Há tiros na água que fazem muito barulho - Plataforma Media

Há tiros na água que fazem muito barulho

No dia em que apresentou a demissão, na comunicação que fez ao país, Sérgio Moro acusou o Presidente Jair Bolsonaro de interferência na Polícia Federal (PF). Alguns dias mais tarde, ao ser ouvido pela Polícia Federal, Moro consubstanciou que prova cabal dessa interferência estaria no vídeo da reunião do governo do dia 22 de Abril, dois dias antes da demissão. O vídeo foi tornado público por decisão do juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello e nele o Brasil pôde assistir ao Presidente dizer que quer “todo o mundo armado”, que os ministros que fossem elogiados pela Folha de S. Paulo seriam demitidos, chamar “bosta” ao governador de São Paulo e “estrume” ao do Rio de Janeiro e referir que ia interferir “em todos os ministérios” e até trocar ministros para proteger a sua família. “Eu não vou esperar foder minha família toda de sacanagem, ou amigos meus, porque não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha — que pertence à estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele; não pode o chefe dele? Troca o ministro. E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira”.

Todos puderam assistir a isto com direito a transmissão, na íntegra, na televisão em sinal aberto. Mas houve mais. Todos viram igualmente o ministro da Educação da altura, Abraham Weintraub, dizer que, por ele “botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF”. A frase não o largou mais, Weintraub chegou a ser ouvido no Supremo por causa das palavras, e a contestação à presença no cargo de ministro subiu para um tom insuportável, até para Bolsonaro, que sempre o defendera. A meio de junho Abraham demitiu-se e saiu do país, para os Estados Unidos.

No mesmo vídeo de 22 de Abril chamou a atenção a fala de outro ministro. Ricardo Salles, ministro do Ambiente, já tinha andado no olho do furacão por causa do desmatamento da Amazónia meses antes e desta vez a turbulência também foi grande. Salles disse que era altura de aproveitar “enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de Covid e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas. De Iphan, de Ministério da Agricultura, de Ministério do Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo. Agora é hora de unir esforços pra dar de baciada a simplificação regulam… é de regulatório que nós precisamos, em todos os aspectos”. O ministro justificou a proposta/repto com as dificuldades encontradas para implementar o que pretende, sendo que generalizou que a prática deveria ser extensível a todo o governo e não apenas ao Ambiente, “tudo que agente faz é pau no Judiciário, no dia seguinte”, rematando: “não precisamos de Congresso. Porque coisa que precisa de Congresso também, nesse, nesse fuzuê que está aí, nós não vamos conseguir… aprovar. Agora tem um monte de coisa que é só, parecer, caneta, parecer, caneta. Sem parecer também não tem caneta, porque dar uma canetada sem parecer é cana.”

Era muita coisa para digerir na altura, Bolsonaro e as interferências, Weintraub a querer “prender” os “vagabundos” do STF, mas ainda assim as palavras de Salles foram notadas e noticiadas. Apesar disso, passaram os dias e a polémica em torno do ministro do Ambiente parecia ter serenado. Até esta segunda-feira.

Procuradores do Ministério Público Federal pediram o afastamento de Ricardo Salles do cargo de ministro do Ambiente, acusando-o de agir com a intenção de desmontar a proteção ao meio ambiente no país. Numa ação pública civil, 12 procuradores acusam Salles de agir “de forma dolosa” e entregaram também um pedido cautelar de afastamento, ou seja, pretendem que ele seja imediatamente afastado do cargo, mesmo antes do julgamento da ação, justificando que caso isso não aconteça, a permanência poderá trazer consequências irreparáveis para o meio ambiente.

Uma das provas apresentadas para pedir o afastamento de Ricardo Salles é a transcrição da reunião do governo do dia 22 de Abril… E talvez valha a pena voltar a essa reunião e ao que disse outro ministro, ministra, no caso.

Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, aparece bastante irritada no vídeo, referindo-se à atuação dos governantes que haviam tomado medidas para implementar o isolamento social como “a maior violação de direitos humanos da história do Brasil nos últimos trinta anos está acontecendo neste momento, mas nós estamos tomando providências”, ameaçando os presidentes de Câmara (prefeitos) e governadores com prisão: “a pandemia vai passar, mas governadores e prefeitos responderão processos e nós vamos pedir inclusive a prisão de governadores e prefeitos”. Até hoje, e já se passaram quase dois meses e meio, não há notícia de qualquer prisão.

Colocadas as acusações/ameaças/declarações na balança da gravidade talvez Damares Alves possa continuar com a habitual polémica que a envolve, mas a coisa não passe daí mesmo. Mas por outro lado, Jair Bolsonaro, no dia em que o vídeo foi revelado, disse que ele “não tem nada. Isso é um tiro na água, se quer um tiro de festim. Foi um traque”. Ora, para tiro na água ou traque o conteúdo da reunião já agitou bastante as águas, traçando o caminho de saída de um ministro, levando ao pedido para a saída de outro, e não tirou o próprio Presidente do centro da polémica.

Ficará por aqui ou Damares Alves deverá ficar preocupada?…

* Jornalista

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