A eterna valsa de Beirute - Plataforma Media

A eterna valsa de Beirute

As imagens das explosões no porto de Beirute esta semana remeteram-me imediatamente para um filme israelita de animação autobiográfico que é praticamente um documentário: “A Valsa com Bashir” (2008), de Ari Folman.

O mecanismo do cérebro ir buscar a uma gaveta factos aparentemente não relacionados entre si é fascinante. Pois que ligação pode haver entre o nitrato de amónio mal acondicionado num porto da capital libanesa e os massacres nos campos palestinianos de Sabra e Chatila, na periferia sul de Beirute, em 1982, lembrados pelo filme? Aparentemente, nenhuma.

Apenas esta: a de Beirute, antiga Paris do Médio Oriente, como cidade mártir. No filme, há algumas imagens inesquecíveis como a chegada dos soldados israelitas pela frente marítima da capital do Líbano e a bela canção dos Orchestral Manoeuvres in the Dark (OMD) “Enola Gay” ao som da qual os militares de Israel dançam num navio.

Para completar o que parece a descrição de um sonho, ou pesadelo, resta lembrar que “Enola Gay” era o nome do bombardeiro norte-americano que lançou a bomba atómica sobre os céus de Hiroshima,, no Japão, em 6 de agosto de 1945. O aniversário dos 75 anos do horror de Hiroshima foi na quinta-feira. A explosão em forma de cogumelo atómico sobre os céus de Beirute fora apenas dois antes, na terça-feira.

Apesar de a explosão das toneladas de nitrato de amónio se dever à incúria criminosa das autoridades civis e portuárias libanesas, e não haver aqui um ato de guerra ou de terrorismo, não deixa de ser uma estranha coincidência a proximidade das datas.

Como lembrou na quinta-feira o editorial do jornal brasileiro “O Estadão”, a negligência das autoridades libanesas fez o que nem a guerra civil do Líbano conseguiu em 15 anos (1975-1990): destruir metade de Beirute, uma das mais belas capitais do Médio Oriente, em segundos.

Mas voltemos ao filme. Espécie de “Apocalypse Now” israelita, expiação psicológica de um genocídio, o autobiográfico “A Valsa com Bashir” foi censurado no Líbano mas correu mundo e ganhou prémios, nomeadamente o Globo de Ouro para Melhor Filme Estrangeiro. Lembra-nos esta animação o que Beirute era, o que jamais poderá voltar a ser e o que podia ter sido.

A expiação sobre o que aconteceu no porto da capital tem de ser feita pelos próprios libaneses. Há uma guerra nova e muito séria a travar em Beirute. Desta vez, o inimigo não vem fardado nem do país fronteiriço. Vem de dentro, de um regime desgastado e corrupto.

Este artigo está disponível em: English

Assine nossa Newsletter