Saúde mental em situação de emergência - Análise a partir do caso de Santo Tirso - Plataforma Media

Saúde mental em situação de emergência – Análise a partir do caso de Santo Tirso

O dia 18 de julho de 2020 ficou marcado pelos piores motivos. Em Santo Tirso, sob a ineficiência das autoridades responsáveis, mais de uma centena de animais de companhia morreram queimados, e outros tantos ficaram feridos, em consequência do fogo que consumiu grande parte de dois abrigos ilegais existentes na serra da Agrela. Este trágico acontecimento teve impacto em muitas pessoas. A consciência da injustiça, a falta de respostas de quem representa as autoridades e a frustração do bloqueio das motivações de fazer o bem, transformaram este acontecimento numa vivência psicologicamente traumática. Quem acompanhou este cenário durante horas a fio, com todo o cansaço e sentimento de impotência associados, foi também vítima deste acontecimento, a par de todos os animais que padeceram, fruto de um conjunto de decisões erradas, desde políticas às técnicas. Passados 13 dias deste fatídico fim-de-semana, percebem-se os seus efeitos na vida das pessoas: os “flashes” persistentes dos animais em perigo, a mistura de cheiros e sensações, a incapacidade de concentração, a dificuldade em dormir e a sobrecarga emocional que estas vivências acarretam.

Este, como outros incidentes traumáticos que possam acontecer, com maior ou menor abrangência coletiva, relembram a urgência dos cuidados de saúde emocionais e psicológicos que têm que ser prestados às vítimas humanas também. Acontecimentos como este, como os incêndios que têm consequências mais graves, seja na perda de vidas humanas, animais ou do património natural ou cultural, seja a presença em situações de elevada violência, catástrofes naturais ou acidentes, têm que ser acompanhados das adequadas respostas em saúde mental de emergência. 

É fundamental reforçar as respostas de prevenção e atuação em emergência psicológica, implementando uma rede estruturada de resposta entre hospitais e INEM

Sabe-se que, em situação de crise, quanto mais atempada e precoce for a intervenção psicossocial, potencialmente menor será o impacto em saúde mental e melhor será a capacidade de adaptação e retorno à funcionalidade por parte das pessoas. Sabe-se que a ausência de respostas adequadas e céleres de emergência em saúde mental acarretarão maior dano psicológico, maior sofrimento emocional e risco agravado de perturbação emocional. Tudo isto com custos em saúde, produtividade laboral e relações sociais. 

Também a crise sanitária, com consequências associadas a maiores perdas económicas, desemprego, instabilidade e insegurança têm trazido sofrimento emocional e psicológico. A presidente da Sociedade de Psiquiatria e Saúde Mental alertou para o aumento de situações de Perturbação de Stress Pós-Traumático, ansiedade, depressão e outros problemas em saúde mental decorrentes desta crise que não podemos ignorar. No entanto, há uma enorme escassez de recursos humanos e estruturais nesta área. 

É fundamental reforçar as respostas de prevenção e atuação em emergência psicológica, implementando uma rede estruturada de resposta entre hospitais e INEM, sendo para tal necessário a integração de 60 profissionais de saúde mental com formação em emergência psicológica afetas a unidades móveis e hospitalares em todo o território nacional. Com a atual falta de meios, não é ainda possível assegurar 24 horas de funcionamento em todas as Unidades Móveis de Intervenção Psicológica de Emergência, tendo esta realidade particular impacto nas regiões do interior do país. 

Temos que garantir as respostas de emergência em saúde mental a nível nacional para que, qualquer que seja o incidente crítico e potencialmente traumático, qualquer pessoa possa ter de forma rápida e profissional, os melhores cuidados e socorros psicológicos e emocionais. Atuar com brevidade, de forma especializada, põe em prática aquele que deve ser um dos pilares das políticas públicas em saúde: a prevenção. As políticas públicas de saúde mental devem ser prioritárias. Com elas conseguir-se-á diminuir custos de médio e longo prazo e promover a saúde mental, fundamental para o bem-estar e a felicidade do indivíduo e da sociedade.

*Deputada do partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN) – Portugal

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