Violência no namoro preocupa em Cabo Verde

por Filipa Rodrigues
Ricardino Pedro

A socióloga cabo-verdiana Miriam Medina considera que a violência no namoro em Cabo Verde é um fenómeno “muito preocupante” e com “requinte de crueldade”, propondo uma aposta na educação e em leis mais duras.

“A violência no namoro em Cabo Verde é muito preocupante, porque é uma violência com certo requinte de crueldade porque não estamos a falar de uma agressão com uma bofetada ou de um empurrão tão-somente. Estamos a falar de um namorado que agride sexualmente a namorada, que viola a namorada com uma garrafa, com uma chave de fendas”, descreveu Miriam Medina, que esta semana lançou o livro “Se causa Dor não é Amor”, onde várias jovens relatam, na primeira pessoa, histórias de violência sofrida na relação amorosa.

Para a autora, a violência é recorrente em vários casos, e por parte do namorado, a pessoa que deveria dar amor e proteção. “Ele acha que tem esse direito, usa da crueldade para conseguir o que quer”, prosseguiu Miriam Medina.

Segundo a socióloga, esses jovens com idades compreendidas entre os 13 e os 18 anos estão com um nível de carência afetiva muito grande por parte dos próprios pais, na família.

“Há uma menina que disse que prefere ficar num relacionamento abusivo que, de vez em quando, tem atenção do namorado, do que na família porque não tem atenção por parte dos pais. Estão a suprir essa carência afetiva familiar num relacionamento ainda que abusivo”, disse.

Neste sentido, a autora defendeu que tudo deve começar na família, educando os jovens e ter uma relação de confiança com os filhos. “Os nossos jovens estão a sofrer calados e tudo começa na educação”, considerou a autora.

Para Miriam Medina, deve-se educar as meninas para não aceitarem “de jeito nenhum” a violência e a agressão como forma de mostrar amor e também educar os rapazes e os meninos para respeitarem as namoradas e saberem os limites.

“Há que ter um casamento entre a sociedade, a escola e a família”, disse a socióloga, para quem, se antes se falava mais em violência baseada no género, entre adultos, agora está acontecer também entre adolescentes e deve ser uma preocupação de todos.

Além da educação, Miriam Medina considerou importante que as leis sejam mais duras e funcionem, para que as vítimas se sintam protegidas e os agressores com medo, porque vão responder perante os tribunais.

“E essas meninas sentem-se desprotegidas e por isso têm medo de fazer queixa”, lamentou a autora, para quem é preciso muito mais, caso contrário não tem dúvida de que o cenário vai piorar e o feminicídio vai aumentar em Cabo Verde.

O livro foi lançado precisamente na semana em que um homem de 23 anos assassinou à facada uma jovem no concelho de Santa Cruz, ilha de Santiago, num caso que gerou muita indignação na sociedade cabo-verdiana.

Quando foi estudante no Brasil, Miriam Medina recordou que fez um trabalho sobre este tema, mas que a ideia para o livro surgiu há dois anos quando recebeu uma mensagem de uma amiga que mora em Portugal e que tinha sofrido violência no namoro.

Depois de conseguir orientar a amiga, decidiu saber como anda a vida amorosa dos jovens cabo-verdianos, deu palestras em várias escolas secundárias e começou a recolher os depoimentos nas ilhas da Boa Vista, Sal, Santo Antão, São Vicente e Santiago.

E para um livro “compacto e de leitura fácil”, disse que nem todos os relatos estão na obra, para que o leitor possa reter o mais fiel possível os testemunhos “de forma a chocar mesmo”.

Uma em cada quatro africanas considera a violência conjugal justificável, segundo dados de um estudo do Afrobarómetro realizado em 34 países, incluindo Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Apesar de a maioria (71 por cento) dos inquiridos no estudo considerarem que a violência conjugal “nunca é justificável”, 28 por cento sustentam que bater na mulher é “sempre” ou pelo menos “algumas vezes” justificado, incluindo 24 por cento de mulheres e 31 por cento de homens, adianta o estudo.

Os três países lusófonos situam-se todos abaixo da média dos 28 por cento de africanos que consideram a violência conjugal justificada, com Cabo Verde a registar a melhor percentagem com apenas 3 por cento de inquiridos a encontrarem alguma justificação para a violência sobre mulheres. Em São Tomé e Príncipe esta percentagem é de 15 por cento e em Moçambique 21 por cento.

A aceitação da violência sobre mulheres é particularmente generalizada na África Central e Ocidental e entre os inquiridos que não frequentaram sistemas de educação formais (41 por cento).

Depois da Praia, Miriam Medina disse à Lusa que já tem propostas para o lançamento do livro em todas as escolas do país, bem como no Brasil, não fosse a violência um “problema transversal”.

“É passar a mensagem. E gostaria que cada pessoa que lesse o livro fosse uma voz, que comece dentro da família, na educação dos filhos e dos educandos, para erradicar esse flagelo da nossa sociedade”, apelou a socióloga, que recorda as “histórias fortes” e se emociona ao falar do tema.

Para terminar, Miriam Medina pediu aos jovens para viveram um relacionamento saudável, que o amor seja leve. “O amor não é agressivo, não machuca. Aquilo que causa dor nunca pode ser amor”.

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