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Estudar em tempos de pandemia

Especialistas de educação e medicina falam do impacto que o contexto de pandemia está a ter nas crianças e jovens. Pediatra desvaloriza impacto, terapeuta e professor dizem que é inegável o atraso no desenvolvimento nos alunos

Arrancou esta semana o ano letivo para a maioria das escolas. A Direção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) garante estar preparada se o vírus da Covid-19 voltar a criar alarme em Macau, como aconteceu no ano letivo passado. “Tendo em conta a incerteza da situação epidémica, em caso de eventual suspensão de aulas, a DSEJ elaborou um plano de aprendizagem em casa para os alunos”, adianta ao PLATAFORMA.

O organismo enfatiza que por agora foram criadas medidas de prevenção e que exige às escolas que as cumpram rigorosamente. Como exemplo, a direção refere que as instituições devem limpar e desinfetar os espaços, assegurar que se usa máscara, se apresenta a declaração de saúde, procede à medição de temperatura e se lavam as mãos. 

É exigido que haja horários diferenciados de entrada e saída dos alunos, e a lavagem de mãos em momentos diferentes e por filas. Também se deve manter, tanto quanto possível, uma distância adequada em relação aos outros e evitar grandes aglomerações, salienta o organismo. Antes, foi ainda recomendado que se fizessem simulacros para testar procedimentos.

Numa altura em que o foco ainda está no combate ao vírus, outros perigos inerentes à pandemia começam a ser avaliados como as consequências do isolamento e distanciamento sociais a que obrigou. O pediatra Vitorino Trovoada diz não ter notado implicações significativas e relativiza o abalo no desenvolvimento dos mais novos. “Estamos a falar de crianças. É nesta fase que se aprende melhor. Apesar de sujeitas a circunstâncias especiais, recuperam e adaptam-se facilmente”. 

A psicomotricista Margarida Galamba difere. “Houve um grande impacto nas competências sociais e académicas”, afirma, com base no grupo com quem trabalha no centro de apoio Rock, Paper, Scissors que tem por conta própria. “Os miúdos que pararam e retomaram agora é quase como se tivessem voltado à estaca zero”.

As implicações do ano atípico também foram sentidas pelo diretor da Escola Choi Nong Chi Tai. Vong Kuoc Ieng diz que o ensino à distância teve um impacto notório nos alunos. “Descobrimos que a miopia se agravou em muitos deles, que ganharam peso, sobretudo os mais novos. Em geral, perderam competências sociais. Estão mais mal comportados dada a ausência de vida social coletiva. O contexto de pandemia também lhes alterou o relógio biológico. Pareciam sempre mais cansados”, enumera. “É evidente que o ensino online não pode substituir o ensino tradicional. Só pode funcionar como complemento”.

Sustenta a convicção também nas disparidades que diz haver e que deixam muitos em desvantagem se a via for a aprendizagem com recurso à tecnologia. O professor aponta o caso dos que têm computadores e telemóveis mais antigos, e por isso incompatíveis com programas e aplicações recentes, e acrescenta o facto de o Youtube ser proibido na China continental, o que obrigou as escolas criarem materiais específicos que pudessem ser enviados pela aplicação WeChat aos alunos que residem do lado de lá da fronteira. Vong Kuoc Ieng fala ainda da facilidade em prevaricar por não estarem na sala de aula. Alguns, exemplifica, desligavam o Zoom depois do início da aula para voltarem a dormir. 

“Não é simples como parece, e facilmente conduz a problemas e dificuldades familiares”, alerta. Vong explica que muitos pais não têm capacidade para ajudar os filhos porque não sabem usar ferramentas indispensáveis ao e-learning. A experiência, sublinha, mostrou que antes dos alunos, deve haver formação para os encarregados de educação.

Ainda assim, admite ter dificuldade em posicionar-se. “Mesmo que haja uma plataforma de ensino online que agregue todas as partes, a maioria dos pais parece ignorar a importância de aprender, e são uma parte essencial na educação dos alunos. A maioria só usa o WeChat

O ensino online, acrescenta, também deixou mazelas nos professores pela exigência e trabalhos acrescidos. Além de se pensar que o isolamento nas escolas seria mais curto e de muitos terem dificuldades com o novo método, houve pais que exigiam uma dedicação quase total, o que levou a mais horas de trabalho. “Alguns enviavam mensagens à meia-noite, à espera uma resposta”, conta. “Não são apenas os alunos que estão ansiosos por voltar à escola, os professores também”, desabafa.

