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Meu querido Brasil

Querido Brasil,

Não tendo o simbolismo de ser nas margens do Rio Ipiranga, bem sei, não deixes de escutar nestas minhas sinceras palavras um grito. É empatia, mas também revolta. Pretende ser, sobretudo, desabafo de esperança.

A ti, que és verde vibrante, da cor da Amazónia, têm-te tentado pintar do cinzento do fumo. Mas nada temas, não passam de nuvens e, portanto, são passageiras.

Elas e eles. Aqueles que longe de entenderem que não são, apenas estão, querem fazer passar a boiada, como se os bichos não deixassem a marca das patas cravadas no chão de lama. Aqueles que perante a morte dos teus, à mercê de um novo vírus, tiram a máscara e cospem a arrogância e a incompetência, assim espalhando o preconceito e a mentira, como se fossem uma nova normalidade.

Eles que não sabem conviver com o humor que os faz ver ao espelho, que despudoradamente censuram como noutro tempo e que enchem a boca com a religião que constantemente insultam com as ações que praticam. Eles que idolatram supostos heróis que não foram mais que torturadores e que suspiram por um novo Ato Institucional cujo número cabe numa mão. Atores de segunda série que não estão à altura de uma sala de primeira como tu.

Felizmente, és feito tanto deles, esses, como dos outros. Daqueles que mesmo tendo pouco partilham. Que perante a maior adversidade sorriem, que mostram o dedo do meio ao preconceito e que ainda que presos por uma espécie de corda invisível cortam a meta à frente de todos os outros. Dos altruístas que perante o vírus deixaram quase tudo para trás e o foram combater em prol dos outros. Filhos da empatia e do amor.

Meu querido Brasil, nunca te esqueças que és feito dos povos indígenas e quilombolas. Feito de todos os verdadeiros heróis que lutaram pela liberdade, que acreditaram num futuro melhor e que não se resignaram. De Zumbi dos Palmares, Maria Firmina dos Reis, Machado de Assis, Abdias do Nascimento, Maria Quitéria ou Bárbara Heliodora.
Brasil, tu és o país do tamanho de um continente, conjugando a grandeza do território com a diversidade de tudo o que cabe nele. O país das frutas exóticas, da comida maravilhosa, da praia, da serra, do rio e das chapadas. És a casa das músicas do Caetano, do Chico, do Gil e da Elza Soares. Dos livros do Jorge Amado e das pinturas do Carybé. Do Senna, do Sócrates, do Ronaldinho e do Ronaldo. Do Paulo Freire, do Oscar Niemayer e do Sebastião Salgado.

Na reedição da autobiografia chamada “Verdade Tropical”, um dos teus mais ilustres filhos, Caetano Veloso, escreveu na introdução: Para curar momentos de amargura, relembro a frase de Fernando Pessoa que Eduardo Giannetti citou: ‘Nós nos extraviamos a tal ponto que devemos estar no bom caminho’.
Não te ocupes agora a lamentar o desvio, agarra a estrada e vai. Sê feliz, que há tempo. E não esqueças outro génio que nasceu em ti, Chico Buarque.

“Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar”

*Jornalista

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