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Por que não quer Portugal mais alunos estrangeiros?

A afirmação da qualidade do ensino superior português é uma ferramenta de promoção além-fronteiras que tem angariado uma importante fatia de investimento estrangeiro em Portugal, apesar das muitas limitações impostas ao número de vagas para estudantes estrangeiros, principalmente, nas universidades privadas.

Na área da saúde, são muitos os exemplos bem-sucedidos de instituições credenciadas para formar os futuros profissionais de outros países, embora o modelo se mantenha limitativo quanto ao crescimento e conservador quanto à captação. Olhando para o futuro pós-pandemia e para a incontornável crise que afecta as instituições de ensino superior, onde os estudantes de outros países asseguram receitas na ordem dos 20 milhões de euros, é questionável que a fixação de vagas em função dos critérios legais definidos não seja passível de revisão.

Quando há cinco anos a GEDS começou a colaborar com universidades portuguesas, fornecendo-lhes um contingente de estudantes de França e de outros países francófonos, era óbvio que, ou as universidades encontraram uma fonte de estudantes para compensar o défice demográfico ou seriam forçados a encerrar alguns cursos.

Num período muito curto, a internacionalização das universidades e politécnicos parceiros foi multiplicada. Todos os anos, a GEDS fornece agora cerca de 500 novos estudantes devidamente seleccionados por estas escolas de ensino superior. Sendo que cada estudante terá de investir até 100 mil euros em Portugal para financiar os seus estudos, alojamento e despesas diárias durante o curso, que economia recusa receber um aluno sem aspirações de trabalho em Portugal?

Para além de reactivar a economia local, a presença crescente de estudantes estrangeiros permite às universidades privadas projectar desenvolvimento, criação de emprego, infra-estruturas, investimento que gera investimento numa economia que carece de ser retomada em força localmente. Com o aumento da procura nas universidades privadas, o ensino superior público assiste a uma quebra de inscrições de estudantes estrangeiros, sublinhando um condicionamento apenas decorrente do modelo económico.

Este ano, mais de 5.500 estudantes franceses candidataram-se a estudar nas universidades parceiras da GEDS em Portugal. Apenas algumas centenas de lugares lhes são oferecidos. Estas quotas, que são estritamente regulamentadas pela DGES, satisfazem critérios que precisam de ser estudados em profundidade, possivelmente separando o número de lugares para estrangeiros (membros da UE) do número de lugares para portugueses. A divisão entre universidades privadas e públicas já não é relevante na Europa e no mundo de hoje. As universidades privadas devem ser capazes de se desenvolver tendo presentes dois critérios fundamentais para um crescimento bem gerido: manter a qualidade do ensino e a coerência do seu modelo económico.

A experiência mostra que só o desenvolvimento internacional pode garantir que estes dois critérios sejam mantidos. Se os estudantes aspiram cada vez mais a estudar em Portugal, é porque sabem que a selecção garante a qualidade dos seus estudos. Não são adiados pela dificuldade do procedimento, uma vez que lhes seria muito fácil ir para outros países europeus onde a selecção é menos exigente.

*Conselheiro Académico, Cirurgião Dentista, antigo Professor de Cirurgia Dentária na Universidade Paris V-Diderot

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