No lugar do outro - Plataforma Media

No lugar do outro

Chama-se Ameer e é afegão. Pauta a sua vida pelo compromisso de garantir uma vida melhor para as suas duas filhas. Compromisso, digo eu, assumido por quem tem descendência. “A tua será melhor do que a minha” é transversal a etnias, tribos, países, continentes, hemisférios. Todos os pais querem e fazem tudo para que os filhos tenham uma vida melhor.

Para Ameer essa missão mostrou-se ainda mais complicada do que para quem vive do lado certo do mundo. Vive num país que respira guerra e pobreza a cada esquina. Solução: Partir. Arranjar dinheiro para pagar a traficantes de pessoas que o metam, a ele e à família, num barco rumo à Austrália. Perder metade da família pelo caminho e acabar com uma filha de 12 anos num centro de detenção de refugiados em solo australiano. Não lhe basta ser honesto. Tem de o provar. Uma vez e outra. O que importa? O ‘papel’ que permita à filha estudar, crescer com o sonho possível de ser quem ela quiser.

Chama-se Ameer e é um dos personagens de uma minissérie (Stateless) acabada de estrear na plataforma Netflix.

Ameer (magistralmente representado pelo ator Fayssal Bazzi) é o rosto da maioria dos 70 milhões de deslocados que buscam refúgio contra guerras e lutam com ações judiciais em centros de detenção de todo o mundo.

Quantos de nós seriam capazes e sobreviver à violência, maioritariamente psicológica. de um centro de detenção de refugiados ? Arrisco a dizer: poucos.

Quando as agências internacionais ou ONG’s nos informam que há milhões (e são cada vez mais) de pessoas deslocadas, refugiadas, tentem lembrar-se que todas elas têm um nome, uma história. É, talvez por isso, que esta pequena minissérie impressiona e nos leva a questionar: um dia poderei ser eu…

Que mais não seja, valha-nos a ficção para nos obrigar a metermo-nos no lugar do outro.

*Editora da edição portuguesa do Plataforma

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