Grupos de risco

O vírus da Covid-19 fez com que Macau, à semelhança do resto do mundo, tomasse medidas drásticas com vista a evitar o contágio. As escolas foram encerradas, o distanciamento social recomendado e o ensino online passou a ser a prática até quase ao fim do ano letivo 2019/2020. Todos sentiram os efeitos do isolamento. Margarida Galamba chama a atenção para os alunos 3º ano do Jardim de Infância. “Nestas idades, há uma série de competências sociais que se desenvolvem, que os preparam para o 1º ano e que não tiveram, como as competências de jogar, de estar em grupo, de comer à mesa, de cumprirem regras. Se esta passagem já não é fácil num contexto normal porque vão lidar com meninos muito mais velhos, neste caso será ainda mais complicada. São miúdos que terão de batalhar mais”, antecipa.

Outros para quem prevê trabalhos redobrados são os do 1º ano do Ensino Básico, fase em que adquirem as bases da Matemática e da Leitura. “Depois há ainda a questão emocional. Uma criança que passa meses fechada em casa fica mais nervosa, ansiosa, irritadiça. Em vez de passar a maior parte do tempo com os outros, está sozinha, agarrada a um tablet. Claro que teve efeitos, estamos para ver quais quando voltarem à escola”.

Os Serviços de Educação e Juventude prometem atenção redobrada. “Tendo em conta que os alunos dos ensinos infantil e especial não retomaram as aulas na primeira metade do corrente ano, no novo ano, a DSEJ vai prestar especial atenção à adaptação destes alunos à aprendizagem e prestar o necessário apoio.”

Na Escola Choi Nong Chi Tai, entre outras medidas, vai haver aulas suplementares. “Se não o fizermos, vai haver consequências, especialmente tendo em conta que o ano passado foi menos exigente, sem chumbos no ensino primário”, diz o diretor. “Será um ano exigente por estarmos numa situação de pandemia, mas também ao nível da reconstrução do ambiente de sala de aula”.

Danos colaterais

A economia ressentiu-se grandemente com a Covid-19 e com ela tudo o resto. 

À semelhança dos alunos que acompanha, Margarida Galamba também sentiu na pele as consequências do vírus. Nunca encerrou o centro, mas foi difícil aguentar-se. Ficou reduzida a dez por cento das crianças e, apesar da recuperação a partir de maio, continua a metade do que é normal. Antes do Ano Novo Chinês, tinha 15, agora são sete. De fevereiro a maio, só três crianças mantiveram a terapia.

Para o novo ano letivo afasta cuidados extremos tendo em conta que a situação em Macau está controlada. A cidade está há mais de 70 dias consecutivos sem registar novos casos de Covid-19. “Claro que se tivermos muitos casos, todos teremos de rever as medidas, mas por agora não vejo necessidade”.

Apesar de não ser obrigatório o uso da máscara no centro – por ser um trabalho individual -, a terapeuta ressalva que há cuidados. “Sapatos sempre fora, desinfetam as mãos antes de entrarem, e se o meu cuidado com a limpeza já era muito, passou a ser extremo”.

O pediatra Vitorino Trovoada defende a prevenção. “Apesar de Macau estar limpo há semanas é importante que o rigor se mantenha para evitar que haja casos sob pena de todo o esforço ir por água abaixo. As medidas que o Governo tem tomado fazem sentido e é por isso que Macau tem tido sucesso no combate à pandemia”.

O médico lembra que a experiência mostra que as crianças são as menos suscetíveis, mas avisa o perigo que representam para terceiros: “Não vivem sozinhas e o problema são as pessoas com quem lidam, sobretudo os mais vulneráveis como idosos e pacientes de doenças crónicas. Apesar de resistentes ao vírus, podem se veículos de transmissão”. 

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