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É possível apagar a História?

Alexandra Vieira*

Da volatilidade do tempo e dos ventos que nele sopram nos ensina a História. Muitos dirão que se repete, mas, na verdade, e como diz Camões, “assumem sempre novas qualidades”. No entanto, aquilo que aparece como novo ou diferente nem sempre o é, e representa a vontade de retroceder a tempos ou a ideias em que a liberdade de reivindicar mudanças foi posta em causa.

O devir da História faz-se com as pessoas, que de um lado reivindicam um mundo melhor, mais justo, mais igual e onde se possa viver melhor, em oposição àqueles, poucos, que resistem em ceder nos seus direitos e privilégios. É o motor da História, na senda de Marx, ou seja, a luta de classes.

A memória, por sua vez, e sobretudo a coletiva, mantém vivos outros tempos e outros ventos, que prevalecem ao longo das épocas. Poucos saberão que em determinados montes, onde existe uma capela, já existiu um castro[1] e que foi a romagem constante ao local onde habitavam os antepassados que originou a construção da ermida.

O consenso mínimo possível será sempre o do enaltecimento dos Direitos Humanos, da Liberdade, da Igualdade, da Justiça, da Paz e da Democracia

A memória coletiva é também seletiva. Escolhe aquilo que quer lembrar, independentemente da História. Uma é construção social e política e a outra dá conta do tempo passado, no seu todo, embora, na verdade, ambas se alimentem mutuamente. Nos tempos atuais e nos ventos ameaçadores que os percorrem, homenagear coletivamente um homem justo é também lembrar a História e o tempo de obscurantismo em que viveu.

No século XX, após a Primeira Guerra Mundial, o mundo celebrou, eufórico, o fim da que ficou conhecida como a Grande Guerra, a que iria trazer o fim de todas as outras. Duas décadas depois iniciar-se-ia o segundo conflito mundial, mais avassalador ainda dado o elevado número de mortes que causou entre civis, único na História. A razão destes milhões de mortos tem a ver com o genocídio praticado pelo nazismo, que, na defesa da suposta superioridade ariana, persegue e extermina milhões de judeus, perante a passividade perplexa e inicial das poucas democracias europeias que mal resistiam aos ventos de pendor fascista.

É neste contexto de plena guerra e com a “solução final” em curso que homens como Aristides Sousa Mendes, arriscando a sua carreira, reputação e segurança, até da sua família, autoriza vistos a milhares de judeus em fuga da Europa, a partir do seu consulado em Bordéus. Avisado por Salazar, ditador fascista, persiste na sua missão, é afastado da carreira e termina os seus dias esquecido. Esse esquecimento perdurou, mas não se eternizou. Por um lado, o seu nome ficou inscrito na História, por outro, os descendentes dos que foram salvos trataram de o tirar de penumbra a que o regime salazarista o tinha condenado e para o qual a democracia tardou em trazer à luz do dia.

O olhar científico da História sobre o devir das sociedades humanas não é neutro, é contextualizado numa época, é diverso e, não raramente, é antagónico. Mas isso não faz da História uma “ciência menos científica”[2]. Pelo contrário. Como qualquer ciência, evolui a partir das questões que se é capaz de fazer ao conhecimento já produzido na busca da compreensão constante das sociedades, em toda a sua complexidade. Não há conhecimento imutável nem neutro em nenhuma ciência. No entanto, o que aconteceu no passado mais ou menos remoto, se pode ser escondido, não é passível de ser apagado.

O consenso mínimo possível será sempre o do enaltecimento dos Direitos Humanos, da Liberdade, da Igualdade, da Justiça, da Paz e da Democracia. Outros pressupostos podem ser incluídos, como a relevância para as artes ou para a ciência. A decisão de homenagear Aristides Sousa Mendes no Panteão, aprovada por unanimidade pelos deputados presentes na Assembleia da República, reunida a 9 de junho de 2020, precedida de debate, pode ser inscrita nessa lógica e, nesse sentido, constituir-se um exemplo. Mas serão sempre construções sociais e coletivas, contextualizadas num determinado tempo histórico-espacial, que significam uma decisão, de preferência debatida, a memória coletiva escolhe evocar.

[1] Pequeno povoado fortificado localizado no cimo dos montes, caraterístico do Noroeste Peninsular, até à chegada dos Romanos. Integra a designada civilização castreja, sem escrita e com uma economia assente na pastorícia e numa agricultura pouco desenvolvida.

[2] Aqui deve ser feita uma ressalva sobre a História que se ensina, a qual, por sua vez, é uma construção social e um instrumento político, influenciável por uma academia que tem também uma palavra e uma responsabilidade, no que se ensina.

*Deputada do Bloco de Esquerda à Assembleia da República Portuguesa, eleita pelo círculo de Braga

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