Do Faial para o mundo, Edila Gaitonde conta 100 anos de “uma vida extraordinária” - Plataforma Media

Do Faial para o mundo, Edila Gaitonde conta 100 anos de “uma vida extraordinária”

Foi do Faial para Lisboa, para estudar música, mas uma pleuresia mudou-lhe o rumo e Edila Gaitonde, que agora celebra um século de vida, acabou por se tornar ‘cunhada’ do movimento pela independência de Goa.

Edila de Andrade nasceu no Faial, em 03 de novembro de 1920. Agora, com 100 anos, está “a escrever memórias do passado, desde criança”, ainda que não saiba se as vai editar, porque “ainda falta muito, ainda só tem uns poucos capítulos”.

“Ultimamente tenho andado muito preguiçosa. Agora é que a idade vai atacando”, admitiu à Lusa.

Edila já não toca piano, “porque começam as mãos a ressentir, os braços a ressentir” e não pode ter, no apartamento onde vive, em Leça da Palmeira, Matosinhos, um piano.

O gosto pela música e a vontade de a estudar levaram-na, aos 23 anos, dos Açores até Lisboa. A sede de explorar a cidade, aliada às “diferenças de temperatura”, acabaram por lhe valer uma pleuresia, que deixou marcas que não seriam de antecipar, já que, nos dois meses em que esteve de cama, conheceu o seu futuro marido, o médico indiano Pundalik Gaitonde.

“Ele curou-me e eu fiquei muito agradecida”, confessou, entre gargalhadas.

Casaram-se em 1948, numa pequena cerimónia em casa, e, de seguida, rumaram à prisão de Peniche, onde cinco prisioneiros goeses, amigos de Pundalik, lhes ofereceram um almoço de receção.

O almoço de caril, “para ser uma coisa diferente”, só foi possível porque “o chefe de polícia era uma pessoa que se dava muito bem com o ‘Lika’”, como Edila tratava o marido, “e eram amigos”.

“Isto é uma coisa que só pode acontecer em Portugal, uma pessoa que é de uma fação contrária, mas é amiga da pessoa… E ele permitiu”, reconheceu.

Na boda, estavam apenas os noivos, os cinco prisioneiros amigos de Pundalik e uma jornalista francesa, para quem “aquilo foi muito estranho”.

Perante o insólito, a jornalista questionou Pundalik sobre o porquê de fazer a festa ali, ao que o médico retorquiu “sem pensar”, disse Edila, que se tratava de uma “homenagem ao sacrifício”, referindo-se aos amigos.

“Quem não apreciou o casamento foi a família dele, porque eles eram ortodoxos. Eu era o primeiro encontro que eles tinham com uma portuguesa – uma estrangeira”, afirmou.

Ainda assim, com o apoio dos sogros e com a sua natureza curiosa, viveu “na Índia como indiana”, sem descurar a carreira, que a levou a ensinar “música europeia” em Mapusa.

Por lá ficou, até que “as coisas políticas se apressaram” e Pundalik foi preso e levado para Lisboa, em 1954. “Foi um descalabro, um descalabro”, contou.

Pundalik Gaitonde tinha sido detido depois de, num jantar “onde havia militares, a armada, o governador civil”, se ter insurgido quando um dos presentes se referiu a Goa como “cantinho de Portugal”. O médico respondeu: “Aquilo não é canto de Portugal. Aquilo é Goa, é Índia!”, um protesto que iria precipitar o movimento de independência.

Depois do almoço, Pundalik regressou “muito galhofeiro, a contar o que tinha acontecido”, mas cedo começaram a chegar carros à entrada da casa. “Eu vi logo que aquilo ia correr mal”, recordou Edila.

“Deixaram-me em casa, eu sozinha ali, toda a noite nestes termos, aflita da vida, e eles desandaram todos para a capital de Goa”, contou.

O médico “achou que seria preciso um incidente para começar a ação… Foi logo um jato de água a ferver. Começou tudo em ebulição”, lembrou.

Depois de o tribunal os ter “expelido para Portugal”, e como não podiam regressar a qualquer território português, rumaram a Londres, “até ver como é que as coisas iam acontecer”.

Na altura, a Índia ainda não estava pronta “para uma ação real, porque naquela altura ação real era uma guerra” e “ninguém queria guerra, mas queriam ação”.

As coisas acabaram por “correr bem, porque era demais para Portugal estar a ter uma luta tão longe”.

“Um belo dia, recebemos um telegrama, a dizer ‘cunhada [como era tratada pelos políticos goeses], estamos livres finalmente’”, contou Edila.

Regressaram então à Índia, desta vez a Nova Deli, e Edila passou a trabalhar na estação All India Radio External Services, onde “apresentava notícias e dava um recital todos os meses, em direto”, mas acabariam por voltar a Londres, para se dedicarem às suas carreiras.

Depois da morte de Pundalik, em 1992, Edila ficou “exatamente 17 anos sozinha”. “Adaptei-me e estava bem”, confessou.

Até que, numa altura em que foi passar as férias de Natal a Lisboa, soube que António Nava, pai do poeta Luís Miguel Nava, estava viúvo. A pianista achou que lhe devia ligar.

António quis marcar encontro, e assim foi. Almoçaram em Lisboa e “foi a partir daí que, outra vez, as coisas ficaram no ar”.

Outra vez porque António e Edila tinham tido “um namoro, ainda antes do ‘Lika’”, mas os pais da pianista “nunca gostaram, porque ele, naquela altura, era um bocadinho cábula”.

“Recomeçámos outra vez uma relação assim”, relatou. Tinha 90 anos quando se voltou a casar, em 2010, altura em que se fixaram em Leça da Palmeira. Em 2017, António Nava morreu.

“Eu fui sempre uma pessoa que vivi sempre a vida real, a atual. Nunca me sentei a fazer croché porque já era velha. Nunca fui velha”, afirmou.

Por isso, e porque, como diz, teve “uma vida extraordinária de acontecimentos”, prossegue a escrita das memórias.

Será mais uma obra, a juntar aos seis livros editados que conta. Em português, lançou “As Maçãs Azuis: Portugal e Goa 1948-1961” e traduziu a biografia do seu primeiro marido.

Antes da pandemia, a família e os amigos planeavam uma grande celebração. “Até querem que eu tenha uma medalha”, afirmou entre gargalhas, antes de acrescentar: “Dá-me vontade de rir, ter uma medalha por ter 100 anos”.

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