Naturalmente que sim - Plataforma Media

Naturalmente que sim

“Sou pai porque não tenho útero. Se tivesse seria mãe. Simples assim”.

“Homem é homem, mulher é mulher, é bênção, e quem deseja ser diferente, seja feliz, mas não seja o que vc não é.”

“Acho que a Natura vai comprar uma briga feia com os Conservadores!!! Por que querem que o errado seja certo e o certo seja errado?? Eu já não consumo mesmo os produtos, agora mesmo q não vou!!”

“É sério isso? Se for, boicote na natura!! Vamos nos unir pela moralização e pelo respeito às famílias!!”

“Meu pai criou 10 filhos, isso mesmo, 10, e agora vem essa empresa homenagear o dia dos pais com Thammy Miranda, ah tudo tem um limite. O esperma era dela?? Acabou, virou palhaçada!”

“Ser pai, é dádiva de Deus destinada aos HOMENS!”

O que está escrito acima pode ser lido no twitter, agregado por uma das hashtags que mais rapidamente cresceu durante esta segunda-feira (27/07) na rede social no Brasil: #naturanao.

A maior multinacional brasileira de cosméticos Natura lançou a campanha para o Dia dos Pais deste ano, #meupaipresente, e um dos protagonistas é Thammy Miranda. O ator já foi cantor, bailarino e mulher. Em 2006 assumiu-se como lésbica e em 2014 começou a fazer terapia hormonal para fazer a transição de género. Concretizado o processo, em 2017, Thammy Cristina Brito de Miranda Silva deixou cair o segundo nome e passou a assinar Thammy Brito de Miranda Silva. É um homem transexual. EM 2018 foi indicado pela revista ISTO É Gente ao prémio de “Homem Mais Sexy do Ano”.

Depois de quase cinco anos de namoro, Thammy Miranda casou, em 2018, com a modelo Andressa Ferreira. Em janeiro deste ano nasceu Bento, fruto de fertilização in vitro.

A recente fúria bacoca que se acendeu no twitter não é a primeira que a Natura encara e o motivo é repetido: preconceito. Em 2019 a marca lançou a “Coleção do Amor” e nela apareciam três casais a beijarem-se, três casais LGBTQ+. “Que nossa maquiagem só borre por causa de beijos cheios de AMOR!” foi o mote.

Agora a fogueira das redes sociais arde novamente com força dirigida à empresa, alimentada pelo preconceito, pela transfobia, pela falta de empatia, pela mesquinhez, pela estupidez, pela incapacidade de compreender o Mundo em que vivemos.

Em menos de 24 horas, em torno do #naturanao contavam-se já muito perto de 25 mil tweets. Apesar de alguns serem de quem usou a ashtag para defender a ação e o actor, a esmagadora maioria é de quem realmente acredita e defende que Thammy não deveria ser um dos “garotos propaganda” de uma campanha do Dia dos Pais por ser um homem trans e entre esses há três características que saltam à vista, e são totalmente previsíveis: bandeira do Brasil no nome de perfil, o número 38, escolhido por Jair Bolsonaro para o partido que continua a tentar legalizar sem sucesso até ao momento para se apresentar às eleições de 2022, e inúmeras vezes a referência à religião, a Deus.

O último Censo Escolar realizado no Brasil, divulgado em 2013, revelou que 5,5 milhões de crianças não têm o nome do pai na certidão de nascimento. Mas isso pouco importa, não importa mesmo nada, a estes orgulhosos “Conservadores” de “C” grande, como escreveu aquele utilizador do twitter autor de uma das frases lá no início do texto. Eles, que partilham essa tríade religião – apropriação de símbolo nacional – apoio a Bolsonaro, que quase sempre ignoram as leis da Natureza agora agarram-se à Biologia, ao homem que um dia foi mulher e por isso, pela natureza, não poderá ser pai, antes apenas mãe. Ou nem isso, aos olhos deles. Eles, ignorantes, ignoram o Amor.

À paternidade e maternidade, felizmente fruto também da minha experiência pessoal, sempre associei altruísmo. E Amor. O Amor. Incondicional.

“As melhores lembranças q meu filho vai ter de mim, sem dúvidas, serão das coisas boas q vivemos juntos, seja brincando, sendo amigo, educando… É essa energia de presença, sendo companheiro, que vou continuar tendo com ele. Estar presente é o melhor presente!”

O que Thammy Miranda escreveu é o que os pais e mães fazem, estão lá, sempre, independentemente da Biologia, da Física ou da Geografia. E é genial que a Natura, no Brasil que tem aqueles números divulgados há sete anos, de cinco milhões e meio de crianças que cresceram sem o nome do pai na certidão de nascimento, onde tantas mães são pais também, onde tantas avós são pais, onde tantas tias são pais, quase sempre porque os outros pais, os biológicos, aqueles que respeitam muito a família, os “homens de bem”, não estiveram nem aí para os filhos e desapareceram, ou não desapareceram e pura e simplesmente têm outros afazeres, outras prioridades, é genial dizia, que o slogan da campanha do Dia dos Pais seja #meupaipresente. Num país de tantos pais ausentes, a celebração também pode assumir o tom de recado, é uma pena que seja totalmente incompreendido por uma boa parte da população a quem, muito provavelmente, se dirige.

No dicionário do Mundo deveria estar, aliás, como significado único de Pai uma palavra: Amor. Como resposta ao preconceito revelado por mais este episódio a resposta de Thammy Miranda parece-me perfeita:

“As pessoas, quando criticam, falam mais sobre elas do que sobre mim. Todas as críticas que eu recebi são uma forma de as pessoas exporem suas próprias frustrações. Só posso dizer que lamento não poder ser pai do filho de todos eles, porque eles teriam o melhor pai do mundo. Acredito que a minha luta é muito grande e que a minha missão é quebrar barreiras e provar que o amor sempre vai vencer”.

*Jornalista

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