias, como base dos insurgentes”, adiantou. “Eles [insurgentes] abandonaram o anterior local onde estavam fixados devido ao cheiro dos cadáveres que se encontram de qualquer maneira nas ruas”, acrescentou.

Moisés José, outro dos jornalistas que também se encontrava refugiado nas matas, referiu, citado no mesmo comunicado, que “os insurgentes capturaram inúmeras mulheres”. “Uma delas foi a minha filha de 27 anos que felizmente conseguiu fugir para as matas e juntar-se a nós”, destacou.

No local onde esteve refugiado durante dias, “havia muitos corpos em fase de decomposição”, descreveu.

Muidumbe recuperada

Muidumbe foi o mais recente distrito tomado por rebeldes este ano, depois de já terem ocupado outros, durante vários dias, mantendo ainda controlo de Mocímboa da Praia, vila costeira e uma das principais da província, segundo detalha o mais recente relatório sobre o conflito, elaborado por uma comissão parlamentar.

Entretanto, o comandante-geral da Polícia da República de Moçambique (PRM), Bernardino Rafael, disse na quinta-feira que as Forças de Defesa e Segurança (FDS) recuperaram a sede distrital de Muidumbe.

A violência armada em Cabo Delgado está a provocar uma crise humanitária com cerca de duas mil mortes e 500 mil pessoas deslocadas, sem habitação, nem alimentos, concentrando-se sobretudo na capital provincial, Pemba.

A província onde avança o maior investimento privado de África, para exploração de gás natural, está desde há três anos sob ataques de insurgentes e algumas das incursões passaram a ser reivindicadas pelo grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico desde 2019.

Jornalistas a salvo

Todos os jornalistas de uma rádio comunitária de Cabo Delgado, norte de Moçambique, estão a salvo depois de terem fugido para o mato após um ataque de rebeldes ao distrito de Muidumbe, anunciou hoje o Fórum Nacional de Rádios Comunitárias (Forcom).

Os nove jornalistas que compõem a redação da Rádio Comunitária São Francisco de Assis já se encontram em zonas aparentemente seguras, depois de terem sobrevivido 15 dias nas matas devido aos intensos ataques protagonizados por insurgentes”, explicou em comunicado a organização.

Aos poucos e após percorrerem longas distâncias a pé, com familiares, incluindo crianças, os sobreviventes conseguiram alcançar localidades seguras.

“Depois de se terem registado problemas de comunicação com os últimos dois [jornalistas] que se encontravam nas matas, na segunda-feira o Forcom recebeu a informação de que Beatriz Luís e Moisés José já se encontravam com familiares, no distrito de Montepuez”, acrescentou.

Contudo, deixaram tudo para trás e agora vivem “em condições precárias”, como milhares de outros deslocados.

Tal como acontece com outros refugiados, alguns membros daquele grupo de jornalistas perderam familiares, assassinados em Muidumbe pelos rebeldes que aterrorizam a província.

“O meu pai foi decapitado. Estamos a morrer de sede e fome, três dias sem comer nada e eu estou com os meus sobrinhos. Estamos a pedir socorro”, relatou um dos deles numa mensagem telefónica citada pelo Forcom a 09 de novembro.

A fuga durou desde o ataque de 31 de outubro e o retrato que fazem agora, em depoimentos divulgados pela organização, é de uma situação “descontrolada” com muitos corpos abandonados e crianças sozinhas, perdidas no campo.

Muidumbe foi o mais recente distrito tomado por rebeldes este ano, depois de já terem ocupado outros, durante vários dias, mantendo ainda controlo de Mocímboa da Praia, vila costeira e umas das principais da província, segundo detalha o mais recente relatório sobre o conflito, elaborado por uma comissão parlamentar.

Entretanto, o comandante-geral da Polícia da República de Moçambique (PRM), Bernardino Rafael, disse na quinta-feira que as Forças de Defesa e Segurança (FDS) recuperaram a sede distrital de Muidumbe.

A violência armada em Cabo Delgado está a provocar uma crise humanitária com cerca de duas mil mortes e 500 mil pessoas deslocadas, sem habitação, nem alimentos, concentrando-se sobretudo na capital provincial, Pemba.

A província onde avança o maior investimento privado de África, para exploração de gás natural, está desde há três anos sob ataques de insurgentes e algumas das incursões passaram a ser reivindicadas pelo grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico desde 2019.

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