A moral religiosa é como os elevadores - Plataforma Media

A moral religiosa é como os elevadores

Duas notícias absolutamente diferentes entre si, ambas publicadas no Plataforma esta semana, fizeram-me pensar na profunda hipocrisia que está subjacente à prática religiosa, seja ela qual for. E em como o ser humano se diminui e apouca quando se torna fanático de um credo. Uma das notícias dizia respeito à economia do Dubai, um dos Emirados Árabes Unidos, a sofrer os efeitos da pandemia da Covid-19. Pois então o Dubai, cuja economia assenta nos pilares da construção e do turismo, decidiu aliviar as restrições de fundamento islâmico à posse e compra de álcool, tanto para os seus naturais e residentes como para os visitantes estrangeiros.

Ou seja, na sempre delicada balança dos valores, pesou mais alto o do dinheiro, que como todos sabemos é um deus muito caprichoso. A moral religiosa é como os elevadores: para cima ou para baixo consoante as conveniências.

A segunda notícia é uma história com ingredientes para ser transformada numa novela brasileira ou num seriado mexicano. No Brasil chama-se “Caso Flordelis” em alusão ao nome da deputada Flordelis, também cantora gospel e pastora evangélica, que preferiu matar o marido (alegadamente) do que divorciar-se dele. “Fazer o quê? Separar dele não posso porque iria escandalizar o nome de Deus”, escreveu Flordelis numa mensagem de telemóvel a um dos filhos, como justificação para a decisão de matar o marido, segundo conversas a que a polícia teve acesso na investigação. 

Acreditar que este apelo será respeitado seria acreditar numa Humanidade evoluída, justa, civilizada. Pois, e também no Pai Natal

O fanatismo e obscurantismo com que são vividas as religiões mais praticadas no mundo transforma qualquer deus numa personagem de moral duvidosa e, no mínimo, estranha. O Corão realmente desaconselha o vinho e os jogos de azar e considera até a bebida alcóolica como a mãe de todas as maldades (a Bíblia, também). Mas curiosamente não consta que no livro sagrado dos islâmicos ou no dos cristãos venha uma cláusula com a exceção: atenção que que já não é assim tão mau beber álcool se o crente estiver a ajudar a economia nacional.

Relativamente ao divórcio, a Bíblia não é fanática, mas sim a interpretação que dela se faz. “Mas, se o descrente se apartar, aparte-se; porque neste caso o irmão, ou irmã, não esta sujeito à servidão; mas Deus chamou-nos para a paz.” (I Coríntios 7 : 15).

Já sobre o crime de homicídio, o livro sagrado não permite quaisquer interpretações convenientes. O mandamento é claro: “Não matarás”.

A mãe de todos os males é, portanto, a interpretação que se faz da religião. E porque ela é interpretada por homens e mulheres corruptos e vulneráveis, são praticadas as maiores barbaridades em seu nome.

Vale a pena lembrar as palavras sensatas do Papa Francisco, numa declaração publicada a 22 de agosto nas redes sociais: “Deus não precisa que ninguém o defenda”. E acrescentou um apelo: “Peço a todos que parem de instrumentalizar as religiões para incitar ao ódio, à violência, ao extremismo e ao fanatismo cego”.

Acreditar que este apelo será respeitado seria acreditar numa Humanidade evoluída, justa, civilizada. Pois, e também no Pai Natal.

*Jornalista

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