Alô, Marte? Macau à escuta

Alô, Marte? Macau à escuta

O progresso da primeira missão chinesa a Marte, lançada na semana passada está a ser acompanhado a par e passo por um grupo de investigadores da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST, acrónimo em língua inglesa). Entre eles está André Antunes, um astro biólogo português que tem por missão descobrir indícios de vida nos locais mais improváveis.

O que poderão ter em comum as salinas de Pedra de Lume, situadas na cratera de um vulcão cabo-verdiano, e a ainda amplamente obscura superfície de Marte? A existir – ou a ter existido – vida no planeta vermelho, o mais provável é que seja semelhante à que é possível encontrar em ambientes análogos, com condições extremas, como as que existem nos espelhos de água salgada que dão o nome à ilha do Sal.

Em Macau há quase um ano, o astro biólogo André Antunes assumiu a missão de descobrir e estudar as formas e indícios de vida que se encontram em ecossistemas improváveis, onde, à partida, a própria subsistência de vida se afiguraria inviável. O objetivo? Perceber até que ponto a hostil realidade de Marte pode ou não comportar vida.

 “Do ponto de vista das condições ambientais, dos extremos que se estudam, os mais relevantes, são ambientes com salinidade elevada”, ilustra o investigador português, contratado pela MUST para instituir uma unidade de astrobiologia que vai operar na dependência do Laboratório de Referência de Estado para a Ciência Lunar e Planetária. 

“A questão da salinidade tem a ver com a natureza dos recursos hídricos que eventualmente existam em Marte. A expetativa é que, a existir em Marte, a água tenha uma concentração de sal muito elevada e, por isso, para que nós possamos compreender um bocadinho melhor os limites da vida e as adaptações da vida, temos de estudar ambientes que têm uma grande quantidade de sal”, complementa Antunes, em declarações ao PLATAFORMA.

Zhang Xiaoping, Yi Xu e Xiao Jing têm em mãos o desígnio de estudar aspetos como a radiação, as condições atmosféricas e a geomorfologia da superfície do planeta vermelho

A descoberta de água – à superfície ou no subsolo marciano – é um dos principais objetivos que norteiam a primeira missão chinesa a Marte. Lançada no final da semana passada a partir da ilha de Hainão, a sonda “Tianwen-1” reveste-se de uma importância incontornável para o programa espacial da República Popular da China e vai ser acompanhada com particular atenção por mais de uma dezena de especialistas do Laboratório de Referência do Estado para a Ciência Lunar e Planetária.

Investigadores como Zhang Xiaoping, Yi Xu e Xiao Jing têm em mãos o desígnio de estudar aspetos como a radiação, as condições atmosféricas e a geomorfologia da superfície do planeta vermelho, mas para que tal aconteça, o mais importante mesmo é garantir que a “Tianwen-1” chegue a bom porto: “A meu ver, o aspeto mais importante é o de garantir que a sonda pousa em Marte em segurança. Neste momento, isso é o mais importante para nós”.

“Depois de pousar em segurança, vamos poder recolher dados sobre as condições da atmosfera marciana, relativos ao vento e à turbulência a baixa altitude, sobretudo no que diz respeito a tempestades de areia”, explica Xiao Jing, especialista em climatologia espacial que chamou a si a responsabilidade de identificar a latitude da superfície de Marte que oferece maiores garantias de sucesso. 

“A área para a aterragem é, em grande medida determinada pela Administração Espacial Nacional da China, mas há várias áreas pré-selecionadas. Entre elas, recomendámos uma – na ‘Utopia Planitia’ – onde as tempestades de areia são menos frequentes. Este tipo de tempestades podem modificar significativamente as condições atmosféricas e envolver em incerteza tanto o processo de entrada na atmosfera, como o processo de pouso propriamente dito. Na eventualidade de uma grande tempestade de areia, a radiação é bloqueada quase por completo e a sonda pode deixar de receber a energia do Sol. É essencial evitar uma destas tempestades”, alerta a investigadora.

