O grito de Cabo Delgado - Plataforma Media

O grito de Cabo Delgado

Há gritos que o tempo não cala. As mãos atiram-se para a cabeça. O corpo foge inteiro para o olhar. Agiganta-se num grito: “O meu filho, o meu filho!” Um grito com 42 anos. Dois passos em frente. De repente, o corpo imóvel. Como é que se agarra o passado? Aquele grito: “O meu filho!” Do centro da terra. Reconheceu-o de imediato. Não o via desde que lho roubaram. Há 42 anos. Ele tinha cinco anos, era mais baixo do que as balas. As mãos dela cravadas na cabeça, naquele grito: “O meu filho!” Como é que se abraça o filho que “o branco levou”? O filho fez-se um homem de 47 anos. Corre na direção da mãe. As lágrimas mais velozes do que as pernas. Caem num abraço. Os dois. Como no dia em que ele lhe caiu da capulana e foi agarrado pelas tropas portuguesas. Pela guerra colonial. O grito agora lágrima, felicidade já desasonhada. Mãe e filho num abraço.

Da aldeia queimada. Devagar, o fumo chega ao resto do mundo. Há-de chegar mais denso.

Foi há 10 anos e o grito de Joaquina Mgongo continua a arrepiar-me. Conheci-a no norte de Moçambique. Numa aldeia perdida, lá para as bandas de Mocimboa da Praia, província de Cabo Delgado. Nestes últimos dias, tenho pensado muito nela. Não tem telefone, nunca teve. Nem água nem luz. Mas tem a guerra à porta. Outra vez. Não fala português, só maconde, mas os sentimentos dispensam dicionário. “O meu filho!” Onde estará Joaquina? Será uma das milhares de vítimas do terror que toma conta da região? Sabe bem o que é fugir para o mato, correr pelo capim, filhos e medo às costas. Aquele grito colou-se às nossas vidas, passados dias de busca. Uma fotografia com 42 anos, ela e o filho, o miúdo vestido de tropa, única esperança de lhe encontrar o paradeiro. Aldeias e aldeias, “conhece esta senhora?”. Os olhos dos mais velhos cravados na fotografia, nas feições actuais do filho. Depois, num espanto: “Ba, o filho que o branco levou”. O filho que os militares portugueses fizeram mascote de guerra. Arrumaram na bagagem e despacharam para Lisboa. Por cá, cada um foi à sua paz. E ele, o filho de Joaquina, espigou num carro abandonado, sem saber quem ela era. Tão-pouco, quem ele próprio era.

Guerra é guerra, são todas iguais. E a guerra voltou à terra de Joaquina. Ninguém sabe ao certo em que mãos andam as armas, há quem apregoe o autoproclamado Estado Islâmico, há a Al-Qaeda, há grupos armados ligados a militares. E há uma terra rica em jazidas de gás. Cobram a paz, espalham o terror. Crianças, mulheres, homens a correr pela vida. Numa aldeia, 11 decapitados num só dia. Mas quem corre sem destino, não sai do lugar. Da aldeia queimada. Devagar, o fumo chega ao resto do mundo. Há-de chegar mais denso. O terror cresce como erva daninha. Sem condições, os Médicos Sem Fronteiras abandonam o posto. O bispo de Pemba permanece de pedra e cal. Para dar voz aos que não têm. Para nos fazer ouvir o grito de Joaquina. O grito de Cabo Delgado. “O meu filho, o meu filho!” Estaremos surdos?

*Jornalista

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