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Pensar por nós próprios é complicado

Portugal é um país pequeno. Grande come pequeno. Pequeno ajuda o grande a tornar-se enorme, enquanto o pequeno fica cada vez mais pequeno. Todos sabíamos que a 2ª Guerra Fria iria afetar profundamente o mundo.

A nova “cortina de ferro” que se começa a delinear destrói, na sua, essência, o conceito de globalização desenvolvido aos longo das últimas décadas. A luta entre China e EUA por uma “vitória” económica traz um crescimento agressivo, exacerbado e despreocupado, que sem dúvida ameaçará o cumprimento da Agenda 2030 da ONU para o Desenvolvimento Sustentável. Para quem teve a oportunidade de estudar a 1ª Guerra Fria, compreende que a História se faz em ciclos viciosos e dificilmente se foge ao passado.

Porém, estas consequências são apenas uma parte do impacto do “braço de ferro” entre as duas potências. É a ponta do icebergue. A “crise Huawei” veio dar respostas a algumas das sequelas que o fenómeno já produziu e irá produzir no futuro.

Portugal é um país pequeno e, tal como todos os outros, tem algo a dizer sobre o que se passa no mundo. Não há dúvida alguma que países como este têm de se aliar a uma das potências se querem sobreviver comercialmente e, consequentemente, manter a economia ativa (já que também não estamos em tempos fáceis). Ou esquerda ou direita, ir para a frente não é opção. Linha reta significa sanções e perda de apoios de ambos os lados. Haverá alguém tão radical ou original e que esteja disposto a correr tais riscos?

A Huawei é atacada por todos os lados. Pelo ocidente, e por um ou outro no oriente. EUA foram os primeiros a banir a empresa, seguidos da Austrália e Reino Unido, que também têm medo das repercussões comerciais e diplomáticas dos “amigos” norte-americanos. Portugal também para lá caminha. Se calhar, optando por uma solução mais pacífica…

A Oxford Economics divulgou um estudo sobre o impacto económico que as restrições à gigante chinesa podem ter em Portugal. Primeiro que tudo, estima-se que a construção da rede 5G possa custar mais 63 milhões de euros anuais (mais 19% do total dos custos), sem a parceira chinesa. “Devido ao aumento dos preços, um milhão de pessoas ( cerca de 10% da população) que teriam de outra forma acesso à rede 5G [quinta geração móvel] poderão ficar sem acesso”, adianta.

No contexto de recessão e subsequente recuperação económica devido à pandemia, “um mercado de infraestruturas 5G competitivo ajudaria a maximizar os ganhos da inovação tecnológica e do crescimento em Portugal”, prossegue o estudo, apontando que os serviços da nova tecnologia e atividades associadas “irão estimular a atividade económica em 3,7 mil milhões de euros no PIB e apoiar cerca de 127.300 empregos em Portugal”.

“Estimamos que isso poderá reduzir o PIB em 2035 para 500 milhões de euros”. Pode ser tão significativo na nossa economia, que nos próximos 15 anos o PIB possa descer “entre 100 milhões de euros a 1,1 mil milhões de euros”.

No contexto europeu, um total de 31 países europeus foram analisados. O estudo aponta que restrições à Huawei poderão representar um aumento de custos na ordem dos 1.400 a 4.500 milhões de euros. No caso da União Europeia, os custos poderão subir entre 1.168 milhões de euros e 3.564 milhões de euros.

Os EUA acusam a empresa de tecnologia chinesa de espionagem, da qual esta última refuta as alegações.

É impossível determinar a veracidade de ambas as versões. Mas é possível compreender a influência e a pressão que começam a ser impostas aos seus aliados, que à primeira vista, nada têm a ganhar com este confronto, senão perda de autonomia e recessão económica agravada.

*Jornalista do PLATAFORMA

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