Alterações climáticas ameaçam biodiversidade no Quénia

Alterações climáticas ameaçam biodiversidade no Quénia

“Nos meus 60 anos, nunca vi ou experimentei nada parecido”, diz Richard Lichan Lekuterer, com o olhar no mesmo nível das copas de acácias outrora altas que se projetavam acima da água. A paisagem alterou-se além do reconhecimento.

Um aglomerado de palha encharcada marca o local: a ponta da cabana de palha projeta-se das profundezas tenebrosas. Essa ponta foi tudo o que restou do que era a casa, depois do lago Baringo, no Quénia, submergir vilas, escolas, clínicas de saúde e resorts de férias.

Baringo e os outros grandes lagos do Vale do Rift, no Quénia, atingiram níveis nunca antes vistos, alguns por vários metros ou mais só este ano, após meses de chuvas intensas que os cientistas relacionam com as mudanças climáticas.

As temperaturas acima da média no Oceano Índico estimularam anos consecutivos de chuvas extremas e erráticas, gerando frequentes períodos de chuva fora de época nas escarpas e rios que alimentam os lagos.

“As coisas mudaram … O efeito é mais pronunciado do que há 50 anos atrás”, afirma Mohamed Shurie, geólogo e CEO da WRA (Water Resources Authority) no Quénia.

Numa ilha em Baringo, várias girafas de Rothschild aguardam a realocação para o continente. O habitat encolheu de cerca de 100 hectáres para menos de 10. O Kenya Wildlife Service (KWS) e o Northern Rangelands Trust já resgataram javalis, impalas e avestruzes.

O crescimento destes lagos também está a perturbar um delicado equilíbrio ecológico numa região de biodiversidade famosa por atrair massas de flamingos rosa.

O governo está particularmente preocupado com as repercussões caso a água salgada do Lago Bogoria, em constante expansão, um refúgio de flamingos e pântano de importância internacional, se funda com as águas doces do Baringo, 20 quilómetros a norte.

Dois outros habitats críticos frequentados pelas aves migratórias, o Lago Elementaita e o Lago Nakuru, também estão cheios, este último com um recorde de 50 anos.

O diretor do KWS Baringo, Jackson Komen, assinala que o conflito entre humanos e animais está a aumentar, com hipopótamos a invadir propriedades agrícolas e várias avestruzes a aparecer mortas.

“O nosso medo é que, se não houver comida suficiente, as pessoas recorram aos animais mais vulneráveis”, alerta Komen. 

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