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Trabalhar no teatro como free lancer

Cita é atriz e bailarina. Em palco assume vários papéis, mas fora de cena tem muitas outras responsabilidades, incluindo a administração do espaço dos espetáculos. No passado, chegou até a trabalhar como diretora artística para vários grupos, em bilheteiras, na receção, como assistente de adereços, extra ou coreógrafa. De vez em quando podemos vê-la vestida de preto, com um walkie-talkie na mão a trabalhar à frente e atrás das cortinas nos palcos de muitos espetáculos. 

Há seis anos que se dedica a tempo inteiro, como freelancer, no mundo do espetáculo. Demonstra abertamente a paixão pelo teatro e pelo espetáculo, admitindo que ao partilhar muitos dos valores que a arte representa possibilita que trabalhe numa área com grande interação humana. Antes de dar este rumo à vida, trabalhava como instrutora empresarial. Para muitos podem parecer empregos completamente diferentes, mas para Cita são semelhantes enquanto foco central nas pessoas. “Através das artes performativas podemos atrair a atenção do público para assuntos pouco falados ou acontecimentos atuais relevantes, como a proteção ambiental” afirma. “Há muitos anos que fazia teatro como atividade part-time, por isso decidi largar o meu anterior emprego e dedicar-me ao espetáculo a tempo inteiro.” 

Instrutores empresariais focam-se no potencial dos trabalhadores e no respetivo treino, o teatro leva a mesma ideia ainda mais além, entende. 

Normalmente esta já é uma área laboral instável, mas com o impacto da pandemia os trabalhadores do teatro sentem-se ainda mais desprotegidos. Durante este mais de meio ano de pandemia, Cita ficou sem rendimento, o que representou um grande impacto económico no dia-a-dia da sua vida. 

Neste tempo estagnado, os trabalhadores do teatro não têm qualquer garantia de segurança. 

Cita esclarece que devido a atrasos em contratos de vários projetos financiados pelo Governo, muitos produtores começaram até a fazer ensaios, mesmo sem contratos. 

“Os produtores têm de começar a trabalhar discretamente sem receber financiamento. Todo o sistema administrativo de financiamento cultural público é ineficiente, afetando diretamente os nossos rendimentos. Em particular no início da pandemia, quando todas as atividades foram suspensas. Desde cancelamentos e adiamentos de espetáculos até à suspensão das aulas. Esta situação tem vários resultados. O primeiro é o impacto direto no rendimento destes trabalhadores, com atuações e aulas canceladas o respetivo rendimento diminui. O segundo impacto é sobre a calendarização destas atividades, que irão afetar o segundo semestre deste ano e até o próximo ano. Tudo tem de ser novamente planeado e organizado”, admite.

Gary Ng trabalha como freelancer no setor há exatamente um ano. Antes de entrar no mundo dos palcos trabalhava como apresentador de um programa da TDM mas, atualmente é ator. Ao longo dos últimos anos trabalhou como guionista, realizador e até professor. Em julho do ano passado, depois de terminar o mestrado em Artes Performativas em Taiwan, voltou a Macau, e em outubro participou como guionista e realizador na produção de “Teatro Café 22°N”. Apenas meio ano depois do regresso a Macau, começou a pandemia. 

“Claro que os freelancers também estão incluídos nos ´Planos do Fundo de Apoio ao Combate à Epidemia no Valor de 10 Mil Milhões de Patacas´, e também existe o programa ´Trabalho Sim, Caridade Não´ do Instituto Cultural de Macau que apoia trabalhadores da área do teatro. Porém até ao momento eu e alguns colegas apenas recorremos ao programa do Instituto Cultural e o rendimento não é muito alto”, esclarece.

Além de não possuírem nenhuma garantia de segurança, os trabalhadores do teatro fazem parte de uma indústria frequentemente esquecida por parte do Governo. 

Também não existe na lista de registo de contribuintes da Direção dos Serviços de Finanças trabalhadores com ocupação no teatro, nem atores. “Nem os registos bancários possuem esta indústria, mesmo numa compra básica de um seguro ou de um cartão de crédito, existe logo um obstáculo no preenchimento do formulário”, lembra Cita.

 Em vez de simplesmente pedir dinheiro ao Governo, Cita quer que o estado crie políticas que possibilitem que os freelancers possam depender de si próprios sem problemas.

Gary Ng partilha da mesma opinião. “Que legitimidade é que o Governo oferece a trabalhadores do teatro? Em termos de classificação ocupacional, nem sequer possuem uma posição, quanto mais os freelancers desta área, os quais, além de não receberem qualquer reconhecimento, possuem ainda menos políticas governamentais que os englobem. É um grande problema, especialmente quando esta é uma indústria com um papel tão relevante. Mas só podemos expressar-nos como ´performers´ ou ´criadores´”, assinala.

Gary Ng espera por isso que o Governo e os departamentos públicos culturais possam desenvolver mais políticas a longo prazo nesta área e até planear algumas medidas de contingência como preparação para o impacto da pandemia. 

“Sabemos que desastres naturais e uma pandemia nos podem deixar impotentes, todavia, esperamos que o Governo comunique mais com esta indústria, que compreenda melhor a nossa situação. Podem financiar primeiro projetos e atividades já aprovados, assim conseguem garantir que esses trabalhadores sobrevivem nestes tempos difíceis. Sabemos que todos somos responsáveis pela prevenção epidémica, mas também podemos ser mais flexíveis com algumas medidas”, concluiu.

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