Marte é um gigantesco cemitério de ambições espaciais fracassadas. Pousar no planeta vermelho é particularmente difícil e, em 60 anos, de missões a Marte só os Estados Unidos da América conseguiram colocar – por oito ocasiões – veículos de exploração na superfície marciana. 

O astro biólogo André Antunes assumiu a missão de descobrir e estudar as formas e indícios de vida que se encontram em ecossistemas improváveis

Yi Xu, investigadora da MUST doutorada em engenharia e especializada na geomorfologia marciana, tem bem noção das dificuldades que a primeira missão chinesa a Marte tem pela frente: “É muito difícil determinar um local para pousar porque, como disse a minha colega, é muito importante poder adquirir dados sobre as condições atmosféricas. Mas também é necessário considerar a irregularidade da superfície”, sustenta a académica. 

“Se o solo for muito acidentado ou se o local onde a sonda pousar tiver um declive muito grande, a aterragem não será bem-sucedida. Vai falhar, como falharam outras missões no passado. Mas também é necessário ter em conta as temperaturas. Quanto mais próximo for do Equador, melhor, porque dessa forma a sonda vai receber mais luz solar e não corre o risco de ficar sem a fonte de alimentação”, explica ainda.

Não bastassem as incertezas e as condições agressivas da superfície de Marte, o processo de entrada da sonda na atmosfera do planeta decorre quase inteiramente “às cegas”, como lembra Xiao Jing: “Para os processos de entrada na atmosfera e de pouso são necessários entre sete a oito minutos, mas para que as transmissões enviadas pela sonda cheguem à Terra são necessários dez minutos”, adianta a investigadora. “Não teremos tempo para trocar informação entre o módulo e a estação de controlo, na Terra. O processo vai decorrer totalmente de forma automatizada”, reconhece Xiao, em declarações ao PLATAFORMA.

Caso a sonda consiga pousar em segurança na superfície de Marte, abrem-se as portas à ciência pura e dura e a um sem fim de possibilidades científicas. A missão chinesa vai, desde logo, tentar confirmar as observações feitas pela iniciativa europeia Mars Express: “O radar a bordo da Mars Express descobriu água líquida debaixo da superfície e os investigadores europeus estão interessados em perceber se o radar da missão chinesa também consegue localizar este fenómeno em Marte, em locais diferentes”, adianta Yi Xu.

Mas as implicações de uma missão bem-sucedida a Marte não se devem ficar por aí. Ainda que o objetivo primordial da “Tianwen-1” não seja a descoberta de indícios de vida no planeta vermelho, para André Antunes os dados científicos que a iniciativa chinesa poderá eventualmente recolher deverão ter uma importância fulcral para futuras missões. 

“É uma missão importantíssima do ponto de vista de entendermos melhor aquilo que se passa, quer a nível de superfície, quer a nível de subsolo marciano, a nível da atmosfera e a nível de reservas que haja de gelo ou de água. Tudo isto são aspetos que são importantes, que são relevantes para a existência de vida, como nós a conhecemos”, remata o astro biólogo português.

Rede lusófona de microbiologia na forja 

O departamento de Astrobiologia da MUST tem menos de um ano, mas os projetos em que está envolvido prometem levar longe o nome da instituição de ensino superior e da Região Administrativa Especial chinesa.

Além de missões de campo em salinas de Portugal, da República Popular da China, de Cabo Verde e de Espanha, a unidade de investigação dirigida por André Antunes quer ainda enviar micróbios para o espaço, quer através da participação “em missões de satélites de várias agências internacionais”, quer através da condução de estudos na Estação Espacial Internacional.

A MUST, explica o investigador português, tem vindo ainda a assumir um papel de relevo na criação de uma rede de troca de experiências e de conhecimentos com instituições lusófonas espalhadas pelo mundo. 

“Estamos envolvidos na criação de uma rede lusófona ligada à microbiologia, que acho que é bastante importante. É algo que é considerado, inclusivamente, como uma grande prioridade de Macau, uma grande vocação de Macau, a ligação às áreas lusófonas do mundo. Este é um aspeto que, a meu ver, é muito importante”, defendeu o cientista conimbricense em declarações ao semanário “O Clarim”.